Se fosse parlamentarismo, o primeiro-ministro já teria caído

* Gregório José

 

É impressionante como o governo Lula parece não aprender com os próprios tropeços. Aliás, tropeços é até um termo gentil. O que temos visto é um desfile de incompetência política misturada com arrogância e, pior, uma completa miopia institucional.
A Câmara dos Deputados aprovou a toque de caixa – por esmagadores 346 votos contra 97 – a urgência para votar um projeto que suspende o aumento do IOF, aquele imposto que afeta diretamente as operações financeiras e, por tabela, o bolso de milhões de brasileiros. Uma derrota acachapante, com direito a apoio de partidos que estão com um pé no governo e outro, agora nitidamente, na oposição. Sabe aquele aliado que te abraça e enfia a faca nas costas? Pois é.
Se estivéssemos em um regime parlamentarista, como em muitas democracias maduras, o primeiro-ministro – ou seja, o líder político responsável pela articulação, execução e sobrevivência do governo – já teria pedido as contas ou sido derrubado por uma moção de desconfiança. Simples assim. Porque não dá pra governar com 346 deputados dizendo “não” de forma tão sonora e unificada.
Mas estamos no presidencialismo tupiniquim, onde o presidente acha que governar é mandar recado via ministro, fazer reunião de última hora e distribuir promessas de emenda como se fossem balas de aniversário. Só que a festa acabou. Os deputados, aqueles mesmos que o governo tentou enganar com o jogo das emendas, resolveram dar o troco. E de forma pública, humilhante, com direito a transmissão ao vivo.
É importante entender o tamanho do recado. Isso não é só sobre o IOF. Isso é sobre a paralisia política que se instalou no Planalto. O Congresso, ressentido com o ritmo de liberação das emendas parlamentares – o famoso toma-lá-dá-cá – resolveu empurrar o governo pro canto do ringue. E o gancho que veio do STF, na figura do ministro Flávio Dino, cobrando explicações sobre o orçamento paralelo de R$ 8,5 bilhões, serviu de estopim para uma reação que já vinha fermentando há meses.
O mais irônico? O governo parece surpreso. Como se a velha política fosse novidade. Como se o preço da governabilidade não fosse cobrado em praça pública, com juros e correção monetária.
O Brasil hoje vive um presidencialismo de chantagem, onde o Executivo é refém de um Congresso que não confia mais no governo. O resultado é um país paralisado, com reformas emperradas, medidas provisórias naufragando, e agora, com a possibilidade concreta de o próprio orçamento ser um campo de batalha entre os poderes.
E Lula? Lula parece assistir de camarote, confiando que mais uma rodada de negociações de bastidor vai salvar o dia. Spoiler: não vai. O clima político mudou. O capital político do governo está derretendo mais rápido que gelo em asfalto.
Se o Brasil fosse um país parlamentarista, o primeiro-ministro teria caído ontem. Mas como não é, o que caiu – de vez – foi a ilusão de que este governo ainda tem algum controle sobre sua própria base.
O povo, como sempre, paga a conta.

 

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

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