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Os vaivéns da América Latina: A América Latina sintetiza, há décadas, as principais disputas políticas do mundo contemporâneo


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Publicado em 01 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Emir Sader

A América Latina se tornou o epicentro dos maiores embates do mundo contemporâneo. Primeiro, na última década do século passado, como a região onde mais proliferaram governos neoliberais, tendo no Chile de Pinochet seu marco inicial.
Por essa razão, foi na América Latina, na década seguinte, a primeira deste século, que surgiram os governos anti-neoliberais e os líderes desses processos. Desde que o capitalismo assumiu o neoliberalismo como seu modelo predominante, foi em torno da vigência ou da superação desse modelo que se deram os maiores enfrentamentos contemporâneos.
De tal forma que os mais importantes líderes políticos atuais surgiram dessas lutas. Hugo Chávez, Lula, Nestor e Cristina Kirchner, Tabaré Vázquez e Pepe Mujica, Evo Morales, Rafael Correa, foram os primeiros líderes da resistência ao neoliberalismo.
Ao longo das duas décadas seguintes, esses governos sofreram golpes – como nos casos do Brasil e da Bolívia -, que eles reverteram. Sofreram derrotas eleitorais – como nos casos da Argentina, do Uruguai e do Equador. Se expandiram em um segundo momento para o México, para a Colômbia, para Honduras, com novos líderes, como López Obrador, Gustavo Petro, Xiomara Castro,
Mais recentemente, governos de extrema direita se instalaram no Equador e na Argentina. Enquanto que governos anti-neoliberais sobrevivem no México, na Colômbia, no Brasil, na Bolívia e na Venezuela.
As características destes governos são as que apresentaram desde o seu surgimento. Priorizam as políticas sociais ao invés dos ajustes fiscais. Os processos de integração regional no lugar dos Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos. O resgate do papel ativo do Estado, ao invés do Estado mínimo e da centralidade do mercado.
Hoje está instalado um enfrentamento agudo na Argentina, desde que foi vitorioso Javier Milei, um presidente de extrema direita. Seu discurso se apropria da palavra liberdade e da palavra câmbio.
O discurso é o de que todos aceitam que é necessária uma mudança, transformação. E que essa transformação não pode ser feita com os políticos de sempre. Se projeta assim a necessidade de uma força nova, alternativa, que expresse o câmbio indispensável. Se consolida assim a crítica à velha política e aos velhos líderes políticos, um dos mais fortes argumentos da extrema direita.
No plano econômico, a hiperinflação herdada permite ao governo de extrema direita impor um duríssimo ajuste fiscal, a começar pelo não pagamento do 13º salário, colocando as responsabilidades nas costas do governo anterior.
A promessa de assim terminar com a inflação supostamente em 18 ou 24 meses joga o problema para frente e justifica o ajuste fiscal. Se promete estagflação durante esse período.
Enquanto isso se volta a negociar com o FMI um empréstimo de longo prazo, que reforçará a dependência do país com o capital financeiro internacional. Se consolida assim a dependência do país com o FMI.
A disputa na Argentina entre o governo de extrema-direita e a capacidade de resistência do movimento popular e das forças políticas de esquerda é das mais importantes na América Latina contemporânea. Do sucesso ou do fracasso do governo de Milei depende a perspectiva da extrema direita ou a possibilidade de recuperação da esquerda na Argentina, com projeções para toda a região.
Por outro lado, a possibilidade de consolidação dos governos mais sólidos atualmente na America Latina – os do México, do Brasil e da Colômbia -, supõe a reeleição de Lula e a eleição da sucessora já definida por López Obrador. O caso de Petro é mais complicado, a derrota nas eleições municipais demonstrou que ele não dispõe de uma estrutura partidária, como são os casos de Moreno no México e do PT no Brasil.
Outro caso pendente é a Bolívia, pela disputa entre o presidente atual, Luis Arce, e o ex-presidente, Evo Morales. A vitória de um dos dois significará a continuidade do programa anti-neoliberal. Salvo que essa divisão abra espaço para a vitória de algum candidato da direita, que não aparece hoje como a possibilidade mais viável.
A terceira década deste século, que se havia iniciado com a predominância de governos anti-neoliberais, vive um misto de governos de esquerda e de direita. O que resta da década será marcado pela disputa entre governos neoliberais e anti-neoliberais, a marca destacada de tudo o que já se viveu neste século.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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