Sessão especial na Alese tratou sobre enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa

Um ato de manifestação, amplificação de vozes silenciadas, ocupação de um espaço negado. Assim foi marcada a sessão especial em alusão ao ‘Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa’, realizada, nessa segunda-feira (17), na Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese). De autoria da deputada estadual Linda Brasil (Psol), a sessão teve como objetivo discutir acerca das consequências das violências sofridas pelos povos de terreiro, refletir sobre a ausência de políticas públicas e a necessidade de inserir a campanha ‘Abril Verde’ no calendário de oficial do Estado de Sergipe, e reuniu representantes das religiões de matrizes africanas – mães, pais e filhos de santo -, integrantes da sociedade civil organizada e do poder público que atuam nas áreas de proteção, garantia de direitos e gestão de políticas públicas voltadas ao grupo
A deputada Linda Brasil iniciou a sessão apresentando dados que retratam as consequências do racismo e da intolerância religiosa no Brasil. De acordo com o levantamento inédito feito no ano passado sobre as religiões de matriz africana no país, 78,4% de pais e mães de santo brasileiros já foram alvo de violência, seja por intolerância ou por racismo religioso. A pesquisa, que foi coordenada pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) e pela entidade Ilê Omolu Oxum, também apontou que 91,7% ouviram algum tipo de preconceito por conta da religião escolhida. Foram entrevistados 255 líderes de terreiros no Brasil, em diversas regiões.

Participação política – A doutora em Antropologia Social e professora da UFF, Ana Paula Mendes de Miranda, que tem forte atuação na área de pesquisas com as comunidades de terreiros em Sergipe e em outras partes do país, destacou a importância dos terreiros se engajarem, enfrentarem às violências e, principalmente, ocuparem espaços de decisão e construção. “Sergipe precisa e sabe fazer. Só é necessário analisar como a gente pode somar forças entre as nossas famílias, nossas ancestralidades e nossas redes, para seguirmos inventando novas formas de fazer política. Só assim vamos conseguir transformar esses espaços que não nos acolhem, não nos permitem existir”, observou.
Só no primeiro semestre de 2019, houve um aumento de 56% no número de denúncias de intolerância religiosa em comparação ao mesmo período do ano anterior em todo o Brasil. A maior parte dos relatos foi feita por praticantes de crenças como a Umbanda e o Candomblé. Os casos são registrados pelo canal Disque 100. Em Sergipe, segundo a delegada Meire Mansuet, é necessário avançar. “Percebemos que o número de denúncias ainda é muito menor se compararmos ao número de casos. As pessoas sofrem violências, mas não fazem as denúncias, por diversos fatores: falta de conhecimento, não acreditarem no resultado daquela denúncia em relação à Justiça e também com medo de serem discriminadas”, analisou.

Homenagens – A Sessão Especial homenageou mãe Marizete Silva Lessa, a mais antiga Iyalorixá de Sergipe; mãe Bequinha de Oxum, Iyalorixá com forte representatividade e contribuição na luta na cidade de Riachuelo; pai Lau de Obaluaê, importante liderança religiosa de Aracaju, à frente do Abassá Cafugenan Ni Sahara, que, em 2015, foi vítima da violência do Estado e do racismo religioso.
Entre as representações, fizeram-se presentes: Miguel de Ogum, Ylê Asé Talakaroneji; Yá Martha Sales, ILê Axé Omiró (Casa De Mar); professor do curso de Ciência da Religião daUFS, Dartanhã Abdias; Acácia Maria, Axé Ilê Oba Abassar Odebamirê Oba-Fanidê; iyá Oyaiyele, Ialaxé do Axé e Dacile Odi; Marcos Xoroque, presidente do Coletivo de Ekedis e Ogans de Sergipe; pai Calixto, Templo de Caridade Umbandistas Caboclo Pena Branca e Preto Velho, Pai Cipriano das Almas; Ana Karoline Trindade, diretora de Direitos Humanos de São Cristóvão; pai Fernando Kassideran, Ilê Axé Demantâ Ni Sahara; Bárbara Lima, Secretaria Geral da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB-SE; Thiago Paulino representando a Vereadora ngela Melo; Emmerly Leite, diretora da Secretaria de promoção de Políticas Públicas de Igualdade Racial de Laranjeiras/SE; Josélia Souza de Brito, Membro da Comissão de Combate ao Racismo da Defensoria Pública de Sergipe; Carlos Cézar Zuzarte, Comissão da Igualdade Racial OAB/SE; Sandro Mezzarano representando o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB); professora Sônia Meire, vereadora de Aracaju; Aline Regina, diretora de Igualdade Racial de Barra dos Coqueiros/SE; Rodrigo Cavalcante Lima, presidente da Associação de Defensores/as Públicos de Sergipe; Izabela Sandes, coordenadora do Núcleo de Matriz Africana da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB/SE; Paulo César, representando o Mandato do Deputado George Passos; Wesley-Olubejá, Ilê Asé Alarokê Babá Ajaguna; além de simpatizantes das religiões de matrizes africanas e população em geral.

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