O rei mal coroado

* Antonio Passos
Um reino, do qual não quero lembrar o nome, passava por um período de prosperidade, sobretudo para as camadas mais pobres da população. Havia lá muita míngua e grandes desigualdades sociais, porém, era evidente que já alguns reis e o monarca atual vinham demonstrando sensibilidade e adotando providências para tornar aquela terra um lugar mais justo para os que lá viviam – resultados começavam a aparecer.
Naquele reino havia um homem muito bem situado politicamente. Estava assentado no mais alto nível da corte e não tinha motivos para se queixar de qualquer restrição material para ele ou para a família. Entre os filhos, inclusive, aqueles que já haviam atingido a maioridade estavam todos muito bem colocados em importantes funções palacianas.
O rei do tempo da prosperidade era um homem estimado interna e externamente. Tinha tal habilidade para lidar com as coisas do estado que parecia governar como se estivesse brincando. Era visto quase sempre sorridente e em animadas conversas com os conselheiros, com os representantes dos diversos setores da sociedade que acorriam ao palácio, com o povo em geral ao caminhar pelas ruas e assim também com governantes de outros povos. Fato é que aquele bom humor contagiou todo o reino. Uma exceção, quase solitária (foi o que pareceu de início), era o exitoso armeiro mencionado no parágrafo anterior a este. Sempre carrancudo ou até raivoso, ao ensaiar, por conveniência, algum gesto público de descontração o resultado não convencia.
O belicoso senhor dispunha de tudo o que para a maioria não passava de devaneio lotérico, contudo, aparentava não saber bem aproveitar nada daquilo, pois, permanecia sufocado pelo mal humor. Vivia, intimamente, comparando-se com as outras pessoas e era possuído por uma alucinante sofreguidão sempre que enxergava alguém como superior a ele. Mergulhado nesse tormento concluiu que apenas o rei, que detinha o maior poder, poderia ser realmente feliz. Decidiu então que dedicaria todos os segundos de vida que ainda lhe restassem ao projeto de ocupar o trono real.
Contratou secretamente e dissimulou um exército entre a população, por todos os cantos do território, com a missão de caluniar a figura do rei. Após esse e diversos outros ardis menos pronunciáveis, o poderoso cortesão mancomunou-se com um grupo que se dizia revoltado com a grande quantidade de dinheiro "jogado fora" em investimentos sociais. Um golpe foi dado e, por fim, a coroa foi colocada na cabeça do irascível. Os primeiros dias foram de festa, porém, muito cedo toda a sisudez retornou. Sentia-se o novo rei massacrado diante dos compromissos requeridos pelo reinado. Aquilo que pelo destronado e humilhado monarca anterior era enfrentado com ânimo e alegria, assombrava e enfadava o mandatário de agora.
Incomodado por alegria e liberdade alheias e intolerante com qualquer comportamento que não coubesse em sua estreita cartilha moral, tratou de passar a foice nos benefícios públicos implementados pelos antecessores e a agir como um inquisidor de costumes – descobriu que só assim sentia algum bisonho contentamento.
Diz a lenda que um cantador do reino, desencantado, compôs e cantou uma canção que ecoou pelo tempo afora na memória do povo. Assim cantou o cantador: "Já vou embora / Mas sei que vou voltar / Amor não chora / Se eu volto é pra ficar / Amor não chora / Que a hora é de deixar / O amor de agora / Pra sempre ele ficar / Eu quis ficar aqui / Mas não podia / O meu caminho a ti / Não conduzia / Um rei mal coroado / Não queria / O amor em seu reinado / Pois sabia / Não ia ser amado / Amor não chora / Eu volto um dia / O rei velho e cansado / Já morria / Perdido em seu reinado / Sem Maria / Quando me despedia / No meu canto lhe dizia".
* Antonio Passos é jornalista

Incomodado por alegria e liberdade alheias e intolerante com qualquer comportamento que não coubesse em sua estreita cartilha moral, tratou de passar a foice nos benefícios públicos implementados pelos antecessores e a agir como um inquisidor de costumes

* Antonio Passos

Um reino, do qual não quero lembrar o nome, passava por um período de prosperidade, sobretudo para as camadas mais pobres da população. Havia lá muita míngua e grandes desigualdades sociais, porém, era evidente que já alguns reis e o monarca atual vinham demonstrando sensibilidade e adotando providências para tornar aquela terra um lugar mais justo para os que lá viviam – resultados começavam a aparecer.
Naquele reino havia um homem muito bem situado politicamente. Estava assentado no mais alto nível da corte e não tinha motivos para se queixar de qualquer restrição material para ele ou para a família. Entre os filhos, inclusive, aqueles que já haviam atingido a maioridade estavam todos muito bem colocados em importantes funções palacianas.

O rei do tempo da prosperidade era um homem estimado interna e externamente. Tinha tal habilidade para lidar com as coisas do estado que parecia governar como se estivesse brincando. Era visto quase sempre sorridente e em animadas conversas com os conselheiros, com os representantes dos diversos setores da sociedade que acorriam ao palácio, com o povo em geral ao caminhar pelas ruas e assim também com governantes de outros povos. Fato é que aquele bom humor contagiou todo o reino. Uma exceção, quase solitária (foi o que pareceu de início), era o exitoso armeiro mencionado no parágrafo anterior a este. Sempre carrancudo ou até raivoso, ao ensaiar, por conveniência, algum gesto público de descontração o resultado não convencia.

O belicoso senhor dispunha de tudo o que para a maioria não passava de devaneio lotérico, contudo, aparentava não saber bem aproveitar nada daquilo, pois, permanecia sufocado pelo mal humor. Vivia, intimamente, comparando-se com as outras pessoas e era possuído por uma alucinante sofreguidão sempre que enxergava alguém como superior a ele. Mergulhado nesse tormento concluiu que apenas o rei, que detinha o maior poder, poderia ser realmente feliz. Decidiu então que dedicaria todos os segundos de vida que ainda lhe restassem ao projeto de ocupar o trono real.

Contratou secretamente e dissimulou um exército entre a população, por todos os cantos do território, com a missão de caluniar a figura do rei. Após esse e diversos outros ardis menos pronunciáveis, o poderoso cortesão mancomunou-se com um grupo que se dizia revoltado com a grande quantidade de dinheiro "jogado fora" em investimentos sociais. Um golpe foi dado e, por fim, a coroa foi colocada na cabeça do irascível. Os primeiros dias foram de festa, porém, muito cedo toda a sisudez retornou. Sentia-se o novo rei massacrado diante dos compromissos requeridos pelo reinado. Aquilo que pelo destronado e humilhado monarca anterior era enfrentado com ânimo e alegria, assombrava e enfadava o mandatário de agora.

Incomodado por alegria e liberdade alheias e intolerante com qualquer comportamento que não coubesse em sua estreita cartilha moral, tratou de passar a foice nos benefícios públicos implementados pelos antecessores e a agir como um inquisidor de costumes – descobriu que só assim sentia algum bisonho contentamento.
Diz a lenda que um cantador do reino, desencantado, compôs e cantou uma canção que ecoou pelo tempo afora na memória do povo. Assim cantou o cantador: "Já vou embora / Mas sei que vou voltar / Amor não chora / Se eu volto é pra ficar / Amor não chora / Que a hora é de deixar / O amor de agora / Pra sempre ele ficar / Eu quis ficar aqui / Mas não podia / O meu caminho a ti / Não conduzia / Um rei mal coroado / Não queria / O amor em seu reinado / Pois sabia / Não ia ser amado / Amor não chora / Eu volto um dia / O rei velho e cansado / Já morria / Perdido em seu reinado / Sem Maria / Quando me despedia / No meu canto lhe dizia".

* Antonio Passos é jornalista

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