Quem avisa amigo é

* Anderson Bruno

Todos nós, seres humanos, estamos cercados por tentações. A todo o momento somos testados. Não é a toa que existem os sete pecados capitais. Uma vida regada a mordomias é o que todo mundo deseja, mas o alcance de tal status é sempre averiguado pelo caráter e conduta dos que o conquistam. ‘O conselheiro do Crime’ (The Counselor, Ridley Scott, EUA, 111min, 2013) tem na direção de arte de Alex Cameron, Alejandro Fernández, Bem Munro e Tom Weaving uma mostra da vaidade humana.

O filme retrata o convívio de dois casais (Michael Fassbender e Penélope Cruz mais Javier Bardem e Cameron Diaz). Pessoas de um nível aquisitivo interessante. São amplas residências, ternos dos mais alinhados estilos, banhos de piscina, champagne,
leopardos de estimação e por aí vai. Tudo que você puder imaginar da vida material dos ricos e famosos, bem como suas excentricidades, podemos encontrar registrado aqui nos seus cenários.
Isso delimita um grupo. Eles fazem parte de uma elite. É um mundo paralelo onde só entra aquelas pessoas que, ou trabalharam duro para construir bons dividendos, ou que se deixaram levar por negócios escusos cujo apelo do poder e da ambição se sobrepõem ao do caráter e trabalho.

É nessa atmosfera que o roteiro de Cormac MacCarthy se deleita. Tendo como centro o personagem de Michael Fassbender, um advogado, a história põe em xeque o homem enquanto ser humano diante de sua ambição. O papel do advogado mostra o quão contraditórios e divergentes nós somos. Sendo o Doutor um defensor da lei, teoricamente, sua conduta social e profissional deveria ser a mais politicamente correta. Ele deixa a ética e a moral de lado para barganhar uma grana com o tráfico de drogas.

Sua vida particular e social está envolta no romantismo originado pela sua relação amorosa com Laura (Penélope Cruz). É neste ponto onde fica a parte do bom caráter do advogado. É o próprio bom moço se deixando levar por uns dólares a mais. Como a um verdadeiro culto, o filme salienta sobre a bifurcação do homem em escolher o certo e o errado bem como suas consequências.

Num determinado ponto de ‘O Conselheiro do Crime’, Laura revela a Malkina (Cameron Diaz) fazer sempre orações no seu dia-a-dia. É visível o contraponto do caráter humano refletido no diálogo das atrizes. Enquanto a primeira é a parte ‘certa’ da coisa, demonstrando humildade, espiritualidade e simpatia, a segunda irradia inveja, prepotência e competição. Numa tentativa de pseudo redenção, Malkina vai a um confessionário da igreja católica. É o encontro entre o sagrado e o profano. Um referencial litúrgico muito explícito na construção do Doutor, por exemplo. Ele, como um legítimo representante da lei dos homens aqui na Terra, ficou destinado a ter um encontro com a lei divina de maneira contundente.

Percebendo sua boa índole, Westran (Brad Pitt), como a um vidente, o aconselha a não embarcar na transação dos narcóticos. O conselho aí é importante pelo fato do advogado ser chamado asssim a todo momento no filme pela sua função de advogado. O ‘counsuler’ do título original já faz essa menção, significando ‘conselheiro’ na língua portuguesa. E quem avisa (ou dá conselho) amigo é!
Essa produção de Ridley Scott é um tanto diferente quanto a seu ritmo. Sempre permeando referenciais sexistas, o filme é conduzido como a um processo. A coisas vão acontecendo sem pressa envolto a muita filosofia de vida bem como cenas bem violentas também.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual

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