* Thiago Fragata
A palmatória teve lugar e função na sala de aula, por muito tempo,em razão da sua importância no processo de ensino-aprendizagem, segundo os agentes da Educação Brasileira. Difícil acreditar, né? Relembrar isso deveria causar desconforto, tamanho descalabro e insensatez. Definindo palmatória para quem não sabe, não viveu (quem sobreviveu!) as dolorosas pancadas desferidas pelo professor(a): objeto de madeira para castigar alunos indisciplinados e/ou com baixo rendimento, notas. Não sei ano exato que o “instrumento de tortura” foi proibido ou se ainda faz parte de alguma escola tradicional. Há quem ainda defenda violência como indispensável ao aprendizado, o que mostra quão tímidos foram os avanços até aqui. A última palmatória que vi era de maçaranduba, pesada, tinha quase 1 kg! Aquele objeto, tenho certeza, foi o terror de muitos estudantes. Contarei o que sei a seu respeito…
Na minha cidade natal, São Cristóvão, existiu uma escola das freiras, em meados do século XX.Formar meninas e meninos com boa educação religiosa e familiar tornou-se, no Brasil, um sonho das famílias. Ali, as freiras muito espertas instalaram no convento do Carmo uma escola para filhas da elite sergipana; detalhe, a renda era destinada aos projetos sociais, especialmente o orfanato-escola. Mas caridade a parte, o regimento era conduzido por uma madre superiora disposta a cobrar penitências dos subordinados em nome da instrução. Ainda hoje é tabu falar do regime violento desses espaços pois havia um consentimento velado das partes envolvidas. Recordo um ex-interno do orfanato, por exemplo, lembrando que “apenas uma vez no ano (Natal) brincava no parque instalado no quintal, esse era o prêmio concedido aos alunos que chegavam em dezembro com bom comportamento”. O sujeito assegurou que o expediente era eficaz pois funcionou com ele. Do mesmo modo, justificava o regimeda palmatória….
Na capital Aracaju, a modernidade demorou a alterar o universo educacional quanto aos castigos. O jornalista e memorialista Mário Cabral recorda a vida de estudante no Colégio Tobias Barreto dirigido pelo mestre Zezinho, nos anos 20 (década de 1920). Diz que “o regime era duro, com castigos corporais, alunos de joelhos, de pé contra a parede, apanhando de palmatória ou presos na temível cafua (…). A cafua era uma solitária. Uma cela pequena, sem janela, quase sem ar, onde o aluno passava horas e horas confinado no silêncio e na escuridão, sentado ou deitado no chão de cimento”. (1)
Em outra ocasião, matriculou-se no estabelecimento de ensino de Hemetério Gouveia, que atuava como um professor “adepto da palmatória”, a sua era de ipê ou cedro, de cabo longo e forte. Quando algum aluno, especialmente os mais carentes, não correspondia as expectativas do mestre, este “aplicava no desgraçado uma ou duas dúzias de bolo, com toda força que Deus lhe dera. O estalido ouvia-se longe e os gritos também, de dor e de desespero da pobre vítima”. Recordando sua infância no interior da Paraíba, na primeira década do século XX, José Lins do Rego em “Meus Verdes Anos” (1956), traça a escola e o mesmíssimo modus operandi do professor Cabral “a palmatória era a sua vara de condão. Fazia luz nos meninos à custa de surras e de bolos”. (2)
Voltando à palmatória, aquela palmatória de maçaranduba que pesava perto de 1 kg, que vi em São Cristóvão, nos idos de 2012. Eu estava no Museu Histórico de Sergipe, instituição subordinada a Secretaria Estadual de Cultural, atual Fundação de Cultura e Arte (FUNCAP), era diretor. Uma freira, senhora de 60 anos, não direi nome por questões de ética, compareceu para fazer uma doação de objeto histórico. Ela havia agendado esse momento no dia anterior, com a minha secretária. Do seu relato, recordo o seguinte: estava presidindo a escola do orfanato a pouco tempo. Após reunião com a sua equipe gestora, chegaram a decisão de que a palmatória não era um objeto representativo da educação dos novos tempos, que nada relacionava ela a escola, pelo contrário, sua “visão” poderia causar uma má impressão aos pais e mães, especialmente, as crianças. Por essa razão, aprovaram sua doação ao museu. Daí por diante, a religiosa tergiversou, inventou uma origem e justificativa improvável acerca da presença da palmatória na instituição. Um tanto enrubescida, mas com olhar sereno, relatou que um indivíduo havia encontrado o objeto numa pescaria e tomou decisão de entregar no convento; e assim da mesma forma que a imagem do Senhor dos Passos também a palmatória também foi achada no rio!
Imagine a minha cara de historiador ouvindo isso de uma freira que fizera votos de nunca faltar com a verdade… Como estava na condição de receber o objeto doado e avaliar seu valor histórico, não questionei a informação capciosa. Depois que a irmã deixou o recinto, suspirei e ri muito. Olhando a férula, convoquei equipe de estagiários, palestrei que palmatória nunca foi uma “estória de pescador” mas uma história de dor que, a posteriori, foi romantizada. Cecília Meireles, poetiza e educadora, por exemplo, minimiza a violência pedagógica assim: “Ó, menina levada, quer uma palmada? //Uma palmada bem dada para quem não quer nada”.(3) Para mim, pensar a experiência da palmatória é recordar que houve um tempo, não muito distante, que o bulling era realizado pela escola com o aval dos “especialistas em educação”.
*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. E-MAIL thiagofragata@gmail.com FONTES DA PESQUISA: REGO, José Lins. Meus verdes anos: memórias 4ª. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993, p. 82; CABRAL, Mario. Velhas escolas. In: Espelho do tempo: memórias e reflexões. Salvador: Artes Gráficas, 1973, p. 49-50. MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. 2ª Edição. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira,1977.


