MOEDA E ESCÂNDALOS

Inocêncio Nóbrega

Há uma conexão muito estreita entre os desvios de conduta financeira e a função fiduciária, inicialmente representada pela circulação do ouro. A percepção desse valor econômico, em virtude de sua escassez, fez com que a Europa se batesse pelo suprimento interno do produto. Em Portugal, por exemplo, ele entrava proveniente, em especial, da Guiné, obtido via transações comerciais. A riqueza de uma nação se media, pois, pelo volume total, aí existente desse metal, o que na economia chamávamos de lastro, ou o PNB (Produto Nacional Bruto), que é o somatório dos bens e serviços produzidos. Mas, sua utilização servia para a suntuosidade das Igrejas, Palácios e Castelos.
Cientes de seu valor intrínseco, as elites preferem mantê-lo guardado, a sete chaves, daí retirando como adornos pessoais, nas festas de requinte. Possuí-lo, significava ostentação de nobreza. Por outra parte, o mau uso do influente metal despertou na cabeça dos incautos gerentes das nações, atingindo a nossa, desde as gerações imperiais e republicanas, a partir das fases de sua substituição pelo dinheiro em papel, escritural e, agora, virtual. Não mais servindo de medição econômica, concepção que golpistas de 1964 tentaram alterá-la, sem sucesso, já em de maio de 1964, quando civis e militares de alta patente resolvem criar a campanha “Ouro para o bem do Brasil”. Com Assis Chateaubriand à frente, pedindo a “patriótica” colaboração de todos, coletavam-se joias, alianças, pulseiras e demais objetos auríferos, dizendo que se destinavam à amortização da nossa dívida externa. Milhões de dólares arrecadados somados, até hoje não se sabe do destino tomado.
Perfeito crime de estelionato, nunca apurado. Seguiram-se combinações de qualquer matiz e de diferentes objetivos. Mais modernos, menciono outros escândalos: dos “700 bilhões de cruzeiros, depositados na Suíça, mais uma vez envolvendo militares, políticos e empresários de destaque (1979); da “Mandioca” (1982); do “Des. Nicolau Santos Neto (2000); dos “Anões do Orçamento”; da “Igreja Renascença” (2009); de “Demóstenes Torres” (2012); de Antonio C. Magalhães”, por violação do painel eletrônico do Senado. Procedimentos bastante factíveis em áreas de cultura e saúde: “Escândalo dos remédios” (1998), alguns sem mensuração monetária. Assim pudesse ser, qual o montante do estrago, no aparelho produtivo local, ocasionado por negligência do governo central, com 400 mil vidas ceifadas durante a Pandemia? Verdadeira tragédia, impensável a totalização, pelos valores humanos perdidos. Se evitadas essas mortes, naturalmente a geração do consumo familiar teria impulsionado a economia da região.

Inocêncio Nóbrega, jornalista.

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