Criminosos de farda

O corporativismo da Polícia Rodoviária Federal, capaz de macular a reputação de toda a corporação, a fim de resguardar os criminosos infiltrados em seus quadros, chega a ponto de ignorar um dos flagrantes mais escandalosos já registrados em Sergipe. Ainda reverbera na memória coletiva a declaração mentirosa de sua assessoria de imprensa, que atribuiu a causa mortis de um cidadão sob a custódia de seus policiais a um “mal súbito”. Não tinha o menor cabimento.
O caso é revoltante. A tortura e o assassinato de Genivaldo de Jesus Santos foram documentados pela população, por meio das câmeras de aparelho celular. Tudo se deu em via pública, em plena luz do dia. Entretanto, embora não pese sombra de dúvida sobre a autoria dos crimes, a Polícia Federal teima em postergar a conclusão do inquérito aberto para elucidar o episódio. Enquanto isso, os assassinos de Genivaldo permanecem impunes.
Lá se vão 90 dias, desde quando Genivaldo teve a infelicidade de topar com a patrulha da PRF, no interior do estado. O episódio, em si, fala mal de toda a corporação, desde o abuso de autoridade constatado na maneira como se deu abordagem, até chegar as vias de fato. De pouco adiantou a informação de que o homem imobilizado como um animal feroz fazia uso de medicamentos controlados, era um portador de deficiência mental. Sem mais, nem menos, os assassinos acharam por bem trancafiá-lo na mala de uma viatura e sufocá-lo com gás lacrimogêneo, até ele perder a consciência.
A tranquilidade com que os policiais sergipanos se comportaram diz algo sobre eles próprios, mas também evidencia a cultura da morte, em voga nos quartéis e delegacias de polícia, Brasil afora. O elevado índice de letalidade policial observado no país sugere uma licença extra-oficial para matar, como se a farda isentasse o profissional a serviço da segurança pública de qualquer responsabilidade sobre os próprios atos. Não é assim, entretanto. A Superintendência da Polícia Rodoviária em Sergipe deveria ser a primeira a cobrar a apuração do episódio e a eventual condenação dos criminosos ainda em seus quadros.
O assassinato de Genivaldo, obra e graça de policiais rodoviários federais de serviço em Sergipe, permanece impune. Até quando?

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