O que esperar do futuro da Economia – Parte 2

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

Continuando a abordagem sobre o futuro da economia, início comentando a questão da situação fiscal que continua sendo ponto de atenção, pois o relatório da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) projeta um déficit primário próximo de R$ 47 bilhões e dívida pública acima de 80% do PIB. Embora haja melhora em relação às expectativas anteriores, permanecem preocupações relacionadas ao crescimento das despesas obrigatórias e à sustentabilidade fiscal. No cotidiano da população, o equilíbrio fiscal influencia na confiança dos investidores, no custo da dívida pública, na taxa de câmbio, na inflação futura e capacidade do governo investir em infraestrutura.
Essa visão encontra respaldo nas contribuições de Thomas Sargent e Neil Wallace, cuja teoria da “dominância fiscal” demonstra que desequilíbrios persistentes das contas públicas acabam comprometendo a eficácia da política monetária.
O relatório destaca que as tensões geopolíticas elevaram o preço do petróleo, aumentaram as expectativas de manutenção ou alta dos juros pelo Federal Reserve e os títulos públicos americanos passaram a oferecer rendimentos maiores. Esses fatores impactam diretamente o Brasil via a pressão sobre combustíveis, valorização do dólar, a saída de capital de países emergentes e maior custo de financiamento externo.
Essa relação foi amplamente estudada por Rudiger Dornbusch, cuja teoria da Overshooting Cambial explica como as alterações na política monetária americana provocam movimentos rápidos nas taxas de câmbio das economias emergentes.
Outro ponto relevante do relatório da Febraban é a avaliação positiva do FMI sobre o sistema financeiro brasileiro. Segundo o documento do FMI, os bancos brasileiros permanecem capitalizados, o sistema financeiro do Brasil demonstra elevada liquidez, o Pix fortaleceu a inclusão financeira, as fintechs ampliaram a competição e o sistema mostrou elevada resiliência mesmo em cenários extremos.
Essa avaliação reforça a importância da regulação prudencial desenvolvida após a crise financeira internacional de 2008, baseada nos acordos de Basileia e nos estudos de Ben Bernanke, que enfatizam o papel da estabilidade financeira para evitar crises sistêmicas.
Os indicadores do Focus e as expectativas de mercado revelam uma economia brasileira em transição para um cenário de maior estabilidade. A inflação apresenta trajetória de desaceleração, o desemprego permanece historicamente baixo e o crédito continua sustentando parte importante da atividade econômica. Em contrapartida, o crescimento do PIB mostra sinais de moderação, os juros permanecem elevados e o quadro fiscal exige atenção contínua.
O relatório do FMI também trata de outros temas, como o Pix, reconhecido como catalisador de inclusão e competição, com recomendações de fortalecimento do arranjo de vigilância do instrumento, bem como a indicação de separação das funções operacionais e de fiscalização do Pix. No âmbito de criptoativos, o documento avalia como positivos os avanços recentes na regulação dos prestadores de serviço, mas aponta lacunas em segregação de ativos de clientes, regulação de emissores de stablecoins e requisitos prudenciais. Já em cibersegurança, considera o arcabouço amplamente alinhado a padrões internacionais, com espaço para aprimorar o reporte de incidentes, por exemplo. O relatório conclui que as autoridades brasileiras acolheram positivamente as conclusões e reafirmaram o compromisso com o contínuo fortalecimento dos arcabouços regulatório e de supervisão.
Cabe registrar que dados recentes do Banco Central do Brasil, as transações correntes do balanço de pagamentos foram deficitárias em US$2,3 bilhões em junho de 2026, ante déficit de US$5,2 bilhões em junho de 2025. Na comparação interanual, o superávit da balança comercial aumentou US$3,6 bilhões, enquanto o déficit em serviços aumentou US$0,7 bilhão. As rendas primária e secundária permaneceram em patamares semelhantes ao do ano anterior. O déficit em transações correntes acumulado em doze meses até junho de 2026 somou US$61,4 bilhões (2,46% do PIB), ante US$64,2 bilhões (2,60% do PIB) no mês anterior e US$75,5 bilhões (3,52% do PIB) em junho de 2025.
As reservas internacionais somaram US$367,6 bilhões em junho de 2026, redução de US$3,6 bilhões em relação a maio. Contribuíram para a redução do estoque as variações por paridades, US$4,5 bilhões; as vendas à vista, US$2,0 bilhões; e as variações por preço, US$0,3 bilhão.
Sob a ótica teórica, o momento atual pode ser interpretado como uma convergência entre diferentes escolas econômicas. A política monetária restritiva segue princípios monetaristas de Milton Friedman e a Regra de Taylor; a dinâmica entre inflação e mercado de trabalho remete à Curva de Phillips; a expansão do crédito, mesmo em ambiente de juros altos, aproxima-se das análises de Hyman Minsky sobre o papel das instituições financeiras; a necessidade de produtividade para sustentar o crescimento é explicada por Robert Solow; enquanto os efeitos dos choques internacionais sobre câmbio e juros dialogam com Rudiger Dornbusch. Já os desafios fiscais reforçam as contribuições de Thomas Sargent e Neil Wallace sobre a importância da disciplina das contas públicas.
Em conjunto, esses indicadores sugerem que o Brasil se encontra em uma fase de desinflação com crescimento moderado, na qual a credibilidade da política econômica, a continuidade das reformas estruturais e a preservação da estabilidade financeira serão determinantes para consolidar um ciclo sustentável de crescimento, geração de emprego e melhoria da renda da população.

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