Pra não dizer que não falei das flores

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O silêncio da Prefeitura Municipal de Aracaju em relação ao destino pretendido para o Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira revela mais do que oculta. Fontes ligadas à cena audiovisual informam que a produtora executiva da Casa Curta-Se, Rosângela Rocha, lhes teria sido apresentada como a nova coordenadora da unidade em uma reunião de portas fechadas, realizada na Funcaju. Publicamente, no entanto, no portal da Prefeitura, por exemplo, a novidade não ganhou uma simples menção, não mereceu nem uma vírgula.

Ainda não é hora de apontar o conflito de interesses promovido pela escolha. Para todos os efeitos, até que o dublê de secretário de cultura Nitinho Vitale se pronuncie sobre o assunto, Rosângela nunca tomou posse e permanece responsável apenas por uma ONG focada na difusão do audiovisual em Sergipe. Importa sublinhar, contudo, o embate entre narrativas que elegeu a gestão do Núcleo como tatame.

A criação do NPD Orlando Vieira – fruto de uma política de valorização do audiovisual implementada pelo Governo Federal, a partir de 2003 – não foi responsável pela invenção da roda, mas ajudou um bocado de gente a contar a própria história. Como em Sergipe qualquer realização acaba pintada com as cores de uma bandeira partidária (o batismo e a iluminação da ponte Aracaju/Barra e do viaduto do DIA falam por si, ridículos e eloquentes), talvez não pareça interessante para os gestores de plantão na Prefeitura de Aracaju dar curso às ações voltadas para o audiovisual abrigadas pelo Núcleo.

Uma bobagem. Agora é tarde. Os filmes lançados no último dezembro, por meio de edital da Secult, não vingaram em nenhuma obra-prima, como afiança artigo redigido pelo estudioso Wesley Pereira de Castro (vi apenas um desses curtas, fraquíssimo, sob o qual não posso tecer comentários por uma questão de ordem ética que não convém evocar agora), mas não há como negar que a nossa produção audiovisual está frutificando em realizações mais felizes. Prova disso, o Museu da Gente Sergipana abriga um novo lançamento esta semana. Mais uma narrativa tecida no umbigo da gente.

A mão que borda – O documentário de Caroline Mendonça (que assina direção e roteiro) aborda a atividade artística do bordado na cidade de Cedro de São João, atuando como ferramenta de valorização e reconhecimento dessa manifestação cultural e dando visibilidade às bordadeiras do local.

O município do interior sergipano é conhecido como a terra do bordado. Lá, em qualquer ruela que se entre, de certo haverá alguma artesã sentada à porta de casa entrelaçando carinhosamente suas linhas. Em cada esquina da cidade, essas mulheres brincam com cores e formas transpondo todo seu imaginário ao tecido e dando vida e beleza a panos comuns. Em Cedro de São João, o bordado em ponto cruz vem sendo base da economia familiar por muitas gerações, mas até quando uma tradição pode resistir às mudanças trazidas pelo tempo?
A Mão que Borda foi um dos projetos contemplados pelo edital Mais Cultura Microprojetos da Bacia do São Francisco da Funarte em parceria com o Ministério da cultura e conta também com o patrocínio do Sebrae e o apoio do Instituto Banese, Fundação Aperipê, Universidade Federal de Sergipe, Prefeitura Municipal de Cedro de São João e da Lamparina.

A mão que Borda é lançado no Museu da Gente Sergipana
Sexta-feira, 19 de abril, às 19h30

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