Inocêncio Nóbrega
A lenda refere-se ao bispo Nikolaus, habitante de Myra, antiga cidade da Grécia. Ou na Turquia, segundo outros. Com vestes, presumivelmente clericais, costumava conduzir uma sacola com moedas de ouro para, de um jeito anônimo, assistir os mais financeiramente necessitados. Atos esses que tempos depois o elevariam à santidade, após constatações de milagres a ele atribuídos, declarados por muitos fiéis. A devoção ao Santo Nicolau é bastante difundida na Alemanha, que o elegeu patrono dos navegantes, estudantes, pedreiros e comerciantes.
Nele inspirado, na Idade Média concebeu-se um Papai Noel, modernizado na Contemporânea, fisicamente retratado como um homem alegre, rechonchudo, aparentando-se de uma faixa etária mais avançada, de tez coberta por espessos bigodes e barba brancos, portando touca, casaco e calças vermelhos, de botas, trazendo motivos na gola e bainhas, da maneira que o vemos hoje. Há, ainda, sobre o “Bom Velhinho”, apelido que ganhou em vários países, onde a criançada dele espera um presente, em data a ele consagrada. Sempre acompanhada de interesses comerciais, a tradição é lembrada na Europa, geralmente a 6 de dezembro, ou a 13, na Itália, sob o título de “Babo Natal”.
No Brasil, durante as festas natalinas, preservando-se a imagem e semelhança do saudoso batuta grego. É quando pomos, estrategicamente, nosso calçado, de uso cotidiano, abaixo da cama ou rede, acreditando, segundo nossos pais contavam, que Papai Noel desceria pela chaminé ou telhado das casas, às caladas da noite, deixando-nos a lembrancinha, que lhe havíamos solicitado por carta. Pelo menos eu testei a crença, porém não fui bem sucedido, desconfiado da trama.
Ser “Papai Noel” pode render ganho adicional, todavia requer alguma arte. Há uma seleção, entre os candidatos, cujos eleitos são submetidos aos caprichos do maquiador. As sobrancelhas são ajeitadas, o pó lhe deixa o rosto branquiçado, e os óculos precisam ser novos, a exemplo da fonética, e boa condição física, são características mínimas exigidas. Trabalho temporário muito bem procurado pelos avôs desocupados.
Neste 2022, o Natal foi festejado, entre nós, com raras presenças, nas ruas e nas lojas, do afável “Kestman”, em holandês; “Père Noel”, na França; ou “Jizo”, para os poucos cristãos japoneses. Teria sido a cor de suas vestes? Sem segurança, naturalmente evitava o risco. Uma outra forma de aparecer nas residências ou abrigos das famílias carentes brasileiras, diariamente, nas três refeições, concebida pelo novo governo. Poderíamos batizar essa ação social de “Bolsa Nicolau”, numa referência à humanitária atitude daquele clérigo, sem o alarde capitalista, pelo lucro.
Inocêncio Nóbrega, jornalista


