Ex-cabo da PM é preso por morte de pedreiro

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

A polícia acredita ter esclarecido o caso da morte do Jackson Antônio da Silva, 26 anos, que foi assassinado a tiros em 24 de abril deste ano, após ser abordado junto com um amigo em um posto de gasolina na Ponte José Rolemberg Leite, entre Aracaju e Nossa Senhora do Socorro. O principal acusado pelo crime é o policial militar reformado Jailson Sousa Mota, 47 anos, preso na noite de anteontem em Porto Real do Colégio (AL), por uma equipe de agentes do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP) e do Gabinete da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

Jailson teve a sua prisão preventiva decretada no último dia 3 pelo juízo da 1ª Vara Criminal de Socorro. De acordo com o delegado Jonathas Evangelista, diretor do DHPP, as investigações ainda estão em andamento, mas já permitem concluir que o homicídio foi desdobramento de uma discussão de trânsito que envolveu o ex-militar, o pedreiro e o amigo da vítima, cuja identidade é mantida em sigilo. Ele é a principal testemunha do caso e pulou da ponte para escapar de ser igualmente morto naquela noite. Ele sofreu apenas ferimentos leves.

"Apuramos que uma dupla em uma motocicleta teria entrado em uma confusão de trânsito com o condutor de um veículo [VW] Gol branco, e que essa confusão teria sido levada para um posto de combustível. Conseguimos localizar o posto, algumas imagens do circuito interno de TV foram requisitadas e analisadas, porque ela registrou todo o momento da confusão. Verificamos inclusive que uma guarnição do Getam [Grupo Especial Tático de Motos, ligado à PM] foi acionada para atender a ocorrência. Nós identificamos os soldados da guarnição e eles foram ouvidos, além da vítima sobrevivente. E todo esse conjunto, com as denúncias anônimas que nos chegaram, nos permitiu chegar a suspeito", explicou Jonathas.

Ao todo, 18 testemunhas do caso já foram ouvidas pelo DHPP, incluindo o sobrevivente e os policiais. Todas confirmaram que Mota era o condutor do carro branco e provocou toda a discussão contra as vítimas. Segundo o relato, ele saiu do posto com o Gol e disparou vários tiros na direção da dupla, que estava caminhando em cima da ponte. Jackson levou ao todo oito tiros, sendo alguns no rosto, e morreu na hora, enquanto o amigo dele saltava da ponte e saía nadando pelo Rio do Sal. "Além da vítima sobrevivente, que reconheceu pessoalmente o policial e cujo testemunho tem que ser muito levado em conta, o caso foi levado a um posto de gasolina onde estavam presentes várias pessoas. E o ex-policial era bastante conhecido no local, porque frequentava o posto e, antes de ir para a reserva, trabalhava em Nossa Senhora do Socorro", acrescentou Evangelista.

A morte do pedreiro provocou protestos muito fortes dos familiares das vítimas e de moradores do Porto Dantas (zona norte de Aracaju), onde ele morava. A própria ponte de acesso a Socorro foi interditada por eles, que taxativamente apontavam Mota como o autor do crime. Na ocasião, foi dito que poderia ter havido uma suposta participação dos policiais do Getam no ataque às vítimas, mas isto foi totalmente descartado nas investigações. "O Getam foi ao local, fez abordagem nos dois rapazes e não encontrou nada ilegal, exceto uma restrição administrativa, já que eles estavam conduzindo uma motocicleta sem documentação. O veículo foi apreendido, a guarnição deixou o posto e os dois rapazes foram embora a pé", esclareceu a delegada Maria Zulnária Soares, do DHPP.

Jailson Mota foi trazido na mesma noite para Aracaju e, após prestar depoimento, recolhido ao Presídio Militar (Presmil), no Getúlio Vargas (zona centro). Com ele, foram apreendidas duas pistolas calibre ponto 40, que serão confrontadas em exame de balística com os projéteis retirados do corpo de Jackson. Ao ser interrogado, o ex-PM negou ter cometido o crime, mas confirmou que se envolveu na discussão de trânsito com as vítimas, porque teria levado uma suposta "fechada" da moto. Ele ainda se negou a assinar o depoimento, por orientação do advogado de defesa. A negativa não convenceu a delegada Maria Zulnária, que apontou contradições na versão dada pelo cabo reformado e garantiu que as provas já obtidas são suficientes para incriminar o acusado.

Reserva – O Comando Geral da PM colaborou diretamente com as investigações e cedeu todos os dados que permitiram a identificação de Jailson, que se identificava como "sargento Mota". De acordo com o tenente-coronel Paulo César Paiva, relações-públicas da corporação, o ex-PM foi para reserva remunerada em março de 2013 e, mesmo aposentado no posto de cabo, recebe o salário equivalente ao de terceiro-sargento. "Ele foi para a reforma por ser considerado inapto para o serviço policial militar, após ter sido diagnosticado com uma cardiopatia degenerativa grave. Ele nem cumpriu os 30 anos de serviço e foi reformado. Por isso, ele tem a prerrogativa da cela especial", explicou.

Paiva ressaltou que a corporação lamenta que um policial militar, ainda que reformado, tenha agido de tal forma. "A PM vai aguardar a judicialização desse fato e a decisão judicial inerente a essa situação. É bom esclarecermos que quando ele cometeu esse crime, não estava mais trabalhando como policial militar; esse é um fato da vida privada desse cidadão que vai responder na Justiça por seus atos", assegurou. A Polícia Civil ainda tem 10 dias para concluir o inquérito, mas deve indiciar o cabo Mota pelos crimes de homicídio qualificado, tentativa de homicídio e porte ilegal de arma.

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