* Manoel Moacir Costa Macêdo
As feiras brasileiras, em particular as "feiras nordestinas", são constelações luminosas de valores, identidades e tradições. Elas são as caras espelhadas na atualidade. A feira é uma síntese purificada no tempo, em arranjos de diferenças, contradições e ilusões. Elas são organizações humanas, com um amontoado de apetrechos. Uma "desorganização consentida" nos padrões dos seus agentes. Porções "mal-ajambradas de macaxeira, batata-doce e inhame disputam espaços com emaranhados de tripas, cabeças, orelhas e mocotós de porco, línguas e corações de boi, buchos e fígados de bode, embrulhados às pressas em páginas de jornais [desbotados]".
Existem as "feiras comportadas", como as da Lagoa da Conceição em Florianópolis, dos Jardins em São Paulo e de Copacabana no Rio de Janeiro. Elas não são as mesmas "feiras organizadas" de Caruaru em Pernambuco, de Itabaiana em Sergipe e de Rio Real na Bahia. As primeiras são versões globalizadas do Velho Mundo, com feições frias, rígidas e seletivas dos seus povos. As últimas são feiras com conteúdo histórico, hábitos locais, alegria, acolhimento e calor. Elas carregam as identidades tropicais, tipificadas na arte, na culinária, na fala, na cor, na dor, na seca, na cerca, no jeito e nos sonhos.
A feira, parece simples, mas não é, ela esconde complexidades. Ela é rural e urbana ao mesmo tempo. Ela une e agrega nas trocas capitalistas, e na barganha dos agricultores familiares que ofertam "um quarto" do alimento consumido pela população brasileira. Ela exige uma estratégica logística antes, durante e após a sua vigência, às vezes de um dia, normalmente aos sábados. A feira tem usura e pechincha, abundância e desperdício. Tem gente conhecida e desconhecida, generosa e sovina. Ela é "quase um mercado perfeito". Uma competição entre iguais, sem tramas, algemas e traições. A feira tem solidariedade, prosa e "xepa". Elas expressam o sagrado e o profano. "Deus criou o sábado e a feira para que os viventes conversassem entre si e exercessem a astúcia, o logro, a barganha. No início era o Verbo descarnado. Coube à feira dar-lhe seiva e vida".
A depender dos olhares e escutas, a feira pode dizer muito da história, da antropologia, da sociologia, da economia, da alimentação, da política, da saúde, do vestir, da arte, do ser e do ter, enfim das expressões humanas da sociedade. As feiras, são territórios democráticos de encontros e desencontros, às vezes, o único espaço de socialização do nascer, envelhecer, sofrer e morrer. A feira não é parte, é o todo. Ela não é escura, é colorida. Ela não é somente humana, é também animal, vegetal e mineral. Ela não é apenas artesanal, é industrial e comercial. A feira é uma invenção inteligente da humanidade. A grandiosidade da feira, está nas feições e modo das coisas e dos seres. Ela não é cópia das bodegas do passado, nem dos "armazéns de secos e molhados", e nem das cadeias globais de supermercados. A feira é um "teatro amador" encenado por atores do povo em atos de verdades e ilusões.
Na feira, não têm limites de oferta e procura. Elas acolhem os humanos e os animais; os ateus, agnósticos, espíritas e religiosos; naturais e processados; loucos e normais; iguais e desiguais; poderosos e desvalidos; e doentes e sadios. A feira é uma expressão utópica de igualdade e liberdade. Ela acolhe tudo e todos, não descrimina, protege, orienta e guia. Na feira, compra-se, vende-se e troca-se à vista, a prazo e a fiado. Nela renova o "medieval escambo". Ela fideliza os fregueses e conquista os últimos. A feira tem um modo próprio de arrumar, desarrumar, ir e vir. Ela sobrevive na sombra, no sol, na chuva, no interior e na capital. Na feira, não faltam frutas, verduras, linguiças, charques, carnes, milho, feijão, arroz, fava, farinha, açúcar, café, fumo, cachaça, arroz-doce, quebra-queixo e galinha caipira. Na feira tem moda, barbeiro, "doutor-raiz", namoros, brigas, entretenimento, polícia e religiosidade. Ela é ampla tal qual a dimensão da vida. Ela tem de tudo para alimentar o corpo e o espírito.
A feira expõe o cotidiano, os festejos, os haveres e os deveres. Ela expressa tragédias, aflições, fofocas e traz esperança e consolo. As feiras, não são expressões dos "tabaréus da roça", apartados dos urbanos e consumistas da "sociedade líquida". Elas traduzem a sustentabilidade para os cultos e idealistas, e são nichos de alimentos naturais e saudáveis. Elas escondem os intermediários e os grades do agronegócio, na perspectiva utópica do "comércio justo". A feira tem início e fim. Ela inicia no amanhecer e raramente ultrapassam com vigor o meio-dia. Ela abraça os cediços, os tardios, os desabafos e as bebedeiras do "fim-de-feira". As "feiras nordestinas", as genuinamente brasileiras, são ao mesmo tempo magias e realidades, práxis e futuro, como a quente "Feira de Santana". Elas são "patrimônios imateriais" dos seus locais. Parodiando o laureado escritor português José Saramago: "o adulto que sou, advém da criança que fui", amadurecido pelas lições da feira, em suas expressões antropológicas, históricas, sociológicas e políticas.
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, PhD pela University of Sussex, Brigthon, Inglaterra


