O embate entre a imprensa aracajuana e estanciana: Costápolis, Petrópolis, Vieirópolis…

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

A fim de não deixar passar incólume esse episódio curioso da história estanciana, desconhecida, sem dúvida de muitos dos nossos contemporâneos, achamos por bem abordá-la neste artigo. Mas, o que é que tem a ver Estância com esses nomes curiosos? Desse assunto, o que importa aos estancianos? Tudo.
O caso se deu em 1937. Logo no início. Tudo começou depois que um pesquisador, acostumado a escrever na imprensa da capital, publicou um artigo no jornal Correio de Aracaju sugerindo a mudança do nome de Estância, a cidade fundada por Pedro Homem da Costa. Foi aí que os embates começaram. De Aracaju seria deflagrada uma disputa com os intelectuais estancianos. Farpas seriam lançadas daqui pra lá e de lá pra cá a ponto de outros intelectuais passarem também a se envolver. Parecia o prenúncio da Segunda Grande Guerra, que dois anos depois assolaria o mundo, na qual um país após o outro foi se envolvendo. Nada, absolutamente nada ficaria sem ter resposta. Tão envolvente foi o tema que meses depois, aqui e acolá se podia ver resquícios da disputa literária.
A culpa por ter deflagrado a tal guerra foi de Luiz José da Costa Filho (1886-1948). Respeitado, era conhecido nas rodas intelectuais como “Doutor Costafilho”. Além de advogado e jornalista, tornou-se um dos grandes intelectuais sergipanos da primeira metade do século XX. O fato é que, baseado em suas pesquisas sobre os ramos da genealogia sergipana, apontou que em Sergipe a existência, no seu entender, da maior árvore genealógica da família dos “ávilas” estava enraizada em Estância.
Costafilho era natural de Propriá, mas foi em Aracaju que fez fama. Fazia palestras, era um conferencista. No começo do anos 1930, sendo um consultor jurídico dos sindicatos sergipanos, como advogado chegou a fazer defesa de sindicato em Estância, incentivando em seus discursos, sua criação. Membro da Academia Sergipana de Letras, tornou-se também membro correspondente de diversas academias do Brasil e de países como França e Itália, como está posto no Dicionário de Armindo Guaraná. Chegou a ser também deputado estadual. Casou-se com a estanciana Alice Ferreira Cardoso ou Alice d’Ávila Cardoso (1891-1969), a primeira advogada de Sergipe. Na Princesa do Piauitinga, possuía uma fazenda denominada Alicépolis, quem sabe um reconhecimento, uma homenagem à sua esposa.
Na imprensa aracajuana escrevia sobre temas dos mais diversos como religião, agricultura, literatura, história… sempre com brilhante desenvoltura. O causídico era também professor e poeta. No começo do século XX, Costafilho escrevia na imprensa de Estância e na época recebia cordialidades dos estancianos. Porém, dessa vez esse seu escrito sobre a Cidade Jardim não teve apanágio. Pelo contrário, teve quem dissesse que ele era merecedor de “pancada grossa”. A discussão no campo literário foi intensa e findou chegando às raias da baixaria, do xingamento. Talvez porque o notável colunista, em face da sua tese, chegou a dizer que o nome Estância era um tanto “inexpressivo”.
No artigo a que nos referimos, Costafilho refletia naquele momento acerca das origens estancianas. Inevitavelmente teve que se referir a Santa Luzia. Sobre a velha cidade disse acertadamente que “um antigo Garcia d’Ávila havia lançado os fundamentos da Vila de Santa Luzia”. Disse ainda que Estância tinha sido “fundada por um Ávila e por Ávilas povoada”. Nesse ponto concluiu dizendo que a Cidade Jardim era “a cidade dos Ávilas, por excelência”.
Longe de fazer qualquer menção aos indígenas originários que por Santa Luzia, Estância e por todo Sergipe viviam, referiu-se aos tais ávilas, após destacar descendentes de Garcia d’Avila, que eram, segundo ele, os estancianos Pacheco d’Avila, Ávila Freire, Ávila Mello, Ávila Nabuco, Ávila Lima dentre outros, como um povo que “contribuíram com suas armas, as suas gentes e as suas fortunas, para constituição do Estado”.
Depois da introdução de seu texto bombástico Costafilho foi drástico. Conclamou os poderes públicos e até “os Poderes da História” e das “forças das nossas tradições patrióticas” que mudassem o nome de Estância… (Veja história completa no livro “Estância Secular”, 2ª edição, p. 314).

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, escritor e pesquisador, professor do Estado e da Rede Pública de Estância

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