Medo e delírio

O presidente Jair Bolsonaro e seus colaboradores mais próximos são pessoas cheias de convicção, dizem acreditar piamente em teorias conspiratórias as mais cabeludas. Prova do que dizem saber, entretanto, jamais são apresentadas.
No episódio mais recente, a senadora eleita Damares Alves, ex ministra do governo Bolsonaro, denunciou uma suposta rede de exploração sexual infantil em Marajó (GO). A denúncia foi realizada no púlpito de uma igreja evangélica, durante um culto, com o requinte de detalhes escandalosos. Tudo indica, entretanto, a história não passa de fábula, alardeada com o fim de causar comoção no meio religioso, tendo em vista a arrecadação de improváveis dividendos eleitorais junto aos militantes da extrema direita. Damares afirmou que o presidente se levantou para defender as crianças exploradas e, por isso, trava “uma guerra espiritual”, materializada na eleição em curso.
Damares encarna, talvez, a face mais delirante e perigosa do bolsonarismo, explícita na intenção declarada de subverter a laicidade do Estado brasileiro. Ante as diversas denúncias relacionadas à atuação ilegal de grupos religiosos no primeiro escalão da República, entretanto, convém esclarecer os desinformados: No papel, o Estado é laico. Contra todas as aparências, a eleição do presidente Jair Bolsonaro não suplantou a Constituição Federal.
O lema adotado durante a campanha, bem como o primeiro discurso realizado na condição de presidente eleito adiantaram a nociva confusão entre os domínios do campo público e privado durante a gestão Bolsonaro. A fé é uma questão de foro íntimo, a liberdade de culto é assegurada pela Carta Magna. Muito diferente é submeter recursos, iniciativas e decisões da administração federal à influência indevida de líderes evangélicos. Também no aspecto religioso, o Brasil é plural.
Damares deve explicações à Justiça, já cobradas formalmente. Em verdade, no entanto, ela não passa de mais uma peça, mero peão, num projeto maior, traçado com o objetivo explícito de solapar os fundamentos da República.

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