EDITORIAL: Higiene porca

A higienização social em curso na capital sergipana precede um projeto de gentrificação do Centro de Aracaju

O Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública do Estado de Sergipe (DPE/SE) e o Ministério Público do Estado de Sergipe (MPSE) entraram com uma ação civil pública, com pedido de urgência, contra o município de Aracaju, a Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb), o estado de Sergipe e a União. A medida visa interromper imediatamente as remoções compulsórias de pessoas em situação de rua na capital e o recolhimento forçado de seus pertences.
A higienização social em curso na capital sergipana precede um projeto de gentrificação do Centro de Aracaju, notável em algumas ações da Prefeitura. No afã de transformar o cenário de abandono aparente, incorre-se em violações contra a dignidade humana.
Há precedentes, aliás. O episódio ocorrido na Feira do Centro macula a gestão da prefeita Emília Corrêa, muito ciosa de uma boa avaliação popular.  A Guarda Municipal estava lá apenas para oferecer o suporte necessário aos fiscais da Emsurb, encarregados de orientar os comerciantes sobre a disposição inadequada de sua mercadoria. A truculência dos agentes de segurança, no entanto, revelou o despreparo no trato com a população.
Aracaju, como de resto o Brasil inteiro. Segundo o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, 227 mil pessoas estavam oficialmente registradas como em situação de rua em agosto de 2023. Mas o Ipea alerta que este não é um censo oficial. Há dificuldades próprias de fazer um levantamento fiel de tal população, em função da vulnerabilidade desse grupo social. O número de cidadãos na rua da amargura pode ser muito maior.
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