Do conflito à boa amizade e de repente o choque

* Rômulo Rodrigues

É difícil externar um sentimento quando se começa a narrativa pelo final, mas foi o que me paralisou terça feira 23 de junho que é data especial no calendário familiar por ser a que registra a chegada ao mundo da pessoa que amo e, amo por demais e com quem comemoro aniversários de casamento junto às massas trabalhadoras a partir de 1º de maio de 1972, cuja celebração foi em 1971.
Pois foi nessa data que em comemoração na Praça do Siqueira Campos que um conflito por causa de um intrometido Trio Elétrico que provocou acirramento entre manifestantes e uma guarnição da PM me colocou frente a frente com o 1º tenente Luiz Fernando, ele como comandante do policiamento e eu como presidente da CUT.
O fato em si era até previsível; mas, o desdobramento foi inusitado pois não houve troca de palavras e em poucos segundos ele recolheu seu comandados e eu os meus e as comemorações prosseguiram sem mais nenhuma ocorrência extracampo.
Passadas algumas semanas fui procurado pelo líder do MST em Sergipe, João Daniel que manifestou o desejo de patrocinar um encontro entre nós dois, no que houve concordância e aí, começou o processo de construção de uma boa amizade, resumida a debates no saboreio de umas cervas geladas e alguns tira-gostos quando as ideias foram se consolidando nas leituras de nossas realidades.
Como o tempo passa rápido ou devagar dependendo do compasso dos acontecimentos nos encontramos no conflito da ocupação de terras da Usina Santa Clara em Capela e naquela vez, desempenhando quase a mesma função; ele como observador e assessor do secretário de segurança pública Dr. Welington Mangueira, no governo Albano Franco e eu como representante da CUT, ocasião em que afinamos muitos pontos de vista, principalmente sobre a necessidade de apoio à Reforma Agrária.
Com a eleição de Marcelo Déda como prefeito de Aracaju em 2000 e ele tendo anunciado nomes de oficiais da Polícia Militar para comandar a Guarda Municipal de Aracaju, o fato gerou uma crise interna na PM que acabara de receber, nomeado pelo governador, um novo comandante requisitado junto ao comendo regional do exército e que não fora informado das seções dos seus comandados.
Foi então que fui procurado pelo já major Luiz Fernando me pondo a par do clima e afirmando que teríamos que encontrar uma saída diplomática e, após algumas análises, concordamos que, em cima da hora, para a posse do novo prefeito e equipes, somente um almoço seria o ambiente ideal para acalmar os ânimos e assim combinamos uma feijoada no apartamento de Luiz Fernando e lá comparecemos eu, o prefeito eleito, o novo comandante da PM e o ex-comandante coronel Prudente convidado do anfitrião.
Feitas as devidas apresentações pelo anfitrião e mestre de cerimônia o nosso eloquente prefeito tomou a palavra e começou a apresentar ao convidado sua visão de como comandar um exército, aprofundando-se na forma napoleônica, no exército prussiano e tome eloquência que as doses do bom Scotch permitiam.
Em dado momento, ante o silêncio coletivo e muito educadamente fiz a intervenção devida; introduzi um pedido de licença e indaguei ao personagem central da reunião; coronel, o senhor tem algum interesse de ser prefeito de Aracaju? Surpreso, ele respondeu que não que a missão que lhe fora designada era outra, e ai fiz a última intervenção; sendo assim, sugiro que se proceda aos esclarecimentos porque nenhuma das partes presentes tem algo a ver com o princípio do mal entendido e aí, surgiu uma gargalhada dada pelo coronel Prudente e, só ele poderá dizer se a narrativa corresponde à verdade dos fatos, e assim podemos dizer que nosso oficial da PM Luiz Fernando atuou para resolver a primeira crise que poderia criar problema para o novo prefeito.
Então, logo nos primeiros meses do mandato de Déda na PMA, promovi um encontro almoço com Luiz Fernando e Luiz Alberto no meu apartamento e lancei a inquietação; a escalada do jovem prefeito será a de em poucos anos ser governador do Estado de Sergipe e, sendo assim, quando a Polícia Militar sergipana terá encerrado esse quase permanente estado de conflito interno?
A resposta de Luiz Fernando foi rápida e certeira; quando determinado oficial passar pelo comando da corporação, e foi o que aconteceu e aqui deixo o registro: uns dois ou três dias do nascimento do caçula do casal governamental, o governador Marcelo Deda transferiu a capital do estado para São Cristóvão e, tendo como convidados de honra os governadores do Piauí Wellington Dias e de Pernambuco Eduardo Campos em que fez a apresentação das tropas da PM, apresentando seu novo comandante.
Logo após as cerimônias comemorativas o então tenente coronel Luiz Fernando Silveira de Meneses observa de longe uma conversa rápida entre eu e o professor Luiz Alberto e se aproxima com a pergunta: posso dizer sobre o que os dois estavam conversando? De pronto, me antecipei e disse; era sobre o que você está pensando!
O amigo Luiz Fernando, torcedor do Fluminense como eu, esteve presente nas comemorações dos meus 70 e 80 anos de idade e eu estive com muita honra nos seus 60; pego de surpresa, triste e em choque com a notícia de sua partida, deixo o meu sentimento de que o amigo nos deixou muito antes do combinado, para tristeza de toda nossa família!

* Rômulo Rodrigues, sindicalista aposentado, é militante político

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