João Rodrigues

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
Hoje quero lembrar um talen-
toso músico – com toda a in-
tensidade da palavra – que Sergipe teve e pouco lembra: ‘João Rodrigues de Jesus’ – meu professor de violão, quando, aos 15 anos, ganhei o meu instrumento, que ainda possuo, conservadíssimo, bem cuidado como a mim mesmo, "um Di Giorgio do tempo que um Di Giorgio era um Di Giorgio". Quem entende de violão sabe o que estou dizendo. 
Conheci, àquela época, o professor João Rodrigues, sugerido que fora para ensinar-me pelo violonista "Carnera", ‘Ursino Fontes de Araújo Góis’, amigo de meu pai. Muita gente em Aracaju começou a "fazer aulas de violão", como se diz atualmente, com ele.
Homem simples, de profissão ‘alfaiate’, conhecia teoria musical como poucos. Utilizando-se do livro "Iniciação violonística", de autoria da concertista ‘Maria Lívia São Marcos’, método dos mais respeitados na didática violonística, ia aos poucos, do "zero" mesmo, ensinando os segredos do violão aos seus alunos. Era rigoroso em tudo – com a postura corporal, o jeito de "segurar" o instrumento, a posição das mãos, o dedilhar. Passar para um novo estudo, só quando o atual estivesse sendo executado sem erros. Tocar música logo, acompanhar-se, nem pensar. Ele percorria o caminho sugerido pelo método, avançando gradativamente na teoria, nas escalas, nos exercícios de arpejo. Alguns alunos, menos pacientes, desistiam, outros perseveravam e iam até onde o professor podia chegar.
A convivência com o mestre levava os alunos a admirar aquele senhor sisudo, solteirão, de trajes antiquados, que pouco comentava sobre a sua vida pessoal. Dele, comentava-se apenas que tivera um grande amor num passado distante, alguém que se mudara de cidade e nunca mais havia visto, talvez… As hipóteses eram muitas, para se compreender a sua solidão, estampada nas músicas que gostava de cantar, e que, aos poucos, ia ensinando. Recordo-me de algumas: "A noite do meu bem", "Ouça", "Abismo de rosas", entre outras. Esta última ele tinha em partitura original com uma dedicatória de certa dama que dizia muito querer bem. Seria ela o seu grande amor?
O compositor sergipano ‘Mingo Santana’ o conheceu bem, posto que, já em idade avançada e sem condições de trabalho, o professor passava seus dias nas lojas de instrumentos musicais da cidade e o seu grande prazer era afinar os instrumentos postos à venda, dedilhar bonitas melodias e, então, naturalmente, emitir a sua opinião técnica. Conhecia com profundidade o violão e o cavaquinho, mas seu instrumento por excelência era o bandolim. Enchia a boca quando dizia: "O piano é o rei do regional; o bandolim é o príncipe".
Durante suas aulas, preferencialmente no final, gostava de executar algumas peças musicais, umas clássicas, outras populares, creio que a título de despertar no aluno maior gosto pelo estudo do instrumento.
Assim, ao término de uma das minhas aulas, o ouvi executar – e encantei-me desde aquele instante! – um choro de sua própria autoria, que, segundo ele, estava ainda "em fase de ajustes". E bote ajuste nisso, diante de sua rigorosidade musical.
Vez por outra eu lhe perguntava sobre a música e ouvia a mesma resposta. Certo dia, ele me chega com uma partitura escrita à mão, uma de suas especialidades. Era a música "Doce recordação". Finalmente, ele havia dada por concluída a composição. Segundo suas palavras, "uma composição para bandolim". "Pode ser tocada em outros instrumentos, mas foi escrita para o bandolim, com as peculiaridades de execução próprias do bandolim" – disse-me. E complementou: "E o certo é tocar neste tom que está escrita".
João Rodrigues conhecia bem música clássica e certamente as afirmações sobre a sua composição tinham estreita relação com as peças dos grandes compositores clássicos, muitas escritas para instrumentos específicos.
O tempo passou e, como a vida é um ciclo, o mestre João Rodrigues se foi, há alguns anos, tão humilde como viveu, executar suas canções junto a outros grandes compositores, próximo de Deus e de seus anjos, músicos por natureza.
Hoje, poucos, além dos seus alunos – vez ou outra – lembram-se do grande compositor sergipano João Rodrigues de Jesus, o professor João Rodrigues, de violão.
Graças a Deus, Mingo Santana, num felicíssimo momento autoral, conseguiu "retratar" com precisão, num poema, quem era João Rodrigues imerso em seus sentimentos. O conheci bem e atesto a fidedignidade dos versos de Mingo à personalidade do professor.
Os versos encaixaram-se maravilhosamente na melodia e a canção caiu-como-uma-luva na voz de ‘Raquel Delmondes’. "Doce recordação", de João Rodrigues e Mingo Santana, é uma das mais belas músicas que integram o seu álbum "Vem cantar meu samba", cuja recomendação se me impõe para os que têm audição requintada.
Abraço, Mingo! Sua bênção, João Rodrigues!
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Hoje quero lembrar um talen- toso músico – com toda a in- tensidade da palavra – que Sergipe teve e pouco lembra: ‘João Rodrigues de Jesus’ – meu professor de violão, quando, aos 15 anos, ganhei o meu instrumento, que ainda possuo, conservadíssimo, bem cuidado como a mim mesmo, "um Di Giorgio do tempo que um Di Giorgio era um Di Giorgio". Quem entende de violão sabe o que estou dizendo. 
Conheci, àquela época, o professor João Rodrigues, sugerido que fora para ensinar-me pelo violonista "Carnera", ‘Ursino Fontes de Araújo Góis’, amigo de meu pai. Muita gente em Aracaju começou a "fazer aulas de violão", como se diz atualmente, com ele.
Homem simples, de profissão ‘alfaiate’, conhecia teoria musical como poucos. Utilizando-se do livro "Iniciação violonística", de autoria da concertista ‘Maria Lívia São Marcos’, método dos mais respeitados na didática violonística, ia aos poucos, do "zero" mesmo, ensinando os segredos do violão aos seus alunos. Era rigoroso em tudo – com a postura corporal, o jeito de "segurar" o instrumento, a posição das mãos, o dedilhar. Passar para um novo estudo, só quando o atual estivesse sendo executado sem erros. Tocar música logo, acompanhar-se, nem pensar. Ele percorria o caminho sugerido pelo método, avançando gradativamente na teoria, nas escalas, nos exercícios de arpejo. Alguns alunos, menos pacientes, desistiam, outros perseveravam e iam até onde o professor podia chegar.
A convivência com o mestre levava os alunos a admirar aquele senhor sisudo, solteirão, de trajes antiquados, que pouco comentava sobre a sua vida pessoal. Dele, comentava-se apenas que tivera um grande amor num passado distante, alguém que se mudara de cidade e nunca mais havia visto, talvez… As hipóteses eram muitas, para se compreender a sua solidão, estampada nas músicas que gostava de cantar, e que, aos poucos, ia ensinando. Recordo-me de algumas: "A noite do meu bem", "Ouça", "Abismo de rosas", entre outras. Esta última ele tinha em partitura original com uma dedicatória de certa dama que dizia muito querer bem. Seria ela o seu grande amor?
O compositor sergipano ‘Mingo Santana’ o conheceu bem, posto que, já em idade avançada e sem condições de trabalho, o professor passava seus dias nas lojas de instrumentos musicais da cidade e o seu grande prazer era afinar os instrumentos postos à venda, dedilhar bonitas melodias e, então, naturalmente, emitir a sua opinião técnica. Conhecia com profundidade o violão e o cavaquinho, mas seu instrumento por excelência era o bandolim. Enchia a boca quando dizia: "O piano é o rei do regional; o bandolim é o príncipe".
Durante suas aulas, preferencialmente no final, gostava de executar algumas peças musicais, umas clássicas, outras populares, creio que a título de despertar no aluno maior gosto pelo estudo do instrumento.
Assim, ao término de uma das minhas aulas, o ouvi executar – e encantei-me desde aquele instante! – um choro de sua própria autoria, que, segundo ele, estava ainda "em fase de ajustes". E bote ajuste nisso, diante de sua rigorosidade musical.
Vez por outra eu lhe perguntava sobre a música e ouvia a mesma resposta. Certo dia, ele me chega com uma partitura escrita à mão, uma de suas especialidades. Era a música "Doce recordação". Finalmente, ele havia dada por concluída a composição. Segundo suas palavras, "uma composição para bandolim". "Pode ser tocada em outros instrumentos, mas foi escrita para o bandolim, com as peculiaridades de execução próprias do bandolim" – disse-me. E complementou: "E o certo é tocar neste tom que está escrita".
João Rodrigues conhecia bem música clássica e certamente as afirmações sobre a sua composição tinham estreita relação com as peças dos grandes compositores clássicos, muitas escritas para instrumentos específicos.
O tempo passou e, como a vida é um ciclo, o mestre João Rodrigues se foi, há alguns anos, tão humilde como viveu, executar suas canções junto a outros grandes compositores, próximo de Deus e de seus anjos, músicos por natureza.
Hoje, poucos, além dos seus alunos – vez ou outra – lembram-se do grande compositor sergipano João Rodrigues de Jesus, o professor João Rodrigues, de violão.
Graças a Deus, Mingo Santana, num felicíssimo momento autoral, conseguiu "retratar" com precisão, num poema, quem era João Rodrigues imerso em seus sentimentos. O conheci bem e atesto a fidedignidade dos versos de Mingo à personalidade do professor.
Os versos encaixaram-se maravilhosamente na melodia e a canção caiu-como-uma-luva na voz de ‘Raquel Delmondes’. "Doce recordação", de João Rodrigues e Mingo Santana, é uma das mais belas músicas que integram o seu álbum "Vem cantar meu samba", cuja recomendação se me impõe para os que têm audição requintada.
Abraço, Mingo! Sua bênção, João Rodrigues!

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br

 

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