Um posfácio para O Grumete, um romance urbano-marítimo

* Moisés Santos Souza
Quando da publicação do primeiro capítulo de O Grumete, o sergipano Constantino José Gomes de Souza contava com 48 anos de idade e já tinha levado ao prelo, alguns livros de poesias, centenas de dramas e dois romances. Era a primeira vez que enveredava os folhetins. Seriam três ao todo: O Grumete (1873/1874); Arycurana (1874/1875) e O Cego (1877/1878).
Antes de pormenorizarmos alguns aspectos da narrativa de O Grumete, vejamos alguns dados biográficos de Constantino Gomes.
Nascido em 18 de setembro de 1825 na povoação de Estância, província de Sergipe, Constantino José Gomes de Souza era filho de José Maria Gomes de Souza e Maria Joanna da Conceição e teve alguns irmãos, sendo mais conhecido o também poeta, homônimo do pai, José Maria Gomes de Souza (1839-1894). Na terra natalícia, estudou as primeiras letras e teve lições de latim. Em 1844, concluiu os estudos secundários em Salvador e nesta mesma cidade, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia. Nesta província, publica seus primeiros versos e colabora em alguns periódicos como “O Crepúsculo”, “A Época Literária” e “O Ateneu”.
Em 1851, muda-se para o Rio de Janeiro e exerce a função de médico na capital do Império e nas cidades escravocratas das fazendas de café: Macacu, Paraíba do Sul, Valença e Vassouras. Entre 1855 e 1857, retorna a Sergipe, designado para tratamento de vitimas da epidemia da cólera, e de volta à Corte, prestou serviços de saúde na guarnição e nos teatros de São Pedro e Santa Teresa.
No Rio, além do exercício médico, foi redator, censor teatral, dramaturgo, romancista e poeta. Nessa cidade, participou na Sociedade Petalógica e circulou por tipografias diversas, convivendo e travando contatos com importantes artistas, escritores e intelectuais do século XIX como José de Alencar (1829-1877), Machado de Assis (1839-1908), Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), João Caetano dos Santos (1808-1863), Francisco de Paula Brito (1809-1861), entre outros. Com o poeta Laurindo Rabelo, manteve amizade. (1)
Também foi no Rio de Janeiro que Constantino Gomes escreveu e publicou grande parte de sua obra literária, a exemplo do livro de poesias “Os Hinos da Minha Alma” (1851); dos dramas “O Espectro da Floresta” (1856) e “O enjeitado” (1860); e dos romances “O Desengano” (1871) e “A filha sem mãe” (1874). É importante aqui ressaltar a presença de Constantino como colaborador e redator em jornais e revistas fluminenses, como “A marmota na Corte” e “A Grinalda”. Esta última, impressa na tipografia de Francisco de Paula Brito, teve comentário do romancista Machado de Assis, quando do lançamento em 1861. Comenta Machado: “Redige-a o Sr. Dr. Constantino Gomes de Souza, cujas aptidões se acham já reconhecidas pelo público, e que deve cumprir o programa a que se propõe.” (2)
Constantino faleceu em 2 de setembro de 1877, vítima de congestão pulmonar. Foi encontrado sem vida pelos médicos Francisco Bonifácio de Abreu (1819-1887) e Ramos da Costa, no segundo andar de casa n. 34 da rua da Conceição, no centro do Rio de Janeiro e sepultado, naquele mesmo ano, no cemitério da corte, o São João Batista. (3)
Com alguns ambientes e cenários familiares ao percurso de Constantino em vida, O Grumete: Romance Marítimo foi publicado na revista Semana Ilustrada, entre os meses de julho de 1873 e junho de 1874, e dedicado ao jornalista e dramaturgo Antônio José Victorino de Barros (1824-1891), que assim como Constantino Gomes, fora membro do Conservatório Dramático.
A trama do romance ambienta-se, inicialmente, na província do Rio de Janeiro, mais precisamente, em Petrópolis, cidade de veraneio da família imperial brasileira, que nos dizeres do autor, era “uma pequena, mas encantadora cidade” à cerca de “nove léguas distantes da capital do Império, sobre a magnífica serra dos Aymorés”. (4) É nesse bucólico espaço urbano que são apresentados ao leitor, os principais personagens do romance: Adriano Wells; Dona Adélia; Aurélio de Campos; Faustino e os irmãos Wells, Margarida e Adelino. Este último, o menino grumete, é o personagem-título do romance.
Narrado em terceira pessoa, o enredo acompanha principalmente a história de Adelino, filho mais velho do casal Adriano e Adélia Wells. De descendência inglesa, Adelino era um menino “travesso, ousado e impetuoso”, mas “altamente talentoso”. Certa vez, ao aprontar uma travessura violenta a sua irmã Margarida, que entregava-se “aos seus inocentes brincos de infância”, é enviado pelo pai, como forma de punição, para bordo da fragata Constituição, um importante navio de guerra da Armada Imperial brasileira.
Privado de todos os carinhos e extremos da família, Adelino forma seu plano de futuro: tornar-se “um dos mais intrépidos e respeitáveis dominadores do mar”. Ao passo que o plano de futuro de Adelino vai se executando – com percalços no caminho -, primeiro na marinha brasileira e logo após na inglesa, o pai, Adriano, juntamente com a esposa e filha, sofrem alguns dissabores tramados pelo sócio e compadre Aurélio, este um dos principais antagonistas do romance. Aurélio, descrito pelo autor, como um homem de caráter “refalsado, hipócrita e fátuo”, tramará seu plano de vingança contra a família Wells, após a recusa de Adriano em conceder à mão da filha para esposa do seu filho, o jovem Faustino de Campos.
O leitor, ao ler todo o romance, estará devidamente informado sobre os desfechos dos heróis e vilões do romance. Vale informar que as formas como são conduzidas a narrativa e o desfecho de O Grumete, são inerentes das características do romantismo ou mesmo dos folhetins, ou se preferir, dos romances marítimos.
O romanceou novela marítima, gênero de grande difusão e de enorme sucesso no século XIX, principalmente em nações europeias como Inglaterra e França, tinha como aspectos o individualismo; a exaltação do heroísmo; ouso de descrições detalhadas tanto dos perigos em alto mar como também das condições adversas do clima e das embarcações; além da demonstração da bravura do homem contra os desígnios da natureza. Esse tipo de gênero, em língua portuguesa, foi introduzido inicialmente por Francisco Maria Bordalo(1821-1861), quando passa a publicar, a partir de 1846, em revistas de Portugal, uma série de narrativas que têm o mar como tema, e vinha na esteira de escritores pioneiros como o americano James FenimoreCooper (1789-1851) e o francês Eugène Sue (1804-1857), estes bastante familiares dos leitores de folhetins do Brasil dos Oitocentos.
No Brasil, durante a segunda metade do século XIX, é provável, que somente dois escritores enveredaram por esse gênero: o gaúcho Antônio Luis Von Hoonholtz (1837-1931), com a diminuta tiragem de 50 exemplares de A Corveta Diana, de 1873; e o sergipano Constantino Gomes de Souza.
Sobre as características romanescas citadas acima, vejamos um trecho de como Constantino Gomes descreve a coragem do intrépido Adelino, em face de perigosa tempestade:
“E o heroico filho de Adriano Wells começa a mandar a manobra com voz tão segura e com tamanho acento, que aqueles velhos marinheiros já batidos por tantas tempestades, não se envergonharam de tornar-se máquinas ao som mágico daquela voz infantil que sobre eles exercia poder quase absoluto./(…) A esta ordem a guarnição prepara-se e deixa passar o primeiro, o segundo e terceiro marouços; a respiração de toda aquela gente estava suspensa, todos os olhares convergiam para a figura homérica do grande menino e todas as esperanças emanavam da sua voz quase onipotente.
– Ala a retranca a barlavento!” (5)
Apesar de ter por subtítulo “Romance Marítimo”, O Grumete, não é somente de todo, uma narrativa marítima. Também é um romance urbano, pois uma parcela dos conflitos, principalmente as que giram em torno dos personagens Adriano, Adélia, Margarida, o “parvo” Martiniano, Aurélio e Faustino de Campos, são em espaços e ambientes urbanos das zonas centrais e periféricas do mundo de então: Londres, Calcutá, Petrópolis, Rio de Janeiro e Salvador.
Nele vemos traços essenciais do romance urbano, de “gosto burguês”, também encontrados em predecessores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar. Um deles, é o sentimentalismo, a supervalorização do amor romântico, pondo a mulher como objeto idealizado e cultuado, principalmente visto na relação entre Faustino e a angélica Margarida e entre Adelino e a formosa Elizabeth. Também veremos a evasão no tempo, pois apesar de O Grumete aparecer em 1873, os eventos narrados conduz a imaginação para os anos entre 1847 e 1857. É possível também ainda ver como elemento romântico, o moralismo de fundo religioso (em especial, católico), encarado na possibilidade de integrar o ser imperfeito (o homem) ao ser perfeito (Deus) e a perspectiva universalista, de alguns temas clássicos como o amor, o orgulho, a vontade, a virtude, o destino e o fatalismo, em extenso diálogo travado pelos amigos Adelino e Faustino. Sobre este diálogo dos dois jovens amigos, de fundo filosófico existencial, observemos este trecho:
“(…) O que devemos desejar é que as circunstâncias nos favoreçam, porque o esforço só do homem não basta; o esforço é apenas o meio de abreviarmos a marcha das circunstâncias, quando nos são favoráveis; quando elas nos são adversas, não há esforço, por mais heroico e obstinado que seja, que as possa vencer. Os moralistas que teorizem como lhes aprouver: a verdade é esta, meu amigo.
– O provérbio diz: o querer é poder. Para mim esta é que é a verdade; creio muito no esforço do homem e nada creio na força do destino.
– Enganas-te completamente: esse provérbio é falso, porque o homem tudo quer e pouco pode. Muitas vezes, onde ele espera a sua suprema felicidade, encontra o seu perpétuo infortúnio. Tudo depende das circunstâncias que fatalmente nos rodeiam.” (6)
Em O Grumete podemos encontrar outros enfoques, alguns perceptíveis e outros nem tanto, a saber: as relações de compadrio; o patriarcalismo e a escravidão. Alguns leitores contemporâneos e mais apressados, que não encontrará personagens negros e escravizados, nem situações ou mesmo conflitos diretos sobre o tema, perguntarão: a escravidão em O Grumete? Respondo: Sim, a escravidão.
Mesmo não estando diretamente na superfície do texto, sabemos que a sociedade senhorial escravista está patente no romance. A própria descrição dos personagens pelo autor, é um indício da época. Sabemos logo no primeiro capítulo, que Adriano Wells era “o mais opulento fazendeiro daquelas cercanias” (7), o que levando em conta a pirâmide social do Segundo Reinado, eleera um senhor de escravos. O mesmo podemos dizer de D. Adélia, descrita pelo romancista, como “filha de um fazendeiro riquíssimo”.(8)
Segundo o historiador Sidney Chalhoub, a escravidão também se faz presente na literatura brasileira dos Oitocentos, quando há “omissão do sujeito dos verbos em ações de trabalho para o usufruto da classe senhorial”. No romance O Grumete existem diversos momentos de omissão. Sobre o assunto, continua o historiador: “a forma do texto diz muito daquela sociedade quando vista do prisma de um rico dono de escravos, (…) a escravidão parecia naturalizada, tão parte da paisagem social que seria redundância nomeá-la ao descrever o mundo do trabalho, fosse o doméstico ou tantos outros.” (9)
Mas não precisamos ir muito longe pelo indiciamento, algumas passagens da narrativa são diretas, mais claras, a exemplo de quando Adélia ao tentar corrigir o menino Adelino, recorre a “tão aviltante instrumento”, vejamos: “(…) a senhora de Adriano lançou mão de um chicote com que costumava mandar surrar os escravos (…)”. Ou também nesse trecho, quando Adélia buscando auxílio, recorre a uma ordem: “Aflita com o estado da filha, d. Adélia mandou imediatamente, por uma mucama, chamar o marido…”(10)
Fora a escravidão, por fim, em O Grumete, é também visto um contexto não somente local, mas global. A trama remete ao período do processo histórico chamado Imperialismo, e não existe, por parte de Constantino, algum tipo de questionamento. O autor, ele próprio inserido como testemunha ocular e residente de uma das áreas periféricas da economia-mundo, introduz parte das tramas e conflitos dos personagens nesse contexto. São pelas viagens de personagens como Adelino e Faustino, que chegaremos a Índia da dominação britânica, principalmente a dominada pelos estabelecimentos manufatureiros externos.
Em resumo, diante do que foi exposto sobre O Grumete de Constantino José Gomes de Souza, e considerando que alguns leitores modernos podem ter enfado ou mesmo alergia ao seu conteúdo de justificação moral e filiação conservadora, a leitura a esse romance-folhetim, ainda hoje esquecido, servirá aos propósitos de estudos da nossa história literária. Além disso, ele é um bom entretenimento e merece análises mais acuradas que enriqueçam a biografia do autor e de sua obra. De qualquer forma, para isso é fundamental que apareçam edições do romance permitindo novas leituras e novos leitores.
Notas
(1) Para o crítico Sílvio Romero, Constantino Gomes era “um tipo verdadeiramente singular, (…) que jamais entreteve relações com os escritores do seu tempo”, pois segundo ele, Constantino “aborrecia-os a todos”. Somente um era por ele admirado, foi “seu amigo e camarada Laurindo Rabelo”. In: ROMERO, Sílvio. Outros Estudos da Litteratura Contemporânea. Lisboa: Typographiada “A Editora”, 1905. p. 35.
(2) ASSIS, Machado de. Comentários da Semana. In: Diário do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 25 nov. 1861. p.1.
(3) As informações deste parágrafo foram extraídas dos jornais fluminenses Jornal do Comércio e do Diário do Rio de Janeiro, dos dias 04 e 05 de setembro de 1877.
(4) SOUZA, Constantino José Gomes de. O Grumete. In: Semana Illustrada. Rio de Janeiro, anno XIII, n.659, 27 jun. 1873. p. 5266.
(5) Ibid., In: Semana Illustrada. Rio de Janeiro, annoXIII, n. 667, 21 set. 1873. p. 5334.
(6) Ibid., In: Semana Illustrada. Rio de Janeiro, anno XIV, n. 681, 28 dez. 1873. p. 5442, 5443.
(7) Ibid., In: Semana Illustrada, Rio de Janeiro, anno XIII, n. 659, 27 jul. 1873. p. 5266.
(8) Ibid., In: Semana Illustrada, Rio de Janeiro, anno XIII, n. 660, 03 ago. 1873. p. 5275.
(9) CHALHOUB, Sidney. Literatura e Escravidão. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio dos Santos (Orgs.). Dicionário da Escravidão e Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 298.
(10) Ibid., In: Semana Illustrada. Rio de Janeiro, anno XIII, n. 660, 03 ago. 1873. p. 5274, 5275.
Referências bibliográficas
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CHALHOUB, Sidney. Literatura e Escravidão. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio dos Santos (Orgs.). Dicionário da Escravidão e Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p.298-304.
COUTINHO, Afrânio.A Literatura no Brasil,vol. 3: Era Romântica. 8 ed. São Paulo: Global, 2023.
GUARANÁ, Manoel Armindo Cordeiro. Diccionáriobio-bibliográfico sergipano. Rio de Janeiro: Pongetti, 1925.
MACEDO, Joaquim Manuel de. Supplemento do Anno Biográphico. Rio de Janeiro: Typ. Perseverança, 1880.
MEYER, Marlyse. Folhetim, uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
REZENDE, Cyro. O novo colonialismo. In: História Econômica Geral. 3 ed. São Paulo: Contexto, 1997. p. 162-186.
ROMERO, Sílvio. Parnaso Sergipano. Aracaju: Typ. Do “O Estado de Sergipe”, 1899. Vol.1. p. XIV-XV.
SOUZA, Constantino José Gomes de. O Grumete. In: Semana Illustrada. Anno XIII-XIV. Rio de Janeiro, 1873/1874.
SOUZA, Moisés Santos. Gomes de Souza: um perfil biográfico e literário: Parte I. Jornal da Cidade. Aracaju/SE, n. 14.302, 20 jan. 2021.
_____________________. Gomes de Souza: um perfil biográfico e literário: Parte II. Jornal da Cidade. Aracaju/SE, n. 14.303, 22 jan. 2021.
* Moisés Santos Souza, Professor. Graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).
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