Proteger a mulher é proteger a família

* Delegada Katarina

Não existe família forte quando uma mulher vive com medo. Essa frase resume uma certeza que construí ao longo da minha vida. Primeiro, como delegada de Polícia, acompanhando de perto o sofrimento de mulheres vítimas de violência. Depois, como deputada federal, trabalhando para transformar essa experiência em leis, políticas públicas e ações concretas que salvam vidas.
Quem conhece a violência apenas pelos números enxerga estatísticas. Eu conheci a violência na ponta. Vi mulheres chegarem às delegacias machucadas no corpo, abaladas emocionalmente e, muitas vezes, convencidas de que não havia saída. Vi crianças crescerem em ambientes marcados pelo medo, aprendendo desde cedo que a violência fazia parte da rotina. E aprendi que, quando uma mulher é vítima de agressão, toda a família adoece. Mais do que isso: toda a sociedade.
Foi essa realidade que moldou meu compromisso público. Combater a violência contra a mulher nunca foi, para mim, apenas uma bandeira política e sim uma missão de vida.
Na Câmara dos Deputados, tive a honra de relatar importantes projetos voltados ao enfrentamento da violência contra a mulher, contribuindo para o fortalecimento da legislação brasileira e para o endurecimento das punições contra os agressores.
Um dos exemplos mais emblemáticos, sem dúvida, foi a lei do pacote antifeminicídio, que tornou autônomo esse tipo de crime, que hoje tem a maior pena do código penal: 40 anos, além de endurecer e mudar as regras para a progressão das penas. Foi um grande avanço, e eu me orgulho muito de dizer que fiz parte dele.
Porque acredito verdadeiramente que a lei precisa proteger quem sofre e deixar claro que não haverá espaço para a impunidade. Cada avanço legislativo representa uma oportunidade de impedir novas vítimas e de fortalecer a confiança das mulheres nas instituições.
Da mesma forma, defendi e sigo defendendo as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher. Mais do que isso: destinei recursos para o fortalecimento desses espaços, a exemplo do Projeto Poly, da Delegacia Virtual da Mulher, que tem salvado a vida de centenas de mulheres em Sergipe.
Sei o quanto esses espaços fazem diferença porque vivi essa realidade diariamente. Uma delegacia estruturada, com profissionais capacitados e atendimento humanizado, pode representar o momento em que uma mulher encontra coragem para denunciar, romper o ciclo da violência e reconstruir sua vida. Enfraquecer essa estrutura significa dificultar o acesso à proteção justamente de quem mais precisa dela.
Mas também sei que o desafio evoluiu. A violência mudou de forma e passou a ocupar outros espaços. Hoje, além da agressão física, cresce a violência psicológica, o controle emocional, a perseguição, a exposição da intimidade e os ataques praticados por meio das redes sociais e das plataformas digitais. São agressões silenciosas, mas profundamente destrutivas, que afetam a autoestima, a liberdade e a dignidade das vítimas. Precisamos garantir que nossa legislação e nossas políticas públicas acompanhem essa nova realidade.
Também acredito que proteger a mulher é proteger nossas crianças. Filhos e filhas que crescem em lares violentos carregam marcas que podem durar toda a vida. Romper esse ciclo significa oferecer às novas gerações um ambiente onde prevaleçam o respeito, a segurança e o afeto. Por isso, a defesa da infância passa, necessariamente, pela proteção das mulheres.
O caminho que defendo para os próximos anos passa pelo fortalecimento da rede de proteção. Precisamos ampliar o número de serviços especializados, garantir atendimento mais rápido, integrar de forma eficiente polícia, Ministério Público, Judiciário e assistência social e investir em políticas que ofereçam autonomia às mulheres, para que elas consigam reconstruir suas vidas longe da violência. Não basta acolher. É preciso criar condições para que elas nunca mais precisem voltar ao ambiente onde foram agredidas.
Tenho convicção de que nenhuma sociedade será verdadeiramente desenvolvida enquanto mulheres continuarem vivendo sob ameaça dentro da própria casa. Segurança pública também é garantir que elas possam trabalhar, estudar, criar seus filhos e viver sem medo – e é muito triste constatar que o que é direito de todas virou um sonho.
Continuarei colocando minha experiência, meu mandato e minha voz a serviço dessa causa. Porque proteger a mulher é proteger a família. É proteger a infância. É fortalecer comunidades inteiras. E, acima de tudo, é afirmar que nenhuma forma de violência pode ser aceita como normal em uma sociedade que deseja construir um futuro mais justo, mais humano e mais seguro para todos.

* Katarina Feitoza é delegada de polícia há 24 anos, deputada federal por Sergipe e terceira-secretária da Câmara

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