GONZAGÃO, SÃO JOÃO E O CARNEIRINHO

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
Entre os santos católicos popularmente conhecidos no Brasil pelo ciclo junino, São João é o mais discreto. Em contraposição, é o mais festejado e o mais badalado. Sua representação iconográfica também é uma das mais simples, por outro lado é uma das mais belas e mais significativas do devocionário cristão.
Está lá, em João, o Evangelista, 3,30: "É necessário que ele cresça e que eu diminua". Assim foi João, o Batista: aquele cuja missão era anunciar a Salvação. Abrir as portas do Céu para aqueles que cressem no Cristo. Pregando e batizando, amado e seguido, teve a cabeça ofertada a Herodes Antipas, por orgulho, vaidade e lascividade.
João, o Batista, aquele que batizava com água e que também batizou Jesus no Jordão. Vestido de forma simples, que não comia carne e nem bebia. Se anulou para que o filho de Deus se manifestasse em toda a sua glória. Ele, tão celebrado nas noites frias do Nordeste, de junho a julho, se declarou impróprio de desamarrar as sandálias do Messias.
João de Isabel, da lenda da fogueira. Isabel que mereceu a atenção da Mãe de Nosso Senhora: "Ave, cheia de graça". João do cordeirinho. De uma das mais significativas maneiras de anunciar aos mais simples, sem palavras rebuscadas e teologias, sua função profética, trazendo no colo, aos pés ou nos braços um cordeirinho: o Cordeiro de Deus!
No cenário da história musical brasileira, ninguém traduziu melhor essa representação que o Rei do Baião, o imortal Luiz Gonzaga (1912-1989), em boa parte de seu reportório, mas de modo particular na canção "São João do Cordeirinho", perto de completar 70 anos de lançada, que ele divide a autoria com Guio de Morais.
Para Valeska Barreto Gama: "A canção São João do Carneirinho, uma das mais regravadas por Gonzaga e outros artistas da atualidade, é executada de forma alegre – marchinha junina -, capaz de demonstrar o sentimento do fiel por ter alguém que possa entendê-lo e por ele interceder no campo do sagrado" (2012, p. 128).
Dividida em quatro estrofes, ela é guiada por um refrão que se repete como uma oração: "Ai São João, São João do Carneirinho / Você é tão bonzinho / Fale com São José / Fale lá com São José, peça pra ele me ajudar / Peça pro meu mio dar / 20 espiga em cada pé".
Além de trazer essa relação entre a graça da fartura alimentar e a intercessão divina, confirma e afirmas a primazia de São João Batista sobre todos os santos juninos: Antônio, Pedro, Paulo. E porque não dizer, Santa Isabel, celebrada no dia 2 de julho, e subsumida pelo machismo estrutural brasileiro. A matriarca das viúvas e viúvos, que acendem fogueiras nesse dia, na frente dos cemitérios. Tradição esquecida ao longo dos anos.
Talvez a discrição de João, o Batista, tenha mais a dizer do que é prescrito pela Igreja, pelas Escrituras e pela Tradição. João, simples e festivo, discreto e altivo, ponderado e destemido, segue anunciando, de tempos em tempos, de fogueira em fogueira, que o caminho é a simplicidade e a humildade, cativando e cultivando um coração alegre, festivo e esperançoso.

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Entre os santos católicos popularmente conhecidos no Brasil pelo ciclo junino, São João é o mais discreto. Em contraposição, é o mais festejado e o mais badalado. Sua representação iconográfica também é uma das mais simples, por outro lado é uma das mais belas e mais significativas do devocionário cristão.
Está lá, em João, o Evangelista, 3,30: "É necessário que ele cresça e que eu diminua". Assim foi João, o Batista: aquele cuja missão era anunciar a Salvação. Abrir as portas do Céu para aqueles que cressem no Cristo. Pregando e batizando, amado e seguido, teve a cabeça ofertada a Herodes Antipas, por orgulho, vaidade e lascividade.
João, o Batista, aquele que batizava com água e que também batizou Jesus no Jordão. Vestido de forma simples, que não comia carne e nem bebia. Se anulou para que o filho de Deus se manifestasse em toda a sua glória. Ele, tão celebrado nas noites frias do Nordeste, de junho a julho, se declarou impróprio de desamarrar as sandálias do Messias.
João de Isabel, da lenda da fogueira. Isabel que mereceu a atenção da Mãe de Nosso Senhora: "Ave, cheia de graça". João do cordeirinho. De uma das mais significativas maneiras de anunciar aos mais simples, sem palavras rebuscadas e teologias, sua função profética, trazendo no colo, aos pés ou nos braços um cordeirinho: o Cordeiro de Deus!
No cenário da história musical brasileira, ninguém traduziu melhor essa representação que o Rei do Baião, o imortal Luiz Gonzaga (1912-1989), em boa parte de seu reportório, mas de modo particular na canção "São João do Cordeirinho", perto de completar 70 anos de lançada, que ele divide a autoria com Guio de Morais.
Para Valeska Barreto Gama: "A canção São João do Carneirinho, uma das mais regravadas por Gonzaga e outros artistas da atualidade, é executada de forma alegre – marchinha junina -, capaz de demonstrar o sentimento do fiel por ter alguém que possa entendê-lo e por ele interceder no campo do sagrado" (2012, p. 128).
Dividida em quatro estrofes, ela é guiada por um refrão que se repete como uma oração: "Ai São João, São João do Carneirinho / Você é tão bonzinho / Fale com São José / Fale lá com São José, peça pra ele me ajudar / Peça pro meu mio dar / 20 espiga em cada pé".
Além de trazer essa relação entre a graça da fartura alimentar e a intercessão divina, confirma e afirmas a primazia de São João Batista sobre todos os santos juninos: Antônio, Pedro, Paulo. E porque não dizer, Santa Isabel, celebrada no dia 2 de julho, e subsumida pelo machismo estrutural brasileiro. A matriarca das viúvas e viúvos, que acendem fogueiras nesse dia, na frente dos cemitérios. Tradição esquecida ao longo dos anos.
Talvez a discrição de João, o Batista, tenha mais a dizer do que é prescrito pela Igreja, pelas Escrituras e pela Tradição. João, simples e festivo, discreto e altivo, ponderado e destemido, segue anunciando, de tempos em tempos, de fogueira em fogueira, que o caminho é a simplicidade e a humildade, cativando e cultivando um coração alegre, festivo e esperançoso.

 

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