* Luciano Correia
O sistema de transporte de Aracaju sempre foi uma expressão de como o poder público municipal trata a população. Grande parte dela não tem como escapar para a solução individual do carro, Uber ou a roleta russa em cima de uma moto. O serviço ruim é o preço da propina cobrada pelas empresas: se têm que prestar o serviço e, ao mesmo tempo, remunerar os “gestores”, não tem como exigir qualidade. Por isso o péssimo serviço se perpetua. Entre dar uma prensa nas empresas e moralizar o sistema, meu pirão primeiro. Essa é uma versão que atravessa os anos, até hoje sem provas materiais de que seja verdade. Como na fé religiosa, cabe a cada um crer ou não crer.
Dizem que a propina é histórica e monta raízes até em casos curiosos, como o de um ex-gestor que ia pessoalmente buscar seu butim na porta da empresa, afinal, no mundo da malandragem os intermediários podem tirar uma laminha para o leite das crianças. O precavido gestor, criativo e prudente, colocava ele mesmo as sacolas do dinheiro roubado na mala do carro, usando um chapéu mexicano para não ser identificado. Tudo suposição. Nada provado nem fotografado, de modo que o chapéu mexicano entrou para o folclore político e perdeu-se nas brumas do tempo.
Apontar corrupção aqui ou ali não é meu papel. Para isso temos os órgãos fiscalizadores e o jornalismo investigativo, mas o descaso com que todas as gestões trataram esse serviço essencial faz chacoalhar nossa imaginação. Com a capital Aracaju hoje enredada numa região metropolitana formada, por enquanto, por três municípios, a providência número 1 é a implantação do consórcio que vai reger o funcionamento do sistema no conturbado das quatro idades. Como escrevi aqui outro dia, por razões técnicas, expertise no assunto e responsabilidade pela maior fatia da população, Aracaju deve indiscutivelmente liderar o consórcio.
Na semana passada uma medida importante, fundamental, vinda com o atraso de várias gestões, começou a melhorar, ainda que em baixa proporção, esse sistema tão vital para a qualidade de vida dos que dependem de transporte público, ou seja, a ampla maioria. Me refiro à compra e entrega para funcionamento de um lote de 15 ônibus elétricos, que deveria ser comemorada até mesmo pelos que fazem oposição ao governo municipal, afinal, fazer política se opondo a um benefício para os mais necessitados é praticar a política dos abutres.
Foi o que ocorreu. Os três prefeitos da região metropolitana não se constrangeram em criar embargos para a entrega dos ônibus, alegando filigranas jurídicas que, a rigor, são políticas. A crítica aos novos ônibus é um ataque à prefeitura de Aracaju, cuja prefeita é hoje aliada do candidato de oposição ao governo do Estado. Essa é a verdadeira razão do alvoroço promovido pelos perfis e radialistas que defendem, por paixão e outros mistérios, o governo estadual. A postura dos três prefeitos obedece a um roteiro traçado no palácio Adélia Franco, algo que seria um escândalo, se ainda tivéssemos imprensa e jornalistas minimamente independentes.
Não temos. Aqui ou ali, resiste uma voz quase solitária, buscando fazer jornalismo em tempo de influencers alugados oficial ou oficiosamente pelos governos inimigos do povo e de uma imprensa livre. Apostar na precarização da vida da região metropolitana de Aracaju para prejudicar Valmir de Francisquinho é muito mais do que uma covardia: é ação política sórdida de quem é capaz de tudo para se manter no poder. É também uma demonstração de desespero, afinal, quem precisa urdir uma trama tão canalha já não tem instrumentos lícitos para fazer a disputa política. Ônibus elétrico e climatizado para os pobres? Que se lasque o povo!
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS


