O FUTEBOL EM COMUNIDADES RURAIS

Nayara Cardoso de Oliveira e Thauan Santana Fonseca

Quando nos referimos ao entendimento do que vem a ser um quilombo e sua importância social, nosso senso comum logo volta-se a um ambiente de refúgio de escravizados; ou até mesmo uma comunidade oriunda do processo de abandono de terras por ex-proprietários; ou doado pelo estado para que um grupo social possa ter acesso a terras; algo muito no sentido de ser uma mera “obrigação” diante de tudo que o processo escravista causou. Mas a verdade é que de fato, esquecemos de todo o valor cultural, social e material que essas comunidades exercem. E um desses valores pode ser compreendido a partir do desenvolvimento do esporte e de tantas outras práticas sociais e culturais que envolvem os quilombos, pois abarca todos esses aspectos culturais, identitários e materiais.
A relação do esporte nas comunidades rurais negras permite assim, identificar e compreender mudanças e até mesmo transformações sociais nesses agrupamentos. É importante destacar que as atividades esportivas nos quilombos não se restringem somente ao futebol, mas compreende a caminhada, corrida, entre outras. Elas estão interligadas ao desenvolvimento de práticas culturais, contendo no uso de seus atributos, normas, valores, e até mesmo representações em sua base, estrutura social e estilo de vida; carregando, assim, aspectos voltados para o uso do sentimento, do pertencimento, do coletivo e da própria cidadania.
Neste sentido, é importante destacar que o senso do pertencimento é marca registrada nessas comunidades, até mesmo por uma questão de segurança e conhecimento dos sujeitos residentes na própria comunidade. Contudo, o esporte é uma prática social atrativa a todos, independente de níveis sociais, etnia ou gênero, e nas comunidades rurais negras não é diferente; especificamente com relação ao futebol, que entre os sujeitos das comunidades é uma das principais práticas esportivas, seja por sexo ou grupo etário.
Um exemplo disso está registrado na comunidade de Tomé Nunes, que é uma comunidade localizada no sertão baiano. Nessa comunidade foi feito um estudo memorialístico, onde, naquela agremiação, observou-se que o futebol é considerado uma das representações culturais da localidade, inclusive as orações, festas locais e as danças.
Todavia, observa-se que o futebol é considerado uma atividade esportiva que vai além de uma recreação ou preenchimento do ócio. Nas próprias comunidades rurais o futebol é tido como uma atividade de organização e até mesmo de mobilização política, contribuindo efetivamente na estruturação e, sobretudo, no desenvolvimento cultural e social do quilombo.
No entanto, observa-se que o futebol é praticado com algumas diferenças do modo convencional, ocorrendo modificações no número de jogadores, duração da partida e até mesmo o próprio cenário do jogo é adaptável: traves de madeira, campo de barro, marcações a cal – flexibilizando, inclusive, as dimensões do campo conforme a disponibilidade de espaço (geralmente nas proximidades de áreas residenciais, favorecendo o envolvimento da comunidade). Nessa perspectiva, observa-se que o esporte nas comunidades negras rurais, busca o desenvolvimento de duas áreas específicas: esportiva e identitária, pois envolve os residentes das localidades; e cultural, visto que, transcende a atividade esportiva em si, revelando-se um atrativo sociocultural.
É imperioso o respeito e a manutenção das tradições dos povos e comunidades tradicionais, sendo o futebol detentor de uma relação paradoxal, especialmente com os povos afrodescendentes. Temos o campo esportivo como um dos raros espaços de valorização, e o esporte em si que costuma agregar grandes valores mercadológicos. Nesse aspecto, é inegávela condição de valorização do negro, por vezes colocado como predestinado geneticamente para as performances esportivas.
Contudo, vale ressaltar que tal fenômeno não se aplica apenas no futebol. Há uma grande variedade de jogos e atividades esportivas diversas praticadas nas comunidades, e que suas regras e possibilidades ultrapassam o campo de futebol.É preciso considerar as histórias e as evidências dos povos das comunidades como parte da sociedade brasileira e que muito colaborou para a formação do Brasil atual. Faz-se necessário que a sociedade escute as reinvindicações das comunidades associadas, uma vez que a realidade das comunidades rurais é marcada pela ausência de apoio do poder público e privado ao meio rural, incidindo na falta de investimentos e valorização daquelas comunidades. A preferência por modelos econômicos que visam investimentos em áreas urbanas, contribui para a desvalorização das comunidades.
Não por acaso o grande poeta Carlos Drummond de Andrade se rendeu ao amor pelo futebol.
Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
Futebol se joga na rua,
Futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
Para craques e pernas de pau.
Mesma a volúpia de chutar
Na delirante copa-mundo
Ou no árido espaço do morro.
São voos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
O jogador, gravado no ar
– Afinal, o corpo triunfante
dá triste lei da gravidade.

Nayara Cardoso de Oliveira, mestranda do Mestrado Profissional em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas- UFRB; Thauan Santana Fonseca – Mestrando do Mestrado Profissional em História, da Diáspora e dos Povos Indígena – UFRB

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