* Antônio Ponciano Bezerra
Em breve, ocorrerá a consulta pública (eleitoral) à comunidade acadêmica para a escolha dos cargos de Reitor e Vice-Reitor da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Para iniciar este texto, que não passa de um desabafo espontâneo, apresento dois aforismos clássicos da autoria de Erasmo de Roterdã (1466-1535): “Não merece o doce quem não experimentou o amargo”. Este pensamento se articula com outro do mesmo autor: “Os males que não são imaginados (na sua origem) são os mais perigosos”. Todo ser humano experimenta mudanças, mas a mais assustadora é a de caráter e não a de opinião.
O cenário político dos desmandos bolsonaristas, sobretudo, o dos primeiros momentos do seu (des)governo, não admitia negociações, sobretudo, as referentes a funções ou cargos administrativos. Naquele espaço político inicial, não havia a mínima chance de negociação ou de diálogo político entre as universidades públicas federais e o “imperador” Bolsonaro. As universidades se viram encurraladas e sujeitas a ameaças a sua autonomia e conquistas democráticas obtidas à luz do movimento histórico nacional das “diretas-já”, dos anos de 1980.
A luta política das “diretas-já” não se limitava, apenas, a cargos políticos partidários, mas também se estendia a funções administrativas de instituições sociais como as universidades públicas federais. Na época, essa conquista se firmou como um esforço para driblar intervenções autoritárias e nomeações biônicas.
No entanto, 40 anos depois, o que veio à tona se revelou mais trágico: beneficiados com a luta e as conquistas das “diretas-já” cuspiram e continuam a cuspir no prato que comeram ou que ainda hoje comem. Nesses últimos quatro anos, assiste-se a ironias, a desmandos e a desqualificações das lutas sindicais que se mantêm há 40 anos como um processo eleitoral democrático de escolha dos dirigentes máximos das instituições de ensino superior do país. Realço, neste espaço de escrita, que a consulta pública eleitoral para os cargos ou funções máximas das Instituições sociais universitárias (que nada tem a ver com as organizações sociais) se mantenha como ato democrático legítimo, de 4 em 4 anos, com a participação de estudantes, funcionários técnico-administrativos e docentes (ativos e inativos), nas mais diversos modalidades de ensino, da presencial à modalidade a distância, e em todos os níveis de ensino – da graduação à pós-graduação.
Portanto, não devemos admitir investidas autoritárias, oportunistas e descompromissadas com o funcionamento democrático de nossas instituições de ensino superior públicas. Não devemos recuar, não devemos permitir, devemos resistir, como o mito grego de Prometeu. As ameaças à democracia, nas universidades federais, rebentam como recurso sub-reptício de retorno à tragédia da “bionice” do regime militar.
O contingente de eleitores referido acima deve engajar-se ao processo eleitoral já mencionado neste texto. As eleições de Reitor e de Vice-Reitor não devem reduzir-se a votação de membros de conselhos das instituições, com presença maciça de agraciados com cargos administrativos (de favor), como uma forma de pagamento e não como mérito profissional. É trágica e cômica a queda na vala comum “da compra de votos”, por nossas autoridades acadêmicas. Não serão vozes pautadas em novelinhas da Globo que nos assustam. Não serão desqualificações de nossos atos e demandas político-sindicais, agredidas com denominações do tipo “fuzuês”, que nos amedrontam ou nos conduzem a recuar. O que nos indigna são comportamentos do tipo “cambalacho” que buscam desmerecer as nossas conquistas sindicais. Com certeza, mesmo na ótica das novelas da Globo: “cambalacho” ostenta uma semântica bem mais sórdida do que “fuzuê”. “Cambalacho” encerra má fé, usurpação, distorção, maldade, negativismo, enfim, tudo que se atribui, negativamente, a conquistas de quem não reza na cartilha do poder usurpador. Em tempo: o uso desqualificador da palavra “Fuzuê” não cai bem, eticamente, a quem ocupa certos cargos administrativos de uma instituição social como uma universidade pública federal ao nível daquelas que exercem uma função correcional e que exigem impessoalidade.
Enfim, não houve mudanças significativas, nesses 40 anos, que superem as nossas conquistas sindicais. Infelizmente, pode ter havido mudanças maléficas que são as de caráter, diante de possíveis mudanças honestas que são as de opinião. Então, para concluir essas linhas, evoco o grande e imortal escritor e pensador baiano (com raízes sergipanas), Jorge Amado. Não morram sem ler a sua obra “Tenda dos Milagres”, centrada na realidade étnica baiana e, por extensão, brasileira. Com esta leitura, tirem as suas conclusões sobre reconhecimentos proveitosos, ocasionais, tardios e oportunistas das mais diversas pautas sociais que buscam por uma necessária equidade social. Estudantes de todas as áreas, níveis e modalidades, funcionários administrativos e docentes (ativos e inativos) defendam e pratiquem o seu voto democrático para o nobre cargo de Reitor e de Vice-Reitor, da Universidade Federal de Sergipe. Não se iludam com mais um cambalacho.
Prof. Dr. Antônio Ponciano Bezerra/DLEV-UFS


