* Vânia Azevedo
A corrida de rua vem assumindo papel de destaque na vida das pessoas de um modo que nem nos meus sonhos mais futuristas imaginei ver. Evidentemente, trata-se de um fenômeno que responde à condição de vida excessivamente estressante imposta pelo mundo moderno – um contexto em que bater metas é passaporte para vencer -, convertendo a própria existência numa caótica corrida de resistência mental. E para driblar a ansiedade aflorada e não perder o ritmo, a corrida de rua surge, notória por desopilar alguns, potencializar likes nas redes sociais para outros, além de promover saúde e alimentar vaidades aos seus praticantes. Contudo, para recordar os tempos áureos da corrida nas grandes metrópoles do Brasil, a palavra de ordem é revisitar a década de 1980, cenário das emblemáticas maratonas que coloriam a zona sul do Rio de Janeiro, cuja inscrição já era garantia de premiação, margeando as praias da zona sul carioca, cujo legado psicológico resumia a premiação a mero detalhe.
Após alguns anos de brilho e protagonismo, a corrida de rua desacelerou e perdeu ritmo no cenário esportivo brasileiro. Se o corpo necessita de vitaminas para manter-se saudável, o esporte não sobrevive sem uma injeção de apoio financeiro que alimente suas receitas. Com a saída dos grandes patrocinadores da época, os eventos de grande porte escassearam, até reaparecerem algumas décadas depois como uma orquídea fantasma – que pode passar anos sem florescer – ressurgindo e voltando a colorir as ruas com praticantes eufóricos, contagiados pela adrenalina como um sol de verão, tingido a paisagem com trajes coloridos e tênis estilosos. Diante do forte apelo por uma vida saudável, o número de participantes cresceu exponencialmente, exigindo que as provas tenham que largar em ondas volumosas; e o Brasil despertou para o modismo que veio para ficar. Ainda em consequência dessa febre, surgiram os clubes de corrida, paraquedas essenciais para os adeptos – nem sempre eficientes – que têm ajudado os postulantes a atletas a manterem contato com a modalidade, evitando que os males da modernidade os impulsionem para o abismo das incertezas ou à adversidade eventual.
No entanto, é paradoxal perceber que a corrida de rua, historicamente reconhecida pelo seu caráter democrático, quando o requisito orientado aos praticantes era colocar um tênis (quando possuía), acessível a todas as classes, em nada se compara aos grandes eventos do momento. Esse nicho incipiente transformou-se em símbolo de status e consumo, tornando-se um empreendimento rentável para quem organiza, excludente para corredores de menor renda, onde as inscrições das provas criam barreiras simbólicas e financeiras, dificultando o acesso popular.
Por outro lado, além de gerar oportunidades de trabalho para profissionais da área, incentiva a coleção de medalhas dos mais aficionados, servindo como mola motriz para abastecer feeds e consolidar a autoestima. Embora todos busquem superação, é tácito que o progresso nos treinamentos conduz a ganhos significativos de qualidade de vida. Contudo, quando a vaidade domina e o desejo exacerbado de ultrapassar limites confiáveis do treinamento transforma-o em objeto de culto, isso o faz transitar por uma trilha perigosa que o impede de perceber que correr, por si só, não o torna atleta; pelo contrário, dificulta a obtenção de benefícios reais à saúde, pois as lesões serão sempre uma realidade inexorável em sua trajetória, impactando fatalmente seu estado mental.
Entretanto, vale destacar o comportamento midiático que envolve a corrida e deixa claro que vivemos um momento surreal nessa modalidade. Entre os casos mais bizarros, é possível observar a presença de corredores ostentando orgulhosamente quilos de músculos em corpos atléticos – alguns de perfil improvável para um corredor -, como looks que em nada lembram a postura de um atleta comprometido com resultados. Há também aqueles que, mesmo quando correndo, não abrem mão da companhia do celular; hoje, acessório imprescindível – a despeito do incômodo que este causa – já que sem ele não haverá demonstrações inovadoras do malabarismo que é correr, fotografar, controlar o pace e encontrar seu espaço na prova; além da utilização de recursos energéticos que muitas vezes excede o necessário, impedindo um desempenho consistente.
Enfim, nesse vale tudo, sai na frente aquele que não espera a segunda-feira para começar, pois já descobriu o enorme barato que a endorfina proporciona. Portanto, a corrida acaba sendo uma aventura singular para seus participantes, cabendo a cada um o direito presumido de descrevê-la (ou corrê-la) como preferir, por vezes com relatos tão criativos de deixar pescador no chinelo. Afinal, quem liga para os meus questionamentos se o que interessa é ser feliz?
* Vânia Azevedo é professora

