Raça e gênero são fatores capitais da fome no Brasil. Negros, mulheres e, sobretudo, mulheres negras, povoam um ponto de intersecção social em que um prato de comida, três refeições diárias, adquirem feições de privilégio.
A fome é um problema que atinge um quinto das famílias chefiadas por pessoas autodeclaradas pardas e pretas no Brasil (20,6%). Esse percentual é duas vezes maior quando comparado ao de famílias comandadas por pessoas brancas (10,6%).
No total, 33,1 milhões de pessoas foram impactadas pela fome no país. Os lares chefiados por mulheres negras representam 22% dos que sofrem com o problema, quase o dobro em relação aos liderados por mulheres brancas (13,5%).
Levantamentos como este, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), são fundamentais para definir os contornos de um problema gravíssimo, uma verdadeira chaga. Com os dados em mãos, o poder público pode então elaborar políticas sociais voltadas para o combate à fome, sem o risco de ferir suscetibilidades ideológicas. A fome no Brasil é também uma questão de raça e gênero, em profunda relação com as feridas históricas do país, os números apontam. Não adianta negar os fatos, como foi feito pela presidência da República em passado recente. Só não os vê quem não quer.


