Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
.
Sebastião Salgado não tinha medo de morrer. Em entrevista concedida ano passado, o fotógrafo se disse conformado com o próprio destino, incontornável. Era já um homem velho. Em suas próprias palavras, estava no “lucro”.
Pobre acerto de contas, afinal. Ontem, aos 81, Salgado descontou os últimos centavos de seu saldo minguado e partiu desta para outra. De tanta lucidez, tanta coragem, resta agora uma obra magnífica. Mais nada.
“Para ser grande, sê inteiro”, aconselha o poeta, sem vestígio de temor no coração. Gigante, Sebastião viveu como quem recitasse tal verso com inflexão perfeita, irretocável.
Seria supérfluo, aqui, destacar os pontos altos de seu trabalho, a forte impressão causada pelas imagens capturadas em um P&B de profundidade abissal, a dimensão humana e até social de sua caminhada. A revisão apressada de obra tão extensa e significante resultaria a mais rasa. A postura desafiadora perante a chegada iminente da indesejada das gentes, ao contrário, fala tanto do homem quanto do artista.
Viver sem medo é para poucos, estes que chegam aos confins, aos cafundós, às margens, aos limites, aos extremos. Sebastião Salgado foi ao fundo – até o fim, um bravo.


