UM CORONEL DO EXÉRCITO, ALOÍSIO CAMPOS E DOM TÁVORA: UMA TEIA DE RELAÇÕES

* Afonso Nascimento 
 
Tenho interesse acadêmico em escrever sobre pessoas e fatos ocorridos durante o regime militar em Sergipe (1964-1985). Quero contar aqui duas histórias que soube através de Hélio Andrade Ribeiro, funcionário aposentado da UFS. Os dois episódios foram registrados em uma conta sua em rede social e para mim repetidos através de telefonemas. O par de histórias envolveu um seu tio chamado Max José Ribeiro.
Anticomunista até não poder mais, ele nasceu em Aracaju, estudou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) no estado do Rio de Janeiro e, como oficial do Exército, alcançou o posto de tenente-coronel.  Por causa de problemas de saúde, precisou ser reformado bem antes do que esperava e retornou a Aracaju antes de 1964. Ele trabalhou como agente do SNI, me disse seu sobrinho, mas não deixando claro se o fez formal ou informalmente. Não está mais entre nós.
As duas histórias que li e ouvi despertaram minha atenção porque são, você verá, uma boa amostra da importância das relações pessoais e familiares na sociedade sergipana, também na vigência da ditadura militar, quando elas passaram a ter um valor ainda mais alto. Naqueles tempos sombrios, de fato, ter um parente, um amigo ou um conhecido trabalhando no 28 BC era um grande patrimônio. Em livro famoso, o historiador Ibarê Dantas lembrou como foi feito muito uso de tais relações para facilitar (acrescento: ou complicar) a vida de pessoas encrencadas com o regime dos militares.  
A primeira história tem a ver com dom Távora (1910-1970), arcebispo metropolitano de Aracaju. Era cearense e irmão do militar do Exército Juarez Távora, “o rei do Norte”. Antes de vir trabalhar em Sergipe, já era conhecido no Rio de Janeiro como “o bispo dos operários”. Não era comunista, mas tinha feito a sua “opção preferencial pelos pobres”. Ao ser nomeado arcebispo de Sergipe, pode-se imaginar que as classes ociosas dominantes estaduais não devem ter gostado de uma tal escolha. Quando aconteceu o golpe de Estado de 1964, os militares queriam a cabeça dele (não literalmente, claro) por causa de seu  trabalho social desenvolvido junto às classes populares sergipanas. Sofreu marcação cerrada, foi perseguido, problemas não desconhecidos das pessoas próximas dele.
Volto ao assim conhecido coronel Max José Ribeiro. Era empresário, dono da loja Ribeiro & Cia. O nome de sua família também está ligado à Fábrica Confiança em Aracaju e à Usina Caraíbas em Santo Amaro. Também era católico militante, participando do grupo denominado Ação Católica. Mesmo sendo militar reformado, já o disse, tinha muita influência entre os quadros do 28 BC. De alguma forma, era próximo de dom José Vicente Távora.
O seu sobrinho, Hélio Andrade Ribeiro, que foi crismado pelo religioso, escreveu em postagem de rede social que seu tio tomou conhecimento da prisão do arcebispo de Aracaju, quando ele, o sobrinho, o aguardava para ir para casa em carro da família. Imediatamente, o militar mandou o seu motorista seguir para o quartel do 28 BC. Chegando lá “esbaforido”, não muito tempo depois, voltou ao carro agora na companhia de dom Távora, levando-o para a Casa Paroquial. Não fui informado sobre o ano em que isso aconteceu.
A outra história trata do economista, político e professor José Aloísio de Campos. Ele trabalhou no Conselho de Desenvolvimento de Sergipe (CONDESE), órgão do planejamento do governo de Sergipe, foi prefeito “biônico” de Aracaju e estava cotado para ser reitor da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Foi um tecnocrata do regime militar. De acordo com o meu informante, o seu nome estava incluído na lista sêxtupla preparada e enviada a Brasília pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), “o ministério do silêncio”, para que o general-presidente de plantão escolhesse o seu favorito. Como é fácil imaginar, o relatório do SNI sobre os seis candidatos chegou ao conhecimento do então governador sergipano, José Rollemberg Leite, que não gostou de saber que José Aloísio de Campos, seu escolhido, era muito mal avaliado.
Quem tinha feito a avaliação exageradamente negativa do ex-prefeito de Aracaju foi Hélio Leão, o poderoso chefe da Assessoria de Segurança e Informação (ASI), órgão do SNI dentro da UFS. Segundo Hélio Andrade Ribeiro, foi feita uma varredura completa da vida pública, privada e íntima do futuro reitor da UFS. Por que assim?  Para o meu informante, Hélio Leão tinha em João Garcez o seu candidato, com quem tinha uma relação de parentesco. Foi aí que José Leite convocou o coronel Max José Ribeiro para a missão de ir ao SNI, em Brasília, então dirigido pelo general João Batista Figueiredo, de quem o militar sergipano era amigo desde os tempos da AMAN.
Missão dada, missão cumprida. O coronel reformado voltou de Brasília com o dossiê em mão e meu informante me disse que não guardou cópia do documento, mas teve a chance de lê-lo. Resultado da história: José Aloísio de Campos se tornou o terceiro reitor da UFS (1976-1980) depois de João Cardoso do Nascimento e de Luiz Bispo.
Não sei se esses dois episódios são conhecidos da opinião pública sergipana. O relato que aqui foi feito não teve por objetivo buscar provar que militares extremistas são capazes de “boas ações”. A mim não interessa saber, embora saiba, quem eram José Aloísio de Campos e dom José Vicente Távora. Nem quero reabilitar a memória de ninguém por seus atos durante a ditadura militar. Quero apenas expor bastidores de dois processos decisórios e como relações pessoais e familiares foram relevantes no funcionamento daquele regime castrense.
 
* Afonso Nascimento, professor Aposentado da UFS
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