A TENTAÇÃO DA CRISTANDADE

 

* Lelê Teles
Eu tinha uns quinze anos 
quando vi a morte, com seu 
manto sombrio, rondando o quarto de minha vó.
Ela, pressentindo que estava a ser farejada pela soturna criatura da foice, havia convocado todos os netos – uma multidão – para uma visita de despedida; e eu fui o último a ir.
Talvez, pela espera do neto retardatário, ela tenha vivido um pouco mais… e sofrido um pouco mais.
Passada uma semana da romaria da netaiada, meu pai obrigou-me a ir; fui, contra minha vontade. 
Detesto velórios, enterros e despedidas.
Mesmo depois de ler Mauss e de saber da importância social dessas cerimônias.
Ela era uma mulher religiosa, católica e vivia – desde que me lembro da primeira vez que a vi – com um terço na mão, balbuciando orações e acariciando as contas do rosário.
A velha tinha câncer terminal e estava na cama, sentindo dores e desconfortos; passava dos oitenta, numa época em que chegar até ali já era uma vitória. 
Vovó, eu perguntei com sinceridade – ajoelhado e debruçado sobre seu leito – a senhora acredita em um Deus bondoso e em uma vida além morte; acredita que há um paraíso com anjos tocando harpas e trombetas?
Ela meneou a cabeça afirmativamente.
Então por que diabos a senhora reza, vovó, clamando para permanecer viva e sofrendo sobre essa cama?
Ela suspirou e me olhou com aquela cara que ela sempre olhava pro neto das perguntas difíceis.
Eu beijei a sua mão e me despedi. Ela faleceu na noite desse último encontro.
Por mais carola que vovó fosse, ela não acreditava de verdade nessa coisa de anjos e deuses depois dessa vida, porque estava apegada demais a ela e atormentada demais pelas promessas vazias das igrejas de bolsos cheios.
Vovó preferia estar viva e continuar acreditando e amando um deus invisível, indizível e indivisível, como dizem.
Não queria pagar com a vida para vê-lo. Vai que…
Os cristãos creem no que dizem os padres e os pastores, acreditam nas interpretações seletivas e enviesadas que dão aos textos bíblicos… não é em Deus e nem em Cristo que creem eles; e isso não é suficiente para ratificar um ato de fé, mas apenas para formular frágeis e confortantes convicções.
Quando atacam um programa humorístico, simulando defender o Cristo, estão, em verdade, apenas a defender padres, bispos e pastores.
Cristo curou o intimus do centurião e não deu um pio sobre os atos concupiscentes deles.
Jesus gostava do exercício peripatético, palmilhou aquelas terras áridas de lá pra cá e daqui pracolá, viu gregos e romanos e sabia das relações licenciosas que havia entre aqueles homens, todos sabiam; mas sobre isso nada falou.
E ele falava de sacanagem. Chegou, lembrai-vos, a comentar sobre a uma possível punheta que Natanael bateu sob a sombra de uma figueira.
E se nunca se referiu ao amor que o rei Davi sentia por Jonathan, filho de Saul, e que era, segundo Davi, maior que o amor que ele sentia pelas mulheres, é porque não via nada demais aí.
Sabemos que, fugindo do pai irascível do amado, o amante refugiou-se, mas foi encontrado por Jonathan que, depois de ficarem nus, deitou-se, não uma, nem duas, mas três vezes sobre Davi.
E ninguém vai imaginar que o cara ficou pelado para fazer flexões sobre o outro, que nem crossfit existia ainda.
E, sacanagem das sacanagens, Jesus chegou mesmo a defender uma adúltera, afrontando a Lei antiga, e confrontando a hipocrisia patriarcal dos que traem em silêncio e gritam contra a mulher traidora.
"Atira-te, primeiro, a pedra"; deveria ter dito o Mestre.
Mas os textos foram selecionados e mexidos, como sabemos todos.
Por que seria um escândalo que Jesus fosse homossexual, bissexual ou pansexual?
Porque o querem assexuado.
Maria, a mãe do personagem, pariu desvirginada de dentro pra fora; não amou e nem foi amada para gerar o filho; não gozou, não sentiu prazer.
Não permitiram um ato sexual nem na concepção da criança.
O homem morreu com mais de trinta e era solteirão, numa época em que aos doze a molecada já tava marcando encontro com cabras e ovelhas atrás dos montes.
Usaram o Cristo para pregarem o pavor ao sexo.
Lembra-te que meteram um vestidão invocado nele na hora da ressurreição; uma fraude grotesca.
Quando foi retirado da cruz, Jesus estava nu, teve o corpo nu banhado e envolto em um alvo manto, como manda a tradição.
Fizeram isso até com o bin Laden.
Quando a Maria de Magdala entrou na cova do crucificado, viu que ele tinha partido, deixando pra trás as vestes.
E é a este manto que a cristandade chama de Santo Sudário.
Ora, todos sabemos que, ao aparecer para Madalena, Jesus estava nu, pelado, sem bolso para colocar uma moeda; aquele vestido em que ele aparece flutuando é coisa de alfaiate de igreja.
 É sabido que Jesus gostava da companhia de uma mulher, a de Magdala; como também é sabido que ele tinha preferência por um discípulo, pois amava a este mais que aos outros.
O que não deixa de ser curioso.
Há sinal de bissexualidade aí? Claro que há; mas são apenas sinais, nada demais.
É estranho ver como os seguidores de padres e pastores se descabelam contra um programa de humor que brinca com a ideia de Jesus ter sido homossexual.
E olha, em verdade vos digo: trata-se de garotos brancos, bem nutridos, héteros e cis, falando de homossexualidade de forma estereotipada.
DissO ninguém falou.
Crítica mais contundente, autêntica e mordaz fez a atriz transexual Viviany Beleboni ao se crucificar, de seios nus, durante a Parada Gay em Sampa, 2015.
Mas voltemos aos seguidores de padres, bispos e pastores.
No passado, esse rebanho que p
astores fazem pastar, condenou o lindo filme do Godard, "Je Vous Salue, Marie" só porque os personagens humanizaram-se.
Excomungaram o Nikos Kazantzakis quando ele escreveu A Última Tentação só porque o Cristo, ali, se queria pessoa comum, um simples carpinteiro que fabricava cruzes.
Enquanto a igreja se contorce para condenar o incondenável ato sexual alheio, eriçando a cristandade; pastores, padres e bispos vão acumulando escândalos sexuais, contra mulheres, homens e – oh Deus – crianças!
Não se faz sexo só para procriar, sexo se faz para ter prazer. 
Para fazer filho, transa-se no período fértil da mulher, tudo o que se faz depois disso é pura safadeza.
E entre um casal cristão, onde um é infértil, tudo o que se faz na cama é satanagem.
É melhor você rever seus conceitos, parça.
Se a cristandade transformou um instrumento de tortura e morte, a cruz, num símbolo de vida eterna, não seria difícil transformar esse ódio sexual em amor.
Água em vinho.
É só se permitir, é só tentar desistir dessa tentação tentadora que te faz resistir a aceitar o outro e amá-lo como a ti mesmo.
Foi professando essa regra de ouro que Jesus morreu, ele não morreu pra salvar você e sua homofobia não.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

Os cristãos creem no que dizem os padres e os pastores, acreditam nas interpretações seletivas e enviesadas que dão aos textos bíblicos… não é em Deus e nem em Cristo que creem eles; e isso não é suficiente para ratificar um ato de fé, mas apenas para formular frágeis e confortantes convicções

* Lelê Teles

Eu tinha uns quinze anos  quando vi a morte, com seu  manto sombrio, rondando o quarto de minha vó.
Ela, pressentindo que estava a ser farejada pela soturna criatura da foice, havia convocado todos os netos – uma multidão – para uma visita de despedida; e eu fui o último a ir.
Talvez, pela espera do neto retardatário, ela tenha vivido um pouco mais… e sofrido um pouco mais.
Passada uma semana da romaria da netaiada, meu pai obrigou-me a ir; fui, contra minha vontade. 
Detesto velórios, enterros e despedidas.
Mesmo depois de ler Mauss e de saber da importância social dessas cerimônias.
Ela era uma mulher religiosa, católica e vivia – desde que me lembro da primeira vez que a vi – com um terço na mão, balbuciando orações e acariciando as contas do rosário.
A velha tinha câncer terminal e estava na cama, sentindo dores e desconfortos; passava dos oitenta, numa época em que chegar até ali já era uma vitória. 
Vovó, eu perguntei com sinceridade – ajoelhado e debruçado sobre seu leito – a senhora acredita em um Deus bondoso e em uma vida além morte; acredita que há um paraíso com anjos tocando harpas e trombetas?
Ela meneou a cabeça afirmativamente.
Então por que diabos a senhora reza, vovó, clamando para permanecer viva e sofrendo sobre essa cama?
Ela suspirou e me olhou com aquela cara que ela sempre olhava pro neto das perguntas difíceis.
Eu beijei a sua mão e me despedi. Ela faleceu na noite desse último encontro.
Por mais carola que vovó fosse, ela não acreditava de verdade nessa coisa de anjos e deuses depois dessa vida, porque estava apegada demais a ela e atormentada demais pelas promessas vazias das igrejas de bolsos cheios.
Vovó preferia estar viva e continuar acreditando e amando um deus invisível, indizível e indivisível, como dizem.
Não queria pagar com a vida para vê-lo. Vai que…
Os cristãos creem no que dizem os padres e os pastores, acreditam nas interpretações seletivas e enviesadas que dão aos textos bíblicos… não é em Deus e nem em Cristo que creem eles; e isso não é suficiente para ratificar um ato de fé, mas apenas para formular frágeis e confortantes convicções.
Quando atacam um programa humorístico, simulando defender o Cristo, estão, em verdade, apenas a defender padres, bispos e pastores.
Cristo curou o intimus do centurião e não deu um pio sobre os atos concupiscentes deles.
Jesus gostava do exercício peripatético, palmilhou aquelas terras áridas de lá pra cá e daqui pracolá, viu gregos e romanos e sabia das relações licenciosas que havia entre aqueles homens, todos sabiam; mas sobre isso nada falou.
E ele falava de sacanagem. Chegou, lembrai-vos, a comentar sobre a uma possível punheta que Natanael bateu sob a sombra de uma figueira.
E se nunca se referiu ao amor que o rei Davi sentia por Jonathan, filho de Saul, e que era, segundo Davi, maior que o amor que ele sentia pelas mulheres, é porque não via nada demais aí.
Sabemos que, fugindo do pai irascível do amado, o amante refugiou-se, mas foi encontrado por Jonathan que, depois de ficarem nus, deitou-se, não uma, nem duas, mas três vezes sobre Davi.
E ninguém vai imaginar que o cara ficou pelado para fazer flexões sobre o outro, que nem crossfit existia ainda.
E, sacanagem das sacanagens, Jesus chegou mesmo a defender uma adúltera, afrontando a Lei antiga, e confrontando a hipocrisia patriarcal dos que traem em silêncio e gritam contra a mulher traidora.
"Atira-te, primeiro, a pedra"; deveria ter dito o Mestre.
Mas os textos foram selecionados e mexidos, como sabemos todos.
Por que seria um escândalo que Jesus fosse homossexual, bissexual ou pansexual?
Porque o querem assexuado.
Maria, a mãe do personagem, pariu desvirginada de dentro pra fora; não amou e nem foi amada para gerar o filho; não gozou, não sentiu prazer.
Não permitiram um ato sexual nem na concepção da criança.
O homem morreu com mais de trinta e era solteirão, numa época em que aos doze a molecada já tava marcando encontro com cabras e ovelhas atrás dos montes.
Usaram o Cristo para pregarem o pavor ao sexo.
Lembra-te que meteram um vestidão invocado nele na hora da ressurreição; uma fraude grotesca.
Quando foi retirado da cruz, Jesus estava nu, teve o corpo nu banhado e envolto em um alvo manto, como manda a tradição.
Fizeram isso até com o bin Laden.
Quando a Maria de Magdala entrou na cova do crucificado, viu que ele tinha partido, deixando pra trás as vestes.
E é a este manto que a cristandade chama de Santo Sudário.
Ora, todos sabemos que, ao aparecer para Madalena, Jesus estava nu, pelado, sem bolso para colocar uma moeda; aquele vestido em que ele aparece flutuando é coisa de alfaiate de igreja.
 É sabido que Jesus gostava da companhia de uma mulher, a de Magdala; como também é sabido que ele tinha preferência por um discípulo, pois amava a este mais que aos outros.
O que não deixa de ser curioso.
Há sinal de bissexualidade aí? Claro que há; mas são apenas sinais, nada demais.
É estranho ver como os seguidores de padres e pastores se descabelam contra um programa de humor que brinca com a ideia de Jesus ter sido homossexual.
E olha, em verdade vos digo: trata-se de garotos brancos, bem nutridos, héteros e cis, falando de homossexualidade de forma estereotipada.
DissO ninguém falou.
Crítica mais contundente, autêntica e mordaz fez a atriz transexual Viviany Beleboni ao se crucificar, de seios nus, durante a Parada Gay em Sampa, 2015.
Mas voltemos aos seguidores de padres, bispos e pastores.No passado, esse rebanho que pastores fazem pastar, condenou o lindo filme do Godard, "Je Vous Salue, Marie" só porque os personagens humanizaram-se.
Excomungaram o Nikos Kazantzakis quando ele escreveu A Última Tentação só porque o Cristo, ali, se queria pessoa comum, um simples carpinteiro que fabricava cruzes.
Enquanto a igreja se contorce para condenar o incondenável ato sexual alheio, eriçando a cristandade; pastores, padres e bispos vão acumulando escândalos sexuais, contra mulheres, homens e – oh Deus – crianças!
Não se faz sexo só para procriar, sexo se faz para ter prazer. 
Para fazer filho, transa-se no período fértil da mulher, tudo o que se faz depois disso é pura safadeza.
E entre um casal cristão, onde um é infértil, tudo o que se faz na cama é satanagem.
É melhor você rever seus conceitos, parça.
Se a cristandade transformou um instrumento de tortura e morte, a cruz, num símbolo de vida eterna, não seria difícil transformar esse ódio sexual em amor.
Água em vinho.
É só se permitir, é só tentar desistir dessa tentação tentadora que te faz resistir a aceitar o outro e amá-lo como a ti mesmo.
Foi professando essa regra de ouro que Jesus morreu, ele não morreu pra salvar você e sua homofobia não.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

 

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