Gilberto e o pano de chão

 

* Antonio Passos
Conheci Gilberto por volta de 1972. Eu e ele nos encontramos matriculados no primeiro ano primário da Escola John Kennedy, no bairro Getúlio Vargas. Nos tornamos amigos desde então e muitos colegas achavam que éramos irmãos. Até hoje encontro pessoas que me perguntam: – Como vai o seu irmão, Gilberto?
Alguns anos após o início da amizade escolar o destino nos proporcionou mais uma proximidade. Minha família mudou-se para uma casa na vizinhança da residência de Gilberto: ele morava na rua Riachão (entre Laranjeiras e São Cristóvão) e nós fomos para a rua Laranjeiras (entre Riachão e Floriano Peixoto). Além da convivência na sala de aula passei então a frequentar a casa de Gilberto diariamente.
Todas as manhãs, após acordar, tomar café da manhã e simular algum estudo eu corria para a casa de Gilberto. Lá assistíamos TV, jogávamos buraco, ouvíamos música… Teve uma época que chegamos até a montar e apresentar uma peça de teatro embaixo da goiabeira que havia no quintal da casa dele, com assistência de uma plateia formada por vizinhos.
Contudo, havia uma particularidade na casa de Gilberto. Lá moravam ele, a mãe (Dona Carmosa) e mais dois irmãos (Gilvan e Zé Alberto) – o pai, seu Odilon, havia falecido pouco tempo após a mudança da minha família para a rua de Laranjeiras. Naquele tempo, era comum, nas famílias que não podiam pagar empregadas domésticas, a exemplo das nossas, as tarefas de casa serem feitas pela mãe e pelas filhas mulheres. Na família de Gilberto, porém, só haviam filhos homens. Os dois mais velhos já trabalhavam e, por isso, os serviços de casa recaiam mais sobre o meu amigo. Todos os dias, quando eu lá chegava para brincar, sempre encontrava Gilberto com uma vassoura, um balde de água e desinfetante, um rodo e um pano – brincar ele só ia após varrer e passar o pano molhado por todo o chão da casa.
Agora, nestes tempos de isolamento por conta da pandemia, tenho conversado com muitos amigos e amigas sobre o dia a dia dentro de casa. A maioria daqueles que contam com serviços domésticos de limpeza (faxina) ou até mesmo com empregadas que cozinham, dispensaram as "secretárias" por algum tempo. Pelos depoimentos que tenho colhido é nítida a dificuldade na realização daqueles serviços que são ditos "menos qualificados". Isso faz parte da soberba contemporânea: talvez as duas atividades mais fundamentais para uma vida com dignidade – alimentação e limpeza – passaram a ser consideradas menores e foram abandonadas pela maioria das pessoas. Tenho certeza de que Gilberto, graças àquela tarefa cotidiana que ele sempre desempenhava com tamanha dignidade e zelo, está passando menos aperto que eu e muita gente. Aprender (ou reaprender) e mudar também são possibilidades da nossa natureza.
PS – Antes de enviar esta crônica ao Jornal do Dia, a enviei para Gilberto. Ele respondeu assim: "Com certeza os trabalhos domésticos nunca foram problemas para mim. Continuo lavando prato, varrendo e passando pano de chão. Só que bem menos". Gilberto tem uma bela família: uma companheira, filhas e filhos.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Conheci Gilberto por volta de 1972. Eu e ele nos encontramos matriculados no primeiro ano primário da Escola John Kennedy, no bairro Getúlio Vargas. Nos tornamos amigos desde então e muitos colegas achavam que éramos irmãos. Até hoje encontro pessoas que me perguntam: – Como vai o seu irmão, Gilberto?
Alguns anos após o início da amizade escolar o destino nos proporcionou mais uma proximidade. Minha família mudou-se para uma casa na vizinhança da residência de Gilberto: ele morava na rua Riachão (entre Laranjeiras e São Cristóvão) e nós fomos para a rua Laranjeiras (entre Riachão e Floriano Peixoto). Além da convivência na sala de aula passei então a frequentar a casa de Gilberto diariamente.
Todas as manhãs, após acordar, tomar café da manhã e simular algum estudo eu corria para a casa de Gilberto. Lá assistíamos TV, jogávamos buraco, ouvíamos música… Teve uma época que chegamos até a montar e apresentar uma peça de teatro embaixo da goiabeira que havia no quintal da casa dele, com assistência de uma plateia formada por vizinhos.
Contudo, havia uma particularidade na casa de Gilberto. Lá moravam ele, a mãe (Dona Carmosa) e mais dois irmãos (Gilvan e Zé Alberto) – o pai, seu Odilon, havia falecido pouco tempo após a mudança da minha família para a rua de Laranjeiras. Naquele tempo, era comum, nas famílias que não podiam pagar empregadas domésticas, a exemplo das nossas, as tarefas de casa serem feitas pela mãe e pelas filhas mulheres. Na família de Gilberto, porém, só haviam filhos homens. Os dois mais velhos já trabalhavam e, por isso, os serviços de casa recaiam mais sobre o meu amigo. Todos os dias, quando eu lá chegava para brincar, sempre encontrava Gilberto com uma vassoura, um balde de água e desinfetante, um rodo e um pano – brincar ele só ia após varrer e passar o pano molhado por todo o chão da casa.
Agora, nestes tempos de isolamento por conta da pandemia, tenho conversado com muitos amigos e amigas sobre o dia a dia dentro de casa. A maioria daqueles que contam com serviços domésticos de limpeza (faxina) ou até mesmo com empregadas que cozinham, dispensaram as "secretárias" por algum tempo. Pelos depoimentos que tenho colhido é nítida a dificuldade na realização daqueles serviços que são ditos "menos qualificados". Isso faz parte da soberba contemporânea: talvez as duas atividades mais fundamentais para uma vida com dignidade – alimentação e limpeza – passaram a ser consideradas menores e foram abandonadas pela maioria das pessoas. Tenho certeza de que Gilberto, graças àquela tarefa cotidiana que ele sempre desempenhava com tamanha dignidade e zelo, está passando menos aperto que eu e muita gente. Aprender (ou reaprender) e mudar também são possibilidades da nossa natureza.

PS – Antes de enviar esta crônica ao Jornal do Dia, a enviei para Gilberto. Ele respondeu assim: "Com certeza os trabalhos domésticos nunca foram problemas para mim. Continuo lavando prato, varrendo e passando pano de chão. Só que bem menos". Gilberto tem uma bela família: uma companheira, filhas e filhos.

* Antonio Passos é jornalista

 

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