Vânia Azevedo
Como se não fosse bastasse um passado marcado pela subjugação da mulher pelo poder masculino, inegavelmente vivemos um outro momento de renovação cultural na sociedade, mas ainda nos deparamos com homens machistas e mulheres que, incapazes de se libertar da cultura inerte e obsoleta de outrora, reproduzem nos filhos a criação machista que receberam, indiferentes às consequências que o machismo produz na sociedade. O homem que não tolera a mulher que tem atitude, sobretudo se bem sucedida profissionalmente, e encara a mudança de padrão no feminino como terrível ameaça ao”papel” na liderança familiar que ainda acredita ser propriedade do sexo masculino.
Mesmo após séculos de incansável luta, essa história tem sido marcada pela existência de mulheres realmente corajosas, que sofreram e pagaram um preço muito alto para que chegássemos até aqui. Por essa razão, as mulheres não estão dispostas a ceder à truculência daqueles que trabalham em pró do retrocesso, acreditando que podem deletar toda uma história de superação e transformação de uma sociedade.Partindo desse princípio, é possível crer que essa mudança de postura no feminino pode explicar o comportamento violento do homem e a perpetuação do machismo, que tem contribuído para o alto índice de violência contra a mulher.
No momento somos o quinto lugar no ranking mundial de violência contra a mulher – estando a frente até mesmo de países árabes onde a mulher sofre desvalorização por consequência da Lei Islâmica – um cristalinoreflexo do conformismo resultante de uma nação que, sob o jugo do patriarcalismo, historicamente discriminou a mulher. E ainda que a realidade venha mudando, a prática expressa ou velada da misoginia segue fazendo suas vítimas.
Quando nos detemos a analisar o momento atual, naturalmente não podemos pensar a questão da violência contra a mulher com base em fatos isolados. Diante do cenário de horror que se desenha, estamos falando de um caso de saúde pública.Questões que demandam a criação de políticas públicas que, através da educação venha a promover a igualdade de gênero, e com ela um cenário mais favorável à mulher em termos de igualdade, para uma efetiva mudança na construção da sociedade. Precisamos de políticos verdadeiramente comprometidos com essa realidade, onde as promessas não se percam aos ventos de campanha. Até então, temos combatido o efeito, visto que depois de cometido o crime nada mais se pode fazer.
Trata-se de uma realidade cruel que parece fora de controle,que vem se estabelecendo no dia a dia da sociedade de forma recorrente, exatamente porque inúmeras vezes a própria polícia ignora as ameaças e nenhuma providência é tomada como prevenção,levando a vítima a óbito pela obstinação do perseguidor.Enquanto isso, dispara o número de mortes no Brasil, e são exatamente os casos de violência doméstica que desencadeiam um número cada vez mais assustador de casos de feminicídio.
Todavia, o que parece maislamentável é que enquanto a frequência dos casos engorda as estatísticas, a ideia que se tem é que já é possível sentir a banalização desses crimes contra a mulher. A violência contra mulheres é progressiva, assim como as cenas de machismo, cujo conhecimento das sucessivas agressões fica restrito a quatro paredes: mesmo quando não mata, deixa suas vítimas marcadas tanto fisicamente como psicologicamente. São mulheres e crianças vivendo o terrorismo doméstico, sem poder denunciar sob pena de perder a própria vida.
Ainda que pareça que tudo mudou, na verdade os crimes de feminicídio seguem ilustrando as manchetes dos maiores jornas do país, a exemplo dos casos de estupro que invadem o noticiário nacional. Sempre alegando o inconformismo pelo final do relacionamento – geralmente conflituoso e abusivo – os homens agridem e, quando denunciados, voltam e matam suas vítimas. A ação da justiça tem sido frágil e ineficiente. Enquanto isso, cientes da impunidade, eles já não temem mais a polícia – sem falar que inúmeras vezes o agressor é um policial – por se achar acima da lei. São cenas que se repetem no dia a dia e, ainda que mude a vítima, as razões são sempre as mesmas: o machismo exacerbado que se revela através de uma convivência marcada pela violência e sucessivas agressões no âmbito doméstico.
Geralmente, a condição do agressor dispensa condição social: seja pobre ou rico; se é empregado ou desempregado; analfabeto ou culto. A motivação geralmente é o pedido de separação que eles não aceitam (normalmente provocada pelos maus-tratos sucessivos), ou a rejeição a um relacionamento que nem chegou a ter um início. Não dá para ignorar essa explosão de violência que tem feito tantas vítimas (não importa a razão) e tem deixado as pessoas agressivas e possessivas.
Os casos de abuso sexual se multiplicam e o número de mulheres que carregam consigo o trauma de um estupro só não é maior pela vergonha que algumas possuem de tornar público; ou, na maioria das vezes, por não acreditar na justiça.
É tácito que o ranço do machismo tem um papel bastante relevante em tudo isso, realidade evidenciada nas declarações machistas e misóginas do presidente da república (quando alega haver dado uma fraquejada ao ver nascer sua filha) que reverbera entre os covardes, numa contundente exaltação ao machismo.
Sem dúvida vivemos momentos em que, quando mais precisamos de vozes que possam tornar-se referência e venham a contribuir para a extinção do machismo e da violência que lhe é peculiar, eis que no mais alto posto de comando da nação está alguém que não reúne moral para ser nem mesmo líder da turma do boteco da esquina, muito menos para o cargo que ocupa.
Sua postura sarcástica, seus comentários debochados, quando não incita a violência, mente descaradamente, denunciando a sua insignificância ao tecer comentários insidiosos com respeito às mulheres, traduzidosem frases fragmentadas de cunho depreciativo.
Achar que essa postura não tem o efeito de um barril de pólvora na sociedade, é a própria negação da realidade, onde os seus seguidores tocam o terror e se espalham onde quer que estejam. E quem quiser viver em paz, ignorar ainda é a melhor arma.
Vânia Azevedo é professora.

