O JOGO INGLÊS

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Acredito que a essa altura, quando essa crônica começa a circular, seja de forma impressa ou digital, o país esteja comemorando a classificação da Seleção Brasileira de Futebol Masculino para as semifinais da Copa do Mundo de 2022, a julgar por meu palpite, para enfrentar a Holanda. A não ser que Messi tenha feito, mais uma vez, a diferença nesse mundial. Até o fechamento do presente texto, as quartas de final estavam assim definidas: França e Inglaterra – Portugal x Marrocos – Brasil x Croácia- Holanda x Argentina.
Até que meus exercícios de futurologia se confirmem ou não, dedico minha atenção aos donos da bola ou, ao menos, aos inventores: os ingleses; que para Peter Burke, e Maria Lucia Garcia Pallares (Os Ingleses, editora Contexto, 2016) tornou-se uma construção identitária das mais complexas da Europa e ao mesmo tempo uma das mais emblemáticas, se pensarmos, por exemplo, na resistência de uma monarquia idolatrada pelo povo em pleno avançar do século XXI.
Antes do futebol se tornar profissional e ser curtido boa parte da população mundial, ele foi restrito a classes abastadas e era amador por natureza e essência. Isso, até dois jovens ingleses, operários, se tornarem protagonistas, sobretudo o primeiro. Refiro-me à FergusSuter (1857-1916) e a Jimmy Love (1858-1882) e um reviravolta importante e definitiva no esporte.
Jogando originalmente no Patrick F.C. (Escócia), mudaram para a Inglaterra para defenderem o Darwen F. C., um clube de uma fábrica, cujo dono os contratou para jogar, algo muito incomum à época e até motivo de expulsão dos times da Federação Inglesa de Futebol. Eles jogavam algo completamente moderno e ousado para a época, atraindo a atenção de outros clubes operários e a ira dos cavalheiros ingleses, inventores do futebol e de suas primeiras e principais regras, algumas das quais ainda em voga.
Quando um primeiro time operário ganhou a Copa Inglesa pela primeira vez, o Blackburn Olympic, em 1883, os “donos da bola” se viram obrigados a aceitar o inevitável: a popularização do futebol e, consequentemente, a sua profissionalização; ultrapassando as fronteiras do Império Britânico e até mesmo, ironicamente, por conta de seu domínio econômico e cultural entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, se espalhando pelo mundo.
A profissionalização do futebol aconteceu pouco tempo depois daquela partida histórica, em 1855. No Brasil, a partir do dia 23 de janeiro de 1933. Nunca é demais lembrar que foi no início da Era Vargas. O presidente Getúlio Vargas soube usar muito bem a popularidade do esporte a seu favor como propaganda ideológica. A invenção dos ingleses ganhou um jeito todo especial com o país, que não tardou a alcançar a hegemonia com seis títulos mundiais: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2022. Enquanto a Inglaterra, apenas um, em 1966, jogando como anfitrião do torneio.
Quanto à seleção inglesa de 2022, a julgar pelo seu desempenho até agora, apresenta um dos melhores elencos e enfrenta a França, neste sábado. Se passar, poderá voltar ao cenário de que esteve acostumada desde 1855, quando surgiu o primeiro time de futebol no mundo, em Sheffield, abrindo espaço para a criação da Football Association (FA), em 1863 e InternationalFootball AssociationBoard (IFAB), tudo em Londres, em 1886.
Atualmente, o Futebol Inglês é realizado, modernamente, desde 1992, com a criação da Premier League. Paralelamente, segue sendo realizada a Copa da Inglaterra, desde 1871, sendo o campeão da temporada 2022, o tradicional Liverpool. Graças a visionário como FergusSuter, para além de ser o jogo inglês, o futebol é paixão nacional no Brasil e em várias partes do mundo. Em grande medida, entristeceu àquela velha guarda do início, sim, pois se transformou num grande e às vezes corrupto negócio. Todavia, é um dos esportes mais incríveis do mundo, capaz de até mesmo suspender guerras e aproximar povos diferentes. Vida longa ao jogo inglês!

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