Um suicídio é coletivo

* Andrei Albuquerque

Uma sociedade em que a meritocracia e o aperfeiçoamento de si impõem a responsabilização do sofrimento psíquico quase que unicamente sobre os ombros do indivíduo, vemos desde o psicologismo de birosca às falas de alguns especialistas apostarem na culpabilização individual pelo fracasso como causa principal. Assim, não é incomum que julguem que um suicídio teve como único fator um transtorno psíquico, diagnosticado ou não, supondo que foi apenas “depressão” e que de alguma maneira a pessoa não foi forte ou suficientemente resiliente.
A pressa por diagnósticos que tapem um buraco real alivia o mal-estar social diante do ato suicida que dilacera famílias e contraria os semblantes, as aparências, de felicidade e sucesso pessoal como objetivo último da existência. Essa pressa também apaga o contexto social e a implicação do sujeito que praticou o ato. Por exemplo, o suicídio que pode ter o endividamento como uma de suas causas, como gatilho, apontaria para fatores socioeconômicos que estão além de uma esfera individual. Além disso, a precariedade das condições de trabalho e o burn out nosso de cada dia não podem ser desconsiderados como possíveis gatilhos para o sofrimento psíquico e talvez para um suicídio. O psicanalista Christian Dunker, em seu livro “Lutos finitos e infinitos”(2023), afirma que o luto e o suicídio estariam relacionados a processos coletivos.
De um artista que tira a própria vida ao efeito Werther, gerado por uma obra de ficção, o suicídio encontra uma ligação com o que circula na cultura, no Outro. A publicação de “O sofrimento do jovem Werther” por Goethe, escritor alemão, em 1774 teria gerado uma onda de suicídios pela Europa devido ao desfecho trágico do protagonista que se mata por não ter o seu amor correspondido por Charlotte.
Recentemente, esse efeito teria sido provocado pela série 13 reasons why (2017), disponibilizada pela Netflix, que resultou em um aumento de casos de suicídio entre os adolescentes estadunidenses, a série teria ativado gatilhos. Portanto, se o que circula na cultura não deixaria de ter efeitos sobre os gatilhos de cada pessoa tampouco os seus efeitos são fáceis de prever, por isso no caso do suicídio se deve ter cautela com a sua divulgação.
Então, vemos que a influência de alguém famoso, de obras da literatura e do entretenimento e a pressão capitalista sobre o indivíduo “empreendor de si” – que deveria se aperfeiçoar constantemente e que vê o fracasso como uma infelicidade crônica – podem funcionar como um estopim para o desespero que levaria ao suicídio. Para o filósofo Emil Cioran, em “Nos cumes do desespero”(1933), quem comete o suicídio estaria nos cumes, no máximo do desespero. Contra o desespero, temos que estender a mão e aqui a religião cumpre um papel de acolhimento e de preenchimento de sentido para quem se sente perdido – e sim, a religião consegue injetar sentido em abismos.
Não é incomum que o julgamento mais rasteiro atribua ao suicida a condição de mero egoísta, atualmente mais em voga o termo narcisista, para quem comete o ato suicida ou apresente uma ideação suicida, porém em uma escuta psicanalítica – até mesmo em uma escuta que se exercita como empática realizada por qualquer pessoa – identificamos que há um peso que leva o sujeito ao desespero, a uma perspectiva de indignidade percebida como real – que vai além de uma lamentação neurótica – e a uma “angústia de empobrecimento”. Essa angústia apontaria para uma percepção de empobrecimento do Eu e do mundo externo que provavelmente afetaria também os suicídios por endividamento. Atualmente, o vício em jogos de azar virtuais, como o jogo do tigrinho, tem gerado a ruína financeira de famílias.
No mês dedicado à realização de campanhas de prevenção ao suicídio – batizado como “setembro amarelo” – é importante que a sociedade debata o tema e acolha o sofredor para que a dor psíquica de cada um não seja menosprezada. Escutar e acolher um sofredor é um exercício constante.

* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou 2 livros, artigos e textos em jornais.

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