Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com
Irei apresentar em uma sequência de quatro artigos, várias informações que apontam que a nossa perspectiva humana é de termos um mundo melhor.
Há uma tendência humana de olhar para o presente com pessimismo. Guerras, desigualdades, mudanças climáticas, violência, crises políticas, conflitos familiares e incertezas econômicas ocupam diariamente o espaço das notícias. Entretanto, quando deixamos de comparar o presente com um passado recente e passamos a observar a trajetória da humanidade ao longo de um século, a conclusão pode ser surpreendente: apesar dos enormes problemas que ainda temos, o mundo tende a ser melhor.
Os primeiros 25 anos do século XXI oferecem uma oportunidade extraordinária para essa reflexão. Estamos vivendo uma época de profundas transformações tecnológicas, econômicas, sociais e culturais. E, para compreender a dimensão dessas mudanças, vale imaginar como seria a vida de uma pessoa em 1926, exatamente um século atrás.
Em 1926 tínhamos um mundo muito diferente, daquela época temos muitas pessoas vivas que sabem como era o mundo em 1926, período que ainda estava profundamente marcado pelas consequências da Primeira Guerra Mundial. A medicina era limitada, os antibióticos ainda não estavam disponíveis, muitas doenças infecciosas eram potencialmente fatais e a mortalidade infantil era muito elevada.
Grande parte da população mundial vivia no campo, o acesso à educação era restrito e as mulheres possuíam direitos políticos e econômicos muito menores do que os conquistados posteriormente. A eletrificação ainda não alcançava grande parte das famílias, o automóvel era um bem relativamente raro e as comunicações à distância dependiam essencialmente do telefone, do telégrafo e dos meios impressos.
Uma pessoa de 1926 dificilmente poderia imaginar um mundo no qual seria possível conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta, realizar uma cirurgia utilizando técnicas minimamente invasivas, substituir órgãos, tratar determinados tipos de câncer com terapias altamente específicas, sequenciar um genoma ou consultar, em segundos, praticamente todo o conhecimento produzido pela humanidade.
O contraste é ainda maior quando pensamos na expectativa de vida. Hoje, o Banco Mundial registra 76 anos de expectativa de vida ao nascer no Brasil, enquanto milhões de pessoas no mundo ainda vivem em condições de pobreza extrema.
Não se trata apenas de viver mais. Trata-se de viver mais tempo com maior possibilidade de autonomia, conhecimento, mobilidade e acesso a serviços que simplesmente não existiam em 1926.
Um fato importante é que precisamos reverenciar a revolução silenciosa da medicina, pois talvez nenhum setor demonstre tão claramente o avanço da humanidade quanto a medicina.
Há cem anos, uma infecção aparentemente simples podia evoluir para uma situação fatal. Hoje dispomos de antibióticos, vacinas, anestesia moderna, transplantes, terapia intensiva, exames de imagem sofisticados, biotecnologia, medicina molecular e inteligência artificial aplicada ao diagnóstico.
A humanidade conseguiu algo que durante milhares de anos parecia impossível: erradicar uma doença infecciosa humana.
A varíola, responsável por milhões de mortes ao longo da história, foi oficialmente erradicada pela Organização Mundial da Saúde em 1980, depois de uma campanha internacional de vacinação e vigilância.
A história das vacinas demonstra uma característica fundamental do progresso humano: aquilo que durante séculos era considerado um destino inevitável pode, mediante conhecimento científico e ação coletiva, deixar de existir.
Hoje discutimos terapias genéticas, imunoterapia, medicina personalizada, edição genética e utilização de inteligência artificial para identificar padrões que escapam à percepção humana.
Não significa que tenhamos vencido as doenças, longe disso. Significa que a capacidade da humanidade de compreender, prevenir e tratar doenças é incomparavelmente maior do que era em 1926.
Eu acredito e confio que a pobreza também pode ser vencida e na minha visão, outro avanço extraordinário ocorreu na redução da pobreza.
Entendo que a humanidade produziu, nos últimos dois séculos, uma quantidade de riqueza e conhecimento sem precedentes. Milhões de pessoas que nasceriam em condições de extrema pobreza no passado hoje têm acesso a alimentação, saneamento, educação, energia elétrica, medicamentos, transporte, comunicação e serviços financeiros.
O processo, entretanto, está longe de terminado, pois segundo o Banco Mundial a estimativa é que temos cerca de 700 milhões de pessoas ainda vivendo em extrema pobreza, enquanto aproximadamente 3,5 bilhões permanecem abaixo de uma linha de pobreza mais elevada, de US$ 6,85 por dia. A própria instituição alerta que, no ritmo atual, a eliminação da pobreza extrema será muito mais difícil do que se imaginava anteriormente.
Essa constatação não diminui o progresso. Pelo contrário, demonstra que o desafio do século XXI não é provar que a pobreza pode ser reduzida, mas acelerar o processo até que ela deixe de ser uma condição permanente para milhões de seres humanos.


