* Luís Paulo Dias Miranda
Atualmente, o grafite é uma expressão artística que ocorre, principalmente, em espaços públicos ou visíveis ao público.
Nos anos 70, em Nova Iorque, a juventude manifestou suas insatisfações e protestos através de grafites, dando forte impulso às artes de rua, contrariando, desde então, os padrões artísticos tradicionais.
A palavra “grafite” vem do italiano grafito, ou, melhor dizendo “escritas feitas com carvão” ou “escritos feitos em paredes”. O grego “graphéin” que significa escreve, teria, também, dado origem ao nome dessa arte.
Diz-se que os romanos antigos já se manifestavam através de grafites em paredes como forma de protesto e dessas manifestações surgiria a arte mural, reconhecida no século XX, tendo em Picasso e Miró grandes expoentes.
A expansão do grafite, enquanto movimento de contracultura, deu-se a partir de 1968, quando jovens parisienses entenderam de concretizar protestos políticos mediante expressões de grande alcance e visibilidade. Na década seguinte, jovens nova-iorquinos passaram a difundir essa nova linguagem marcadamente marginal, saída dos bairros de periferia onde imperava a criminalidade e a falta de planejamento urbano. Buscavam com isso enfrentar o sistema opressor e tornar-se visíveis, ao reclamarem direitos que lhes eram surrupiados e lhes escapavam ao alcance.
No Brasil, especialmente com o surgimento da Tropicália e na cidade de São Paulo, principal conglomerado urbano do país, o grafite emergiu como mecanismo de denúncias e protestos contra mazelas sociais e mecanismos opressores da liberdade.
Alex Vallauari, um etíope radicado no país, grafitou em 1973, auge da ditadura militar, o mural “boca de alfinete”, através do qual clamava contra a censura então vigente. Naquele período, grafitar, além de ilegal, espelhava uma insatisfação, por estampar reflexos das aflições sociais sobre as quais deveria haver silencio.
Veio a “abertura”, a calmaria política, a liberdade trazida pela nova Constituição, mas o estigma da ilegalidade permaneceu formal até 25 de maio de 2011, com o advento da lei 12.408/11, que constituiu um marco para a arte urbana brasileira. A partir de então o grafite dissociou-se da pichação, buscando espaço e reconhecimento, tendo representantes brasileiros de renome e destaque internacional como Eduardo Kobra, Crânio e os Gêmeos.
Em agosto deste ano, enquanto Aracaju sediava a 7ª edição do Festival Internacional de Grafite “Agora é Avera”, realizado no bairro Santa Maria, antiga Terra Dura, na Zona de Expansão, Sergipe sinalizava aos artistas urbanos com o reconhecimento dessa expressão artística, ao permitir que as fachadas da Delegacia de Turismo, em plena orla de Atalaia, fossem decoradas por grafites.
Além de remeter à essencialidade da arte legal, aquela consentida por proprietários de imóveis ou gestores públicos, o fato dessa atitude ter se originado de uma Secretaria de Segurança Pública, tradicionalmente órgãos antes inibidores dessa arte, evidenciam a sensibilidade do poder público em abraçar e compreender o novo e a juventude, suas inquietações e anseios, conduzindo-a por caminhos diversos do vandalismo, ao lhe conferir cidadania.
De resto, temos um novo point turístico, onde as pessoas posam para fotos, divulgando para o mundo o potencial artístico de Sergipe.
* Luís Paulo Dias Miranda, secretário-executivo da Federação das Indústrias do Estado de Sergipe


