FILHO DE LINDU

A imagem de Lula retrata o amor telúrico pelo seu torrão natal, tão detratado por patrícios de outras regiões, pois não aceitam o relacionamento pacífico, nacional

* Inocêncio Nóbrega

O recém-eleito Lula da Silva, filho do sr. Aristides e d. Eurídice (Lindu), que cumpriu dois mandatos para Presidente da República, 2003/2011, agora está de volta ao Planalto. Todos nós acompanhamos o desenrolar do pleito, extremamente polarizado, questionado por parte de seus adversários, especialmente por haver nascido em pacata cidade de Pernambuco. Talvez incomode seu sobrenome Silva, extensa e variada estirpe que se liga à história colonial do Brasil, que contrasta às originadas de correntes imigratórias. Na verdade, sua imagem retrata o amor telúrico pelo seu torrão natal, tão detratado por patrícios de outras regiões, pois não aceitam o relacionamento pacífico, nacional.
Nordestino, tal como José Sarney e foram Café Filho e Epitácio Pessoa, candidatura esta indicada pelo Senador Soares dos Santos-RS, e vitoriosa nas eleições presidenciais de abril de 1919, diante da chapa oposicionista do baiano Ruy Barbosa. Não há motivos para divergências ideológicas e partidárias, em face do resultado das urnas, se atinarmos que somos uma única Nação, e professamos a democracia. Seria subestimar a majoritária preferência do eleitorado, fortemente expressa a partir da larga faixa territorial mineira inserta no Polígono das Secas, cujos habitantes de seus municípios se interagem com seus compatriotas do lado Nordeste. Sim, Minas Gerais, geográfica e sentimentalmente sempre lhe pertenceu. Estado que entende a linguagem dos compatriotas do além centro-oeste, especialmente dos mais carentes.
Cedo, Lula habituou-se com as adversidades, inicialmente vítima de mordida de um jegue, aos quatro anos de idade, salvo pelos gritos de uma sua irmã; só conheceu o rádio, uma bicicleta e um par de chinelos aos cinco; aos sete, acompanhou sua mãe e toda família, menos o pai, até São Paulo, numa viagem de 13 dias, em pau de arara. Número que certamente lhe deu tanta sorte. Nas paradas, segundo depoimento dele próprio à “Isto É” (maio/2009), “as crianças dormiam ao relento, debaixo do caminhão, quando chovia”. Continua ele: vendia lenha, laranja, tapioca e engraxava sapatos; empregado de uma tinturaria, auxiliar de escritório. Graças a um curso no SENAI virou metalúrgico, sindicalista, político.
Foram milhares de votos das alterosas a ele atribuídos, somando-se à esperança de um País mais justo, soberano, altivo, dono de suas riquezas. Esse elo se transmite desde a imortal figura de Tiradentes, de quem se espelharam inúmeros mártires nordestinos, que lutaram pela Independência do Brasil, de cada gota d’água, pelo Rio São Francisco, a movimentar as turbinas de Sobradinho, ou a saciar a sede de seus irmãos do semi-árido. Afastada qualquer hipótese preconceituosa.

* Inocêncio Nóbrega, jornalista

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