* Carlos Seabra
A chamada Web3 – terceira fase da internet, baseada em tecnologias como blockchain (registros digitais descentralizados), NFTs (certificados digitais de propriedade) e contratos inteligentes (acordos automatizados por códigos) – tem sido apresentada como uma revolução que transfere o controle das plataformas digitais das grandes corporações para seus usuários.
Mas é preciso olhar com atenção: quem de fato controla essas ferramentas? E o que significam para os trabalhadores, educadores e movimentos populares?
Embora muitas vezes associada ao universo dos jogos online, a Web3 tem implicações muito mais profundas. Seu discurso de descentralização promete autonomia, mas frequentemente esconde uma nova forma de concentração de riqueza e poder. Sem regulação e organização coletiva, essa “liberdade” pode se converter em mercado especulativo, vigilância digital e aprofundamento das desigualdades.
Em vez de garantir protagonismo, os NFTs, por exemplo, criam uma falsa ideia de escassez digital, transformando criações culturais e até objetos educacionais em ativos para investimento. Assim como nas redes sociais, o trabalho criativo é capturado por plataformas e algoritmos, com poucos lucrando muito enquanto muitos produzem gratuitamente. Essa nova lógica pode ser vista como uma “mais-sabia” – a apropriação do saber-fazer e do tempo dos usuários por plataformas que extraem valor sem distribuir retorno equivalente.
No campo educacional, essa discussão é ainda mais urgente. O digital não deve ser fetiche. Tecnologias como celulares, redes, vídeos e plataformas online devem ser analisadas criticamente, questionando: a serviço de quem operam? Com que objetivos? Em quais estruturas de poder se inserem?
No Brasil e na América Latina, onde ainda convivemos com exclusão digital e precarização do trabalho, essas ferramentas devem ser politizadas. A chamada “prótese cognitiva” – ideia de que tecnologias ampliam a capacidade mental humana – só será emancipadora se seu uso estiver vinculado a projetos coletivos, soberanos e democráticos.
Por isso, a Web3 deve ser compreendida como campo de disputa. Seu potencial só poderá ser alcançado se for apropriado criticamente por sindicatos, educadores, movimentos sociais e coletivos culturais. Não basta resistir: é preciso intervir, transformar, propor.
Vivemos um tempo de reorganização geopolítica global, com os BRICS desafiando a hegemonia unipolar e com as tecnologias de inteligência artificial e robótica alterando profundamente os modos de produção. Essas novas tecnologias concentram ainda mais riqueza e reduzem a necessidade de horas de trabalho humano. Diante disso, torna-se inadiável debater uma nova forma de distribuição da riqueza: não mais baseada apenas nos contratos de trabalho e na quantidade de horas executadas, mas sim em critérios equitativos que garantam dignidade, inclusão e bem-estar para todos.
Essa nova lógica exige uma atuação estratégica do Estado. É urgente que o desenvolvimento tecnológico esteja articulado à soberania nacional, à segurança informacional e à defesa de um projeto popular de país. O uso socialmente justo da riqueza produzida pelas novas tecnologias não pode seguir subordinado ao financismo e ao rentismo comandado por bancos e big techs. Precisamos de um Estado ativo, indutor de justiça social e capaz de direcionar a tecnologia para o bem comum – e não para o lucro de poucos.
Pequeno glossário de termos e conceitos
Web3 – É a próxima geração da internet, construída sobre princípios de descentralização. Ao contrário da Web2, em que grandes corporações controlam os dados e as plataformas, a Web3 devolve o poder aos usuários. Baseada em tecnologias como blockchain e criptografia, a Web3 permite que as pessoas controlem diretamente seus dados e transações, sem depender de intermediários. Nos jogos online, isso significa que os jogadores podem possuir seus próprios itens, moedas e até influenciar as regras e o desenvolvimento do jogo, criando uma internet mais democrática e colaborativa.
Blockchain – É uma tecnologia de armazenamento de dados que organiza informações em blocos conectados de forma sequencial e criptografada. Cada bloco contém registros de transações que são verificados por uma rede descentralizada de computadores. Isso garante que os dados sejam imutáveis e seguros, sem a necessidade de uma autoridade central. Nos jogos, isso significa que todas as transações – desde a compra de um item até a troca de moedas virtuais – acontecem de forma transparente, eliminando fraudes e intermediários. É como um livro-razão público que todos podem acessar, mas ninguém pode alterar.
NFT – Sigla para “Token Não Fungível”. Os NFTs são como obras de arte digitais exclusivas, registradas em blockchain. Cada NFT é único, o que significa que ele representa algo exclusivo no mundo digital, seja um item de jogo, uma skin ou até mesmo um personagem. Ao contrário de moedas como o Bitcoin, que são fungíveis (ou seja, um Bitcoin é igual a outro), os NFTs possuem valor individual e não podem ser trocados diretamente uns pelos outros. Nos jogos online, eles oferecem aos jogadores a possibilidade de possuir e comercializar itens raros, criando uma nova forma de economia digital, onde o que está em jogo não é só diversão, mas também valor econômico.
Token – No universo digital, é uma unidade de valor criada por uma organização que pode representar ativos, direitos ou acesso a serviços. No contexto das criptomoedas e do blockchain, um token pode ser utilizado para diversas funções: pode ser um meio de troca, um investimento ou uma forma de acesso a funcionalidades dentro de plataformas descentralizadas. Pense nele como uma espécie de “moeda digital multifuncional”, que pode ser usada tanto para comprar itens dentro de um jogo quanto para participar de uma votação em uma rede de blockchain. Nos jogos Web3, tokens podem ser usados para movimentar economias virtuais ou adquirir NFTs.
Descentralização – Quando falamos em descentralização, estamos nos referindo à retirada do controle centralizado, típico de corporações, e à distribuição desse poder para os próprios usuários. Nos jogos Web3, isso significa que os jogadores poderão influenciar as regras, o funcionamento e até as economias do jogo. O jogo não será mais apenas a criação única de um desenvolvedor, mas sim um ecossistema controlado por sua própria comunidade. Poderá ser o início de novos formatos: de consumidores, os jogadores passam a ser co-criadores. E se, além disso ser usado em jogos, passar a ser também regra nas relações dos consumidores com as empresas fornecedoras de serviços ou produtos?
Marketplaces – São plataformas digitais onde usuários podem comprar, vender e trocar bens e serviços. Na Web3, esses mercados são descentralizados e operam em blockchain, garantindo segurança e transparência nas transações. Nos jogos online, os marketplaces permitem que jogadores negociem itens digitais de forma direta, sem intermediários. Por exemplo, um jogador pode vender uma espada rara conquistada em uma missão, uma propriedade virtual dentro de um jogo de mundo aberto, ou até mesmo seu personagem que foi evoluído ao longo de meses. Esses itens podem ser negociados por criptomoedas, criando uma economia real, onde o que acontece no jogo ganha valor financeiro fora dele.
Smart Contract – Imagine um contrato que se cumpre sozinho. Esse é o “contrato inteligente”, um código programado que executa automaticamente as condições acordadas entre as partes. No universo dos jogos, ele é usado para realizar vendas e trocas de itens digitais, de forma rápida e segura, sem depender de terceiros. O contrato garante que, assim que as condições forem atendidas (por exemplo, o pagamento por uma espada rara no jogo), a transação é realizada imediatamente e sem falhas. Um juiz incorruptível programado no código.
* Carlos Seabra, diretor da Oficina Digital, criador de jogos de tabuleiro e digitais, autor de livros de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional.


