Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
O barato da maturidade é que ela sempre nos permite se surpreender. Meu gosto musical sempre foi eclético, desde menino. Com o tempo, fui treinando meu ouvido para curtir de tudo um pouco, evidente que com minhas preferências. Mas, havia um estilo que nunca tive muita paciência para apreciar como se deve até ser tomado de assalto, no melhor sentido da palavra, por uma releitura do Heavy Metal. Variação do Rock, surgida no final dos anos 60 e que foi ganhado forma e consistência nas décadas seguintes.
Esta semana, em dois episódios que juntos somam mais de duas horas, assisti ao filme “Metallica: Some Kindof Monster” (2004). Eu já conhecia a banda “Metallica” e até ouvia algumas coisas, mas nada que pudesse me levar a ouvir outras coisas de seu repertório e até mesmo a curtir. Mas, esse “Metallica: Some Kindof Monster” não somente fez com que eu conhecesse melhor o grupo, sua trajetória de sucesso e reveses, como também a perceber arte e beleza no Heavy Metal.
Por conta de minha formação cristã, penso que a associação que se faz do Rock e mesmo do Metal ao diabo tenha me afastado tantos anos dessa experiência de ouvir e mergulhar na essência do Metallica. Contribuíram, em grande medida, para mudar meus conceitos e preconceitos, além da maturidade, claro, dois fatores: conhecer o padre Carlos Alberto de Jesus Assunção, atual pároco da Paróquia Nossa Senhora do Menino Jesus e da Sagrada Face, de Lagarto-SE. E as pontuações de meu filho sobre como ele percebia não só o Metal, como outros estilos originários do Rock.
Em comum entre eles, o gosto por um tipo de gênero musical que tem a raiva como inspiração. Sim, a raiva! De tudo e de todos, típico não somente da adolescência, mas também do ser humano, que muitas vezes não sabe fazer o uso adequado dela. A questão toda é como a raiva pode ser canalizada para nos transformarmos em pessoas melhores e essa foi a pegada do filme “Metallica: Some Kindof Monster”, uma verdadeira terapia em grupo, gravada ao vivo, sem cortes, e exposta para os fãs de pelo menos quatro décadas.
Fundada em 1981, originalmente por James Hetfield e Lars Ulrich, a banda norte-americana “Mettalica” foi se ressignificando ao longo dos anos, sendo composta atualmente, desde 2003, também por Kirk Hammett e Robert Trujillo. Eu que conheço como são as trajetórias de grupos de rock, percebo que em grande medida seus egos são os grandes vilões pelo fim de algumas delas, a exemplo dos Beatles e, nesse caso, não necessariamente por causa de Yoko Ono, bode expiatório.
No que se refere ao “Mettalica”, eles se viram diante do “monster” (monstro), o encaram e tiveram a força necessária para superá-lo. Os depoimentos de seus componentes, sobretudo James Hetfield, Lars Ulrich e Kirk Hammett (Trujillo entro no grupo ao longo das filmagens para substituir Jason Newsted) mostram o ser humano em toda a sua verdade, às voltas com o medo, a ansiedade e desesperança, que levou praticamente todos eles às drogas e ao alcoolismo.
“Metallica: Some Kindof Monster” mostra como uma banda renasce das cinzas, em pleno processo de ebulição de choques de egos e descontroles emocionais. O filme, para além de mostrar o processo criativo do grupo, é um convite a repensarmos nossas vidas. De que adianta esperdiçar anos e anos de vida e, portanto, produzir arte e diversão com mais intensidade, que se perder no caminho como muitos jovens talentos, falecidos antes de completar trinta anos?
Impossível não sair melhor e com vontade de melhorar depois da experiência de ver o filme e se permitir ouvir “Metallica”. Prontamente, minha reflexão me fez fazer um link com uma fala recente do papa Francisco que diz: “O que nos falta é uma santa raiva, uma santa raiva! A temeridade que brota do conhecimento de Deus e da humanidade, a capacidade de indignar-se quando a justiça se encontra prostrada nas ruas e quando a mentira grassa na face da terra, uma santa raiva contra tudo o que é injusto no mundo”.


