O MEIO AMBIENTE É O MEU AMBIENTE

 

* Lelê Teles
Salvem as baleias, gritava um 
grupo de homens e mulheres, 
verdes como o Shrek. 
 Salvem as florestas, gritavam cartazes nas mãos de outro grupo igualmente verde.
 "E eu, quem vai me salvar?", perguntou o garotinho, sem camisa e sem comida, deitado na escadaria fria de uma igreja.
 O bichinho, desnaturado, foi totalmente excluído do que chamam de natureza.
 Porque a natureza, a senhora bem o sabe, é tudo o que existe, menos o homem e tudo aquilo que ele fabrica.
 É o que diz o dicionário: substantivo feminino 1.o mundo material, esp. aquele em que vive o ser humano e existe independentemente das atividades humanas. 2. conjunto de elementos (mares, montanhas, árvores, animais etc.) do mundo natural.
Sacou? Existe o homem e a natureza. 
Nesse caso, o homem se pretende uma espécie especial.
 Porém, mesmo nessa espécie, há espécimes mais especiais que outros; por isso aquele garotinho da escada foi invisibilizado como uma não-pessoa.
Fosse ele um curumim "selvagem" teria sido enxergado, porque o curumim, parecem dizer, é parte da natureza.
 Logo, quase humano, como observou o BozoNazi.
Sabemos que esses infantes são, igualmente, vítimas de um capitalismo predatório, racista, genocida, etnocida, excludente e ecocida.
 Reflita comigo, foliã da terceira idade; mas, antes, ouçamos o poeta:
 
"… Se Deus é as árvores e as flores e os montes e o luar e o sol, para quê lhe chamo eu Deus? chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar…", sapienciou um heterônimo de Fernando Pessoas, enquanto guardava seu rebanho.
 Reflitamos sobre o poema desse vaqueiro e pensemos naquele garotinho da escadaria que tremia de frio.
"Com os diabos", dirás, "se a natureza são as baleias jubartes, a floresta amazônica, o boto cor-de-rosa, o mico leão-dourado e as araras azuis, por que diabos digo natureza, e não simplesmente arara, mico, boto, jubarte e floresta?"
Pporque é preciso dar ideia de uma unidade, de partes formando um todo, deixando o homem à parte.
O homem é aquele abençoado filho de deus que recebeu, do pai barbudo, a natureza como um presente para seu deleite e desbunde.
 Digo homem no sentido amplo, quero dizer mano, mona e mina.
 Deixarei de rodeios: essa tal natureza, tal qual o Deus de barbas, é uma invenção do homem, uma abstração completa; ela nunca existiu, digamos assim, naturalmente.
 A invenção da natureza, uma parada puramente antrópica – chupe essa! – é mais uma forma ardilosa do homem assenhorar-se do mundo, mesmo com a pretensiosa desculpa de protegê-lo.
Um significante bastante significativo!
 O discurso ecológico, é bom que a senhora saiba, surgiu no século XIX, precisamente nos Esteites e no exato momento em que os yankees metiam chumbo na rabo dos índios e dos bisões.
 Bisonho, não é mesmo minha senhora?
Nnão é estranho que tenham sido justamente esses ecocidas os criadores das primeiras reservas ambientais?
 E por que penso nessas coisas absurdas enquanto as pessoas, sorridentes e fantasiadas, pulam carnaval em blocos de rua?
 Porque nem todo mundo tá sorrindo e pulando, tem gente tentando salvar a mobília que boia dentro de casa pela força das enchentes.
 E as enchentes, essas enxurradas que arrastam barracos, provocam avalanches de lama, entopem as ruas de merda e desabrigam gente já tão mal abrigada, é fruto do assoreamento de rios, dos desvio do curso original das águas, da compactação e da impermeabilização do solo das cidades.
 Dizem que é uma resposta, que é a natureza se vingando do homem. 
 E quem cai nesse antropomorfismo hídrico só está a colocar nas águas o pior dos sentimentos humanos, monstrificando-as; as águas não têm sentimento nenhum.
 Como diria o Caeiro, "…mas que melhor metafísica que a delas, que é a de não saber para que vivem, nem saber que não sabem?"
 Se pensasse, o rio pensaria como Sócrates, aquele personagem inventado por Platão que sabia que nada sabia, embora ninguém saiba como ele ficou sabendo disso.
 O meio ambiente, é preciso que se diga isso, não é aquilo que fica lá fora da nossa janela, o meio ambiente é nóis.
 É preciso devolver o homem ao seu lugar de mais um bicho ou um bicho a mais.
 Essa separação do homem e da natureza é o que os filólogos gregos chamavam de tremenda fuleiragem; uma invenção moderna, vazia de sentido e especista.
 É bom lembrar que as religiões nunca fazem essa separação de homem e natureza.
 Sabemos que os cultos xamânicos, o candomblé, a pajelança e afins são exemplos de uma religiosidade holística que integra o homem e a tal natureza, mostrando que tudo é uma coisa só.
 
Sempre foi assim: lemos na Epopeia de Gilgamesh que Enkidu era um homem-bicho.
 Os egípcios tinham em seu panteão chacais, crocodilos, escaravelhos e os caralho.
 Na Grécia, onde rolavam zoofilias, deuses e semideuses se bichificavam. 
 O minotauro é um cabra que se tourificou, como Zeus cisnificou-se. 
 Mesmo na tradição bíblica, havia essa integração: o dilúvio, a senhora se lembra bem, foi um desastre natural causado antes de inventarem as chaminés que fumegam fuligens e antes da invenção das garrafas pets e dos canudinhos de sugar caipirinhas.
 Mas aí, um cabra fez lá um navio de madeira e salvou sua família e a bicharada.
Aalém de ter criado o primeiro e único zoo-cruzeiro da história, Noé atracou no Ararat com status de pioneiro do ecologismo.
 Lembra-te, também, que Deus apareceu para Moisés não como um camarada, mas transfigurado numa sarça em chamas.
 As pragas, lançadas ao Egito, contavam com a força dos ventos e das águas, além de incluir pitadas de magias com cobras, sapos, gafanhas etc.
 Eva trocou ideia com uma cobra, mesmo que a anatomia daquele réptil de boca larga e língua bifurcada torne estranha a articulação de palavras.
 Veja o nascimento do Menino-Deus, o moleque nasceu num estábulo, cercado de bicho: vaca, burro, gambá e o diabo.
 Os sermões de Jesus eram ecometáforas: o bom semeador, o joio e o trigo, o grão de mostarda…
 Jesus ajudou um pescador a encher sua rede de peixes e, em outra relação piscosa, o Mestre matou a fome de uma multidão servindo uma estranha combinação de pão e peixe, sendo, por este gesto, o precursor do McFish.
 É certo que houve um vacilo em sua incendiária interação com uma figueira.
 Porém, foi num lagar, no Monte das Oliveiras, que ele sofreu uma prisão coercitiva.
 
Ali, Judas praticou a primeira cena de delação premiada: entregou o chefão, foi absolvido e ainda saiu com uma sacola cheia de moedas.
 E quem vai se esquecer de Jonas, regurgitado do ventre de uma baleia.
 Ou mesmo de Balaão, que recebeu uma brilhante lição de moral de um burro, que o chamou de insensível e coisificador de animais. 
Naquele tempo burro já falava.
 
Caim, o agricultor, matou o pecuarista Abel com um golpe certeiro de queixada de burro.
 Tinha a pomba voando, camelo passando em buraco de agulha, cordeiro sendo imolado…
 Digo tudo isso para dizer quer é preciso incluir no discurso ecológico a dona Genoca, que perdeu tudo do seu barraco durante as chuvas; bem como o pequeno Levi, cuja barriga ronca de fome na escadaria fria daquela igreja.
Levi e Genoca são seres vivos como as plantas e os animais, e são igualmente vítimas dos agressores da natureza.
Dona Genoca, o pequeno Levi e toda a gente periférica nunca irão embarcar na arca do discurso ecológico enquanto eles não estiverem incluídos nele.
Sabemos que é na periferia das cidades que o bicho pega, é lá que a fauna aflora.
 Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles

Salvem as baleias, gritava um  grupo de homens e mulheres,  verdes como o Shrek. 
 Salvem as florestas, gritavam cartazes nas mãos de outro grupo igualmente verde.
 "E eu, quem vai me salvar?", perguntou o garotinho, sem camisa e sem comida, deitado na escadaria fria de uma igreja.
 O bichinho, desnaturado, foi totalmente excluído do que chamam de natureza.
 Porque a natureza, a senhora bem o sabe, é tudo o que existe, menos o homem e tudo aquilo que ele fabrica.
 É o que diz o dicionário: substantivo feminino 1.o mundo material, esp. aquele em que vive o ser humano e existe independentemente das atividades humanas. 2. conjunto de elementos (mares, montanhas, árvores, animais etc.) do mundo natural.
Sacou? Existe o homem e a natureza. 
Nesse caso, o homem se pretende uma espécie especial.
 Porém, mesmo nessa espécie, há espécimes mais especiais que outros; por isso aquele garotinho da escada foi invisibilizado como uma não-pessoa.
Fosse ele um curumim "selvagem" teria sido enxergado, porque o curumim, parecem dizer, é parte da natureza.
 Logo, quase humano, como observou o BozoNazi.
Sabemos que esses infantes são, igualmente, vítimas de um capitalismo predatório, racista, genocida, etnocida, excludente e ecocida.
 Reflita comigo, foliã da terceira idade; mas, antes, ouçamos o poeta: "… Se Deus é as árvores e as flores e os montes e o luar e o sol, para quê lhe chamo eu Deus? chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar…", sapienciou um heterônimo de Fernando Pessoas, enquanto guardava seu rebanho.
 Reflitamos sobre o poema desse vaqueiro e pensemos naquele garotinho da escadaria que tremia de frio.
"Com os diabos", dirás, "se a natureza são as baleias jubartes, a floresta amazônica, o boto cor-de-rosa, o mico leão-dourado e as araras azuis, por que diabos digo natureza, e não simplesmente arara, mico, boto, jubarte e floresta?"
Pporque é preciso dar ideia de uma unidade, de partes formando um todo, deixando o homem à parte.
O homem é aquele abençoado filho de deus que recebeu, do pai barbudo, a natureza como um presente para seu deleite e desbunde.
 Digo homem no sentido amplo, quero dizer mano, mona e mina.
 Deixarei de rodeios: essa tal natureza, tal qual o Deus de barbas, é uma invenção do homem, uma abstração completa; ela nunca existiu, digamos assim, naturalmente.
 A invenção da natureza, uma parada puramente antrópica – chupe essa! – é mais uma forma ardilosa do homem assenhorar-se do mundo, mesmo com a pretensiosa desculpa de protegê-lo.
Um significante bastante significativo!
 O discurso ecológico, é bom que a senhora saiba, surgiu no século XIX, precisamente nos Esteites e no exato momento em que os yankees metiam chumbo na rabo dos índios e dos bisões.
 Bisonho, não é mesmo minha senhora?
Nnão é estranho que tenham sido justamente esses ecocidas os criadores das primeiras reservas ambientais?
 E por que penso nessas coisas absurdas enquanto as pessoas, sorridentes e fantasiadas, pulam carnaval em blocos de rua?
 Porque nem todo mundo tá sorrindo e pulando, tem gente tentando salvar a mobília que boia dentro de casa pela força das enchentes.
 E as enchentes, essas enxurradas que arrastam barracos, provocam avalanches de lama, entopem as ruas de merda e desabrigam gente já tão mal abrigada, é fruto do assoreamento de rios, dos desvio do curso original das águas, da compactação e da impermeabilização do solo das cidades.
 Dizem que é uma resposta, que é a natureza se vingando do homem. 
 E quem cai nesse antropomorfismo hídrico só está a colocar nas águas o pior dos sentimentos humanos, monstrificando-as; as águas não têm sentimento nenhum.
 Como diria o Caeiro, "…mas que melhor metafísica que a delas, que é a de não saber para que vivem, nem saber que não sabem?"
 Se pensasse, o rio pensaria como Sócrates, aquele personagem inventado por Platão que sabia que nada sabia, embora ninguém saiba como ele ficou sabendo disso.
 O meio ambiente, é preciso que se diga isso, não é aquilo que fica lá fora da nossa janela, o meio ambiente é nóis.
 É preciso devolver o homem ao seu lugar de mais um bicho ou um bicho a mais.
 Essa separação do homem e da natureza é o que os filólogos gregos chamavam de tremenda fuleiragem; uma invenção moderna, vazia de sentido e especista.
 É bom lembrar que as religiões nunca fazem essa separação de homem e natureza.
 Sabemos que os cultos xamânicos, o candomblé, a pajelança e afins são exemplos de uma religiosidade holística que integra o homem e a tal natureza, mostrando que tudo é uma coisa só. Sempre foi assim: lemos na Epopeia de Gilgamesh que Enkidu era um homem-bicho.
 Os egípcios tinham em seu panteão chacais, crocodilos, escaravelhos e os caralho.
 Na Grécia, onde rolavam zoofilias, deuses e semideuses se bichificavam. 
 O minotauro é um cabra que se tourificou, como Zeus cisnificou-se. 
 Mesmo na tradição bíblica, havia essa integração: o dilúvio, a senhora se lembra bem, foi um desastre natural causado antes de inventarem as chaminés que fumegam fuligens e antes da invenção das garrafas pets e dos canudinhos de sugar caipirinhas.
 Mas aí, um cabra fez lá um navio de madeira e salvou sua família e a bicharada.
Aalém de ter criado o primeiro e único zoo-cruzeiro da história, Noé atracou no Ararat com status de pioneiro do ecologismo.
 Lembra-te, também, que Deus apareceu para Moisés não como um camarada, mas transfigurado numa sarça em chamas.
 As pragas, lançadas ao Egito, contavam com a força dos ventos e das águas, além de incluir pitadas de magias com cobras, sapos, gafanhas etc.
 Eva trocou ideia com uma cobra, mesmo que a anatomia daquele réptil de boca larga e língua bifurcada torne estranha a articulação de palavras.
 Veja o nascimento do Menino-Deus, o moleque nasceu num estábulo, cercado de bicho: vaca, burro, gambá e o diabo.
 Os sermões de Jesus eram ecometáforas: o bom semeador, o joio e o trigo, o grão de mostarda…
 Jesus ajudou um pescador a encher sua rede de peixes e, em outra relação piscosa, o Mestre matou a fome de uma multidão servindo uma estranha combinação de pão e peixe, sendo, por este gesto, o precursor do McFish.
 É certo que houve um vacilo em sua incendiária interação com uma figueira.
 Porém, foi num lagar, no Monte das Oliveiras, que ele sofreu uma prisão coercitiva. Ali, Judas praticou a primeira cena de delação premiada: entregou o chefão, foi absolvido e ainda saiu com uma sacola cheia de moedas.
 E quem vai se esquecer de Jonas, regurgitado do ventre de uma baleia.
 Ou mesmo de Balaão, que recebeu uma brilhante lição de moral de um burro, que o chamou de insensível e coisificador de animais. 
Naquele tempo burro já falava. Caim, o agricultor, matou o pecuarista Abel com um golpe certeiro de queixada de burro.
 Tinha a pomba voando, camelo passando em buraco de agulha, cordeiro sendo imolado…
 Digo tudo isso para dizer quer é preciso incluir no discurso ecológico a dona Genoca, que perdeu tudo do seu barraco durante as chuvas; bem como o pequeno Levi, cuja barriga ronca de fome na escadaria fria daquela igreja.
Levi e Genoca são seres vivos como as plantas e os animais, e são igualmente vítimas dos agressores da natureza.
Dona Genoca, o pequeno Levi e toda a gente periférica nunca irão embarcar na arca do discurso ecológico enquanto eles não estiverem incluídos nele.
Sabemos que é na periferia das cidades que o bicho pega, é lá que a fauna aflora.
 Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

 

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