Em Sergipe, não importa muito julgamentos políticos ou ideológicos: elas integram um suprapartido maior do que suas legendas tradicionais, à direita ou à esquerda
* Luciano Correia
Há décadas as mulheres são maioria entre a população brasileira. Também há anos ocupam cargos estratégicos de ministra, presidente, deputadas e prefeitas e, fora da esfera política, comandantes de grandes empresas. Não sei se o reconhecimento veio tarde, porque, na minha percepção, já estavam em lugares-chave há bastante tempo. A novidade é a institucionalização do seu papel em diversas instâncias, por instrumentos legais, como também pela dinâmica da realidade e dos costumes, que, inclusive, criminaliza preconceitos e discriminações.
Nesse aspecto, ainda falta avançar mais sobre a punição ao feminicídio, que estendeu penas na mesma proporção do aumento de casos. Considero absurdo que nem a esquerda nem muito menos as bancadas da extrema-direita do Congresso tenham considerado ainda a prisão perpétua para autores desse crime.
Caetano, cantando sua terra, dizia que “a Bahia tem um jeito…”. Pensando em Caetano, acho que as mulheres têm um jeito melhor de fazer as coisas, com mais acurácia, paciência e sensibilidade. Há casos desastrosos, como há de milhões de homens, mas, via regra geral, as mulheres seriam melhores líderes.
Sergipe tem aberto espaços historicamente aqui ou ali. Tivemos vice-governadoras, com Marília Mandarino e Eliane Aquino; uma senadora, Maria do Carmo; uma presidente da Assembleia Legislativa, hoje conselheira do TCE, Angélica Guimarães, e atualmente a primeira prefeita na história de Aracaju, Emília Corrêa.
Aqui não importa muito julgamentos políticos ou ideológicos: elas integram um suprapartido maior do que suas legendas tradicionais, à direita ou à esquerda: são vencedoras no que se propuseram num campo tradicionalmente ocupado pelos homens.
Por essa razão, foi muito importante quando meses atrás o nome da ex-superintendente do Sebrae, Priscila Felizola, começou a ser mencionado como eventual candidata a vice-governadora na chapa do ex-prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho.
Priscila carrega com ela vários elementos simbólicos, além do principal cacife que a credencia, a excelente gestão desenvolvida à frente do Sebrae, onde dinamizou e criou novas ações, inseriu a instituição em diversos segmentos com os quais antes praticamente não dialogava, e promoveu a interiorização das políticas.
Poderia citar ainda outro fator que julgo importante: ser filha e trazer com ela o apoio do ex-governador Belivaldo Chagas, responsável por um governo que não deixou pontes nem viadutos, mas fez outras pontes para que Sergipe seguisse no caminho da estabilidade, a principal delas sendo a espinhosa tarefa de sanear as finanças públicas, após o governo anterior levar a situação financeira do Estado para um perigoso abismo. Quem sabe o significado disso são os milhares de funcionários públicos que, pela primeira vez na história, tiveram ali seus salários pagos com atraso.
Mas uma qualidade maior de Priscila Felizola nesse momento da história do Brasil e do mundo é, por si só, pelo fato de ser uma mulher, numa função que precisa mandar um recado para a sociedade, o de que aqui, em terras sergipanas, a mulher terá protagonismo de verdade, sem sofismas, numa chapa para conduzir do Governo do Estado. Para tantos preconceitos, feminicídios e predomínio de uma cultura machista, o nome de Priscila é um recado e um alento. Valmir de Francisquinho não teria melhor companhia na missão que se avizinha.
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS


