O imprescindível de Bertolt Brecht

Rômulo Rodrigues

“Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são os melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas, há os que lutam toda a vida e estes são os imprescindíveis”.
Estou falando de João Rodrigues de Santana, o inesquecível João 60 que nos deixou muito jovem, aos 71 anos, deixando viúva a companheira das lutas Lúcia, 2 filhos, 3 filhas e casais de netos que hão de se orgulhar dele para sempre, nesse domingo 1 de fevereiro e foi sepultado na segunda 2 de fevereiro na sua terra Nossa Senhora da Glória, seu chão sagrado onde teve a coragem militante de ser candidato pelo PT a prefeito em 1982, abrindo caminho para tudo o que foi e está sendo conquistado eleitoralmente na capital do Sertão.
No início da década de 1980 com a implantação da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados em Sergipe, a NITROFÈRTIL, no município de Laranjeiras e da Petrobrás Mineração S.A, PETROMISA, dois fenômenos logo surgiram para transformar o perfil industrial e econômico do estado de Sergipe, o que veio alterar profundamente a sua estrutura política.
Foi de fundamental importância para o funcionamento da nova planta industrial a construção da Adutora do São Francisco para trazer o volume de água necessário ao funcionamento e solucionar a eterna carência no abastecimento de Aracaju, obra feita no governo de Augusto Franco.
E aí, junto ao movimento operário sindical emergente dos petroquímicos e mineiros houve o despertar da adormecida base petroleira juntando-se ao que estava construído no sertão a partir dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Poço Redondo liderado por Manoel Dionísio da Cruz e de Nossa Senhora da Glória liderado por João Rodrigues de Santana, João 60 e como resultado vê-se que o perfil político de Sergipe hoje supera em muito a composição daquela época, graças àquelas lideranças.
E aí, não pode ficar no esquecimento a iniciativa de duas jovens advogadas, Giselda Santos e Angélica Hora que instalaram o escritório do Polo do Sertão, dando suporte para desencadear o processo de ocupação da Barra da Onça, Queimada Grande em 1985 com extensão para a Borda da Mata em 1986, em meses de setembro e tantas outras até o surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, MST que chegou por aqui em 1987.
Também jamais poderá ser esquecido o apoio da Diocese de Propriá comandada por Dom José Brandão, que é homenageado com o nome na Escola de Formação do MST, dando força para a resistência a dois homens violentos contra os movimentos que eram o delegado regional do Sertão tenente Welington Costa e o juiz da comarca de Propriá o Dr. Novaes.
Paralelamente o movimento sindical operário eclode na região do Cotinguiba e a aliança operário/camponesa abraçou em 1983, pela solidariedade, a greve dos petroleiros de Paulínia, SP, e Mataripe, BA, e se fez presente no congresso de fundação da Central Única dos Trabalhadores, CUT, em 28 de agosto de 1983 em São Bernardo do Campo, tendo representação no primeiro ato pelas Diretas-já em novembro, na Praça do Pacaembu, na cidade de Sampa.
O impulso foi tão expressivo que no ano seguinte os sindicatos se engajaram na campanha pelas eleições diretas para presidente da República e como resultado do avanço no nível de consciência de classe, em 1985 o estagiário de direito do SINDIQUÍMICA/SE, Marcelo Deda, concorreu à PMA, pelo PT, numa das mais bonita e revolucionária campanha eleitoral do estado e o resultado é que: “Ainda estamos aqui”.
Foi esse o laboratório onde foram germinados lideranças da classe trabalhadora como Marcelo Deda, José Eduardo, Francisco Gualberto, Ana Lúcia Menezes, Ismael Silva e tantos outros forjando um partido da classe trabalhadora que hoje ostenta números invejáveis como; 39 mil filiados e mais de 10 mil votantes no último PED.
Mas, nas lutas institucionais para salvar as fábricas da degola pela ganância do capital contamos com um gigante para abrir portas em Brasília, especialmente para tirar a NITROFÈRTIL da pauta da privatização na reunião do conselho da Petrobrás, chamado Jackson Barreto, então prefeito de Aracaju, que antes, também como prefeito atuou com resultado positivo para solucionar o impasse da greve da PETROMISA.
Toda esta narrativa histórica, resumida, é para imortalizar o nome de João 60 que junto com o escriba foi membro titular da Direção Nacional da CUT no biênio 1986/88 e posteriormente vice-presidente da CUT/SE por dois mandatos consecutivos sob a presidência do escriba e recentemente, estava morando em um pedaço de terra no interior da Bahia e como era da sua natureza, organizava trabalhadores da Agricultura Familiar e os sanfoneiros da região onde seguia sua natureza, seguindo uma velha máxima; tudo que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra.
A perfeita demonstração do que representa João 60 foi dada por sanfoneiros sergipanos onde se fez presente um dos maiores, Erivaldo de Carira, tocando a músicas ao gosto de ele de todos nós durante o cortejo final debaixo de sol a pino com estaria nosso companheiro qualquer que fosse a tarefa que lhe coubesse, designada por seus irmãos da terra, das lutas e das colheitas.

* Rômulo Rodrigues, sindicalista aposentado, é militante político

 

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