Pedro Abel Vieira & Manoel Moacir Costa Macêdo
As questões sanitárias na pós-pandemia alteraram as estratégias comerciais na globalização. Elas ultrapassaram as contingências especificas do mercado financeiro, para causar instabilidade econômica nas economias exportadoras de commodities. O Brasil não está imune a essa realidade. Cenários de ameaças indicam que o País poderá sofrer uma recessão de grande expressão, maior que outras anteriores.
Os juros e a formação bruta de capital estão entre os indicadores recessivos. Uma conjuntura de dificuldades atingirá os anos seguintes. A recuperação exigirá, além de investimentos para retomada econômica, mas uma revisão nos modelos de negócios e o fortalecimento de setores com alcance social. No mundo desenvolvido, a problemática ambiental se constitui no mote da vez. Destaque para o ESG, sigla em inglês que significa meio ambiente, sociabilidade e governança. Exigências na trajetória da produção ao consumo. Referência em curso na modelagem de ativos negociados no mercado de capitais.
A Comissão Europeia está avaliando estabelecer um imposto sobre o carbono das importações, o que poderá redefinir a competitividade global. Não é o acaso e nem desejo de ambientalistas que a economia global priorizará o investimento verde, a pandemia apenas acelerou uma onda identificada pelo Clube de Roma na década de setenta. Mas as exigências de um consumidor esclarecido e exigente em bens saudáveis e livres de agressões a natureza e a dignidade humana. As ondas de inovação, como a energia a vapor e as redes digitais, trouxeram prosperidade para as nações desenvolvidas, e pouparam mão-de-obra, mas, desprezaram as externalidades ambientais.
O tempo do ganho linear de produtividade dos fatores, como a produtividade da mão de obra, está em esgotamento. A atenção se deslocou para os recursos naturais e a crescente inquietação quanto a capacidade de consumo dos bens terrenos. A Terra não suporta um consumismo exagerado dos seus recursos naturais. Uma nova ordem econômica está sendo posta, dessa feita calcada no desenvolvimento sustentável com ênfase nos recursos naturais e na prosperidade de um futuro produtivo, socialmente justo e ambientalmente cuidadoso.
Para o Observatório da Federação Brasileira dos Bancos -FEBRABAN, os países menos desenvolvidos na África e na Ásia, além da China, são os maiores receptores do financiamento verde. O Brasil, apesar de 74% dos brasileiros afirmares que tem “muito ou algum interesse no meio ambiente” e 78% mostram que estão “pouco ou nada satisfeitos com a preservação ambiental”, a estratégia de desenvolvimento nacional não está em linha com essas tendências da sociedade brasileira. Quando os brasileiros são indagados sobre a “sustentabilidade”, os resultados indicam que “42% acolhem o bem-estar, saúde e renda das comunidades como as suas maiores preocupações” e 38% acredita “nas questões ambientais, como poluição, aquecimento global, desmatamento, lixo e no uso da água, como os recursos relevantes para a vida.
Uma contradição a ser acolhida pelo Estado brasileiro em suas políticas públicas. O Brasil possui um grande ativo ambiental e a sociedade apoia o desenvolvimento verde. É verdade que os investimentos verdes vêm aumentando no país, mas, em ritmo insuficiente. Em 2012, menos de 18% do crédito às pessoas jurídicas era direcionado às atividades enquadradas na economia verde. Em 2020, esta participação subiu para 22%. Em relação às atividades com maior exposição ao risco ambiental, a participação caiu de 50%, em 2012, para 44% em 2020.
A solução está posta. Investimentos em infraestrutura verde em escala global. Serviços de abastecimento de água e saneamento, assim como mudanças no suprimento de energia, reciclagem e eficiência. O Brasil está muito bem posicionado na geração de energia em fontes alternativas como a biomassa, a fotovoltaica, a eólica e a hidroelétrica. Assim sendo, possuidor de energia limpa, gente comprometida com o meio ambiente, verde e muita fé, falta apenas do Estado brasileiro abraçar o verde em suas políticas públicas, independente das outras cores que reluzem em sua bandeira.
(Adaptado do artigo “Por um Brasil mais verde” de Pedro Abel Vieira, Antônio Marcio Buainain, Elísio Contini e Roberta Dalla Porta Grundling).
Pedro Abel Vieira e Manoel Moacir Costa Macêdo são engenheiros agrônomos


