Agora, quem tira o foco dos alunos são vídeos de dancinhas no TikTok, memes que surgem e somem como cometas, e, claro, as redes sociais
* Gregório José
Era uma vez, em um tempo não tão distante, quando a sala de aula era um cenário muito diferente. Os jovens não entravam distraídos com telas piscantes e sons vibrantes, mas sim com objetos que eram os “gadgets” da época: figurinhas de futebol, piões, bolinhas de gude e, para os mais poéticos, uma borboleta que voava pela janela. Nesses tempos, uma borboleta era capaz de paralisar uma aula de matemática mais rápido que qualquer equação sem solução.
Ah, como as coisas mudaram! Antes, os alunos eram escoltados para a sala do diretor porque estavam trocando figurinhas durante a aula de história ou porque alguém tentava fazer um truque espetacular de pião bem no meio da explicação sobre o descobrimento do Brasil. Era uma época inocente, quase como se a travessura viesse embalada em saquinhos de pão de queijo.
Mas o mundo girou e, no meio dessa rotação, algo aconteceu. Surgiu o celular. E com ele, todo um universo de distrações que faz a borboleta parecer coisa do museu. Agora, quem tira o foco dos alunos são vídeos de dancinhas no TikTok, memes que surgem e somem como cometas, e, claro, as redes sociais, onde as “influencers” – veja só – convidam para baladas, jantares e até, como dizem por aí, programas “culturais” que antes seriam escândalo digno de novela das oito.
E os professores? Esses se tornaram quase mágicos, tentando competir com a tela brilhante que hipnotiza seus alunos. Ensinar a tabuada, enquanto a turma aprende um novo passo de dança no Instagram, é praticamente uma tarefa para David Copperfield. Ou Harry Houdini, se ele soubesse mexer no TikTok.
O que será que aconteceu? Talvez os peões e figurinhas fossem só uma distração de cinco minutos, enquanto o celular é uma distração em 5G. Talvez os antigos gadgets de bolso precisassem de um toque humano para ganhar vida, enquanto os novos têm algoritmo, marketing e uma capacidade de hipnotizar que faria qualquer borboleta bater asas de vergonha.
Os Walkmans e, depois os Ipods, eram presenças escondidas em fones amarrados na gola da camisa para enganar professores e, meninas de cabelos longos, ouvindo apaixonadas as fitas gravadas pelos namoradinhos de escola.
Ainda assim, fica a saudade de uma época em que a ida para a sala do diretor era simples, com um pião ou uma figurinha sobre a mesa, e não com uma notificação de que seu filho foi visto no recreio em uma “live” com mil seguidores, falando sobre o injusto sistema de notas. E quem sabe, um dia, quando a poeira digital assentar, talvez voltemos a admirar uma borboleta que passa pela janela, distraindo por um momento o mundo inteiro.
* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo


