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Os economistas e suas “verdades”


Publicado em 03 de março de 2023
Por Jornal Do Dia Se


Abraham B. Sicsú

Existem inúmeras linhas teóricas que procuram analisar a realidade econômica, suas tendências, seus caminhos. Generalizar seria exagero. Mas, sem dúvida, há uma corrente principal, uma linha com a qual, infelizmente, todas as visões têm que dialogar, até para se contrapor. A essa se chama de “mainstream”, ou seja, a tendência dominante.
Exatamente com essa é que quero debater. Ela condiciona o senso comum sobre o fato econômico, ela se torna norte para analistas de diferentes áreas, principalmente os formadores de opinião. Nesse sentido, fundamental compreender sua base conceitual, como se estrutura, como chega às conclusões que se tornam “inquestionáveis, verdades que devem ser assumidas” (?).
Um primeiro ponto a ressaltar é que consideram a economia uma ciência. Não uma ciência qualquer, nem mesmo uma social, é como se fosse uma ciência exata. Não há ingenuidade nessa postura, é proposital. Evita debater polêmicas e se apoia no axioma de que o estado vigente da estrutura social é uma base natural. E, para tal, menosprezam a análise qualitativa e se embasam, quase que unicamente, em dados quantitativos, ou seja, “matematizaram a ciência”. Evidentemente, sem necessitar explicitar, defende os interesses da classe dominante.
Surgem números que pouco explicam verdades absolutas. A relação dívida/PIB não pode passar de 70%. Por que? A meta da inflação deve ser de 3,25%. É ilógico, com o cenário mundial e a realidade concreta brasileira, como justificar? A taxa Selic não pode cair de 13, 75%? E isso se vende como algo que não deve ser discutido, não pode ser negado.
Para poder sustentar esses argumentos, cria-se um paradoxo. As reações são individuais, mas se generaliza o indivíduo. Há um só indivíduo, o ser racional. Praticamente, não se analisa a economia como uma área que depende de expectativas, de reação dos agentes, de visões diferenciadas da realidade. O ser econômico racional tem uma única visão de mundo, um único modo de reagir a estímulos e dificuldades, um modo apenas é admissível como meio para análise. Se assim não o fizer, não é racional. Todos devem se enquadrar nessa lógica, pois é a que justificaria um comportamento ótimo. Só não dizem para quem?
Um ponto a ser ressaltado é o que chamo de Teoria do Isolamento. Economia se analisa independente das outras áreas sociais. A ciência política, os movimentos sociais, a luta de interesses de segmentos específicos não têm espaço nos modelos adotados. Não são considerados como premissas as desigualdades, a exclusão social, os mecanismos de dominação, isto não tem nada a acrescentar ao debate econômico.
Também, existem receitas pré-fabricadas. Se há inflação, eleve-se a taxa de juros. Um cenário que não pode ser caracterizado como excesso de demanda, em que há choques de oferta importantes, como a Guerra da Ucrânia, mudanças significativas no mercado de commodities, crédito excessivamente restringido, não se encaixaria nesse padrão. Mas, a receita é uma só, não importa os cruéis impactos que a maioria da população venha a sofrer.
Para justificar esse modo de pensar, cria-se uma metodologia. Um método que se dizia ser restrito a análises microeconômicas é transposto para todas as análises. Em latim, chamam de coeteris paribus, ou, simplificando, ceteris paribus.
Deixando mais claro, quer dizer, todo o resto não muda. Ou seja, isolam uma variável, e o resto permanece como está. Uma tristeza, acreditar que inexiste interdependência. Se quiser analisar inflação, isolo das condições políticas. Se quiser analisar câmbio, fecho os olhos para uma conjuntura internacional complexa em que a própria hegemonia do dólar como moeda de referência é posta em discussão.
Não importa, melhor colocar uma viseira que não permite ver o que ocorre ao lado, não permitir que se verifiquem as interferências dos diferentes eventos é a ordem. Outro dia, em um debate sobre a situação atual da elevada taxa de juros, um eminente pesquisador, disse: “não se deve confundir autonomia do Banco Central com taxa de juros elevada. Ela está alta, mas os dois eventos devem ser vistos isoladamente.” É possível?
Com isso fecha-se o modelo e se definem as tão valiosas verdades. E ai daquele que ousar discuti-las, ou mesmo, mostrar as contradições que trazem internamente.
Todo modelo, por definição, é uma abstração da realidade. Em todo o modelo, para poder ser estruturado, se deixa de fora variáveis que se consideram irrelevantes. O problema é abstrair ao ponto de nada terem a se relacionar com o concreto observável. Lembro de um importante evento em que um economista sendo alertado para que a realidade ia para caminho díspar, afirmou solenemente: “a realidade está errada.”
Evitar essa soberba, criar caminhos que possam melhor representar uma área que, per si, é fortemente condicionada com as reações sociais, com a diversidade de pensamento humano, com as expectativas que movem e impulsionam os cidadãos para atitudes em que se sintam melhor contemplados em suas vidas, na maioria das vezes sofrida, faria muito bem. Mas, isso é pedir demais.
Na medida em que se consideram cientistas, bom seria voltar a ela. E reler um pouco de Edgar Morin, na Teoria da Complexidade. Entender ser fundamental analisar sistemas que, ao serem compostos por diferentes áreas e um número muito grande de indivíduos que interagem, necessariamente passam a exigir a análise de diferentes saberes que nele interferem. E, nesse sentido, ignorar as lógicas cognitivas, ou seja, o processo mental de formação do conhecimento, unificando-o e ignorando percepções diferenciadas, passa a ser uma camisa de forças que impede o avanço das estruturas para posições dinâmicas mais adequadas à esperança da sociedade.
Ilya Progogine, Prêmio Nobel em 1977, chamou a atenção para o fato de que a aparente desordem de um sistema complexo pode ser a fonte de uma nova ordem, um novo caminho. Referia-se a sistemas químicos, mas teve obras em que extrapolou para modelos de diferentes naturezas. Em um momento em que se observa que a estrutura social está esgarçada e ameaçada, em que a ordem vigente cria desigualdades inadmissíveis, em que o subemprego e o desemprego são alarmantes, a manutenção de modelos nada inovadores, conservadores, nada ousados, é mecanismo para manter o status quo, atende unicamente aos interesses da classe dominante, dos detentores de benesses que não estão dispostos a abrir mão delas, em nada.
Chegou a hora de negar essas “verdades indiscutíveis”, de entender a economia como ela realmente deve ser, uma área social que tem como norte os reais interesses da população. Foi esse o discurso vitorioso nas últimas eleições, acredito. E, nesse sentido, deve ser seguido com determinação. Concessões podem e devem ser feitas, desde que não desvirtuem a proposta original.

Abraham B. Sicsú, professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco)

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