MERCENÁRIOS DE GABINETE

Alexandre Conrado

Conquanto antigos, os mercenários de guerra são uma classe de militares recentemente exposta ao mundo graças a informações disseminadas sobre a guerra da Ucrânia, muito embora existam e atuem desde a mais remota antiguidade. Com efeito, a China se valeu desses combatentes nos séculos IV e III a.C. ; mercenários líbios, por exemplo, serviam nas fronteiras do Egito Antigo e tropas persas, contratadas, atuavam na defesa de cidades gregas.
Cartago, Constantinopla, Itália foram palco de embates onde tropas de mercenários atuaram sempre regiamente remunerados. Mesmo no Brasil, contratados por D. Pedro I, encontramos o Corpo de Estrangeiros que lutou na Guerra Cisplatina e, não tão distante no tempo, mercenários germânicos, os Brummer, lutaram ao lado do Império brasileiro contratados por D. Pedro II, na Guerra contra Oribe e Rosas. A Bíblia, em I de Samuel – 27, relata que o próprio Davi, o segundo dos reis de Israel, serviu como mercenário dos filisteus, contratado por Aquis, rei de Gate.
Sabe-se que o soldo médio pago, hoje, a um mercenário na Ucrânia varia entre US$ 1 mil a US$ 2 mil por dia, mais alguns bônus. Nada mal para quem, eximindo-se de patriotismo ou caráter, está pronto a atuar em qualquer front, desde que o soldo seja compensatório. Na verdade, mercenários seriam o coletivo de pistoleiros, arregimentados para o serviço da morte a qualquer tempo e lugar, mediante paga.
O Brasil vem revelando, para tristeza nossa, uma nova classe de mercenários, os Mercenários de Gabinete, arregimentados pelo presidente Bolsonaro dentre militares da reserva, muitos deles ostentando altas patentes, mesmo sem terem enfrentado qualquer guerra e só arriscado poucos tiros em breves treinamentos, para servirem a interesses pessoais revestidos de interesses públicos, sob a capa do falso patriotismo.
A bem da verdade, serviriam ao país se respeitassem o Estado Democrático de Direito e as instituições estabelecidas, a começarem pela lisura, idoneidade e honra das Forças Armadas que arrastam para o lodo, quandopassam por seus representantes e parecem falar pela tropa, tudo movidos por um soldo extra que usufruem nos altos cargos que passaram a ocupar.
Esse momento grave passará, como tantos outros que já vivenciamos, custará, porém, às Forças Armadas, maculadas por esses falsos patriotas, sarar a ferida quase cicatrizada do tempo em que se prestaram a ser o braço armado do Poder Civil representado por políticos e empresários que delas se serviu e as execrou quando delas não mais precisavam.

Alexandre Conrado, Advogado, Observador Político.
acccdacccd@hotmail.com

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