* Julimar Roberto
Disseram que era impossível.
Impossível um menino pobre, nascido no sertão de Pernambuco, retirante nordestino, engraxate, torneiro mecânico, sem diploma universitário, chegar à Presidência da República. O Brasil dos sobrenomes importantes, dos títulos acadêmicos, dos salões aristocráticos e dos privilégios hereditários não havia sido desenhado para alguém como Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas ele chegou.
E não chegou por acidente. Chegou pelas urnas, carregando uma história que milhões de brasileiros reconheciam como sua. Em 2002, o operário atravessou a porta principal do Palácio do Planalto, aquela que, durante séculos, pareceu reservada aos filhos das elites.
Disseram que era impossível governar. Que lhe faltava preparo, que assustaria os mercados, que o país não resistiria à ousadia de colocar um trabalhador na cadeira mais importante da República.
Mas ele teimou. Governou. Foi reeleito. Deixou o poder com elevada popularidade e uma marca que seus adversários jamais conseguiram apagar, a demonstração de que o Estado brasileiro também poderia olhar para os que sempre estiveram do lado de fora.
Mas a história reservava outros impossíveis.
Parecia impossível que um ex-presidente, depois de dois mandatos, se tornasse alvo de uma ofensiva judicial, política e midiática de tamanha intensidade. Para os que enxergaram na Lava Jato um instrumento de perseguição política, tratou-se de uma operação destinada não apenas a condenar um homem, mas a interditar um projeto de país.
Lula foi preso. Foram 580 dias atrás das grades.
Sua imagem foi submetida ao julgamento cotidiano de manchetes, comentaristas, adversários e tribunais. Sua prisão o retirou da disputa presidencial de 2018. Muitos anunciaram seu fim político. Outros celebraram antecipadamente seu desaparecimento da vida pública.
Acreditaram que haviam encerrado a história.
Só esqueceram de combinar com a própria história.
O Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações por incompetência da Justiça Federal de Curitiba. E foi além ao reconhecer a parcialidade do então juiz Sergio Moro no processo do triplex.
Era impossível Lula voltar, diziam.
Mas ele voltou.
Voltou à liberdade, recuperou seus direitos políticos, percorreu o Brasil, reconstruiu alianças e enfrentou um presidente fascista que tinha a máquina pública nas mãos e não escondia sua disposição de permanecer no poder.
Em 2022, Lula realizou outro feito que muitos consideravam impossível: derrotou Jair Bolsonaro, tornando-se o primeiro brasileiro eleito três vezes pelo voto direto para a Presidência da República. Enquanto Lula fazia história com sua terceira vitória, Bolsonaro entrava para a história pela porta dos fundos, tornando-se o primeiro presidente brasileiro, desde a instituição da reeleição, a tentar um segundo mandato consecutivo e ser derrotado nas urnas.
O homem que passou 580 dias preso permaneceu no Brasil, enfrentou os tribunais, reconstruiu sua trajetória e voltou ao Palácio do Planalto pelo voto popular.
Já o presidente que se apresentava como destemido, que cultivava a imagem de valentia e fazia da agressividade uma marca política, fugiu para os Estados Unidos em 30 de dezembro de 2022, antes mesmo de terminar o mandato.
Não ficou para entregar a faixa presidencial ao vencedor e ninguém sentiu falta.
Mas o impossível não terminou com a posse.
Era preciso reconstruir políticas públicas, recuperar a interlocução internacional, enfrentar a fome, recompor instituições e governar um país profundamente dividido. Um país ferido pela intolerância, pela desinformação e pela tentativa de transformar adversários políticos em inimigos a serem eliminados.
Porque o maior feito de Lula não é ser infalível. É nunca ter desistido. É ter feito da persistência uma marca de sua trajetória, seguindo o conselho de sua mãe, dona Lindu: “Teima, meu filho, teima!”
É ter sobrevivido à pobreza, à exclusão, às derrotas eleitorais, à prisão, ao isolamento e à tentativa de apagamento de sua presença na história nacional.
Seus adversários tentaram transformar seu nome em passado. O eleitorado, em 2022, devolveu-lhe o futuro.
Mas o futuro também cobra seus desafios.
Quatro anos depois, Lula se viu diante de outro impossível. Aos 80 anos, precisou provar que ainda tinha fôlego para disputar uma eleição, disposição para enfrentar adversários e, sobretudo, capacidade de se reinventar.
O primeiro turno de 2026 trouxe um recado duro. Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro. O homem que tantas vezes havia contrariado as previsões estava, novamente, diante de uma derrota anunciada.
Diziam que era impossível virar.
Mas Lula já conhecia essa conversa.
Dessa vez, porém, não bastava repetir os caminhos que o haviam levado tão longe. Era preciso fazer diferente. Era preciso compreender que o Brasil havia mudado, que uma nova geração havia chegado às urnas e que até mesmo um líder experiente precisava aprender novas maneiras de conversar com o povo.
E Lula aprendeu.
Foi para a academia, fez exercícios, mostrou disposição. Dançou com Janja, pulou ao som dos jingles, entrou no universo dos videogames e descobriu que, entre uma conversa na porta da fábrica e um vídeo gravado pelo smartphone, havia mudado quase tudo. Menos a necessidade de ouvir as pessoas.
O velho líder sindical, acostumado aos palanques, às assembleias e aos discursos diante de multidões, passou a falar também para as câmeras dos celulares. Aproximou-se dos jovens, ouviu novas lideranças, abriu espaço para outras linguagens e compreendeu que não bastava pedir à juventude que conhecesse sua história. Era preciso mostrar que ele também estava interessado no futuro dela.
E há uma beleza particular nisso.
Lula não rejuvenesceu porque dançou, pulou ou jogou videogame. Rejuvenesceu politicamente porque aceitou aprender.
Enquanto tantos envelhecem agarrados às próprias certezas, ele teve a coragem de reconhecer que era necessário mudar. E mudou.
O segundo turno deixou de ser apenas uma disputa eleitoral. Tornou-se também um encontro de gerações. A experiência de um homem que atravessou mais de meio século de vida política encontrou a energia de jovens que ocuparam as ruas, as redes sociais, os grupos de mensagens e os espaços de mobilização.
A campanha ganhou outro ritmo.
Lula ganhou outro fôlego.
E o impossível começou a perder a força.
Em 25 de outubro de 2026, veio a resposta das urnas. Com mais de 64 milhões de votos, Lula derrotou Flávio Bolsonaro e foi eleito presidente da República pela quarta vez. Fez algo inédito nas disputas presidenciais de segundo turno desde a redemocratização, venceu depois de terminar atrás do adversário na primeira votação.
Mais um impossível para a coleção.
Aos 80 anos, o menino pobre do sertão pernambucano, que um dia disseram não ter condições de governar o Brasil, acabava de provar que ainda era capaz de surpreender.
Não porque fosse infalível. Não porque tivesse todas as respostas. Mas porque, diante das dificuldades, continuou procurando novos caminhos.
A história de Lula não é feita apenas de vitórias. É feita de derrotas, erros, aprendizados, quedas e recomeços. E talvez seja justamente essa a razão pela qual tantos brasileiros e brasileiros se reconhecem nela.
Porque a nossa vida também não é uma sucessão de facilidades. É uma luta diária contra aquilo que parece impossível. Todos os dias, sobrevivemos por teimosia.
Dona Lindu provavelmente reconheceria o método.
E assim como Lula teimou contra a pobreza, os preconceitos, as derrotas, a prisão, as previsões e, agora, contra o tempo e os limites que tentaram impor à sua idade, nós também seguimos teimando. Porque, se essa história nos ensina alguma coisa, é que não devemos desistir dos nossos sonhos, por mais que insistam em nos dizer que são impossíveis.
* Julimar Roberto, comerciário e presidente da Contracs-CUT

