Quarta, 28 De Fevereiro De 2024
       
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Uma queda por Rogéria


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Publicado em 30 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Livre por natureza (Divulgação)

Rian Santos
 
Ontem, 29 de Janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, a minha memória retrocedeu alguns anos, muito antes de uma onda reacionária revolver as profundezas do obscurantismo, trazendo muito lodo e certa qualidade de pensamento à tona. Agora, resta a sujeira na praia. O delegado André David dá entrevistas impunemente. Nem parece que os brasileiros já se cobriram de luto pela morte de uma travesti.
Naquela ocasião, há quase sete anos, descobri, estupefato, uma queda por Rogéria. A revisão biográfica realizada então, incapaz de reparar as injustiças sofridas em vida, os dedos apontados, as pedras lançadas de todos os lados, restaurara muito tardiamente as verdadeiras feições de uma lutadora solitária, armada de uma fidelidade absoluta a si mesma. O movimento LGBTQIA+ nunca poupou a beleza da atriz. Contra todos, a favor de tudo, Rogéria foi uma espécie rara de ser humano, livre por natureza.
Sempre admirei gente que não se enquadra. Ao centro ou à margem, tanto faz. No limite do subjetivo, floresce muitas vezes uma inesperada singularidade, desconfortável, subversiva. Imaginem, por exemplo, uma travesti ingressando com todas as honras, elegante e sorridente, no Olimpo da televisão brasileira. Isso, num tempo de narrativas poucas, de pontos de vista muito limitados. Pois, justamente por sua capacidade de comunicar a diferença sem perder a ternura, Rogéria jamais seria perdoada.
Há, de fato, um dado profundamente incômodo na afirmação recorrente de Rogéria, auto proclamada a travesti da família brasileira. A ousadia de aproximar opostos tão contrários da sensibilidade tupiniquim, naturalizando a fratura escandalosa sob o verniz das aparências, contraria todos os dogmas do movimento identitário de agora – uma reunião de sectários raivosos, de discursos simplificados, reduzidos ao ranger dos dentes e conquistas ainda muito modestas.
Rogéria teve a coragem de afirmar a si mesma, considerando apenas a própria experiência, sem pedir licença a seu ninguém. Nunca fez coro às palavras de ordem da moda, mas colocou o travestismo na ordem do dia. Era mulher e tinha peru. Com a própria face maquiada e a coragem.
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