* Vânia Azevedo
Em tempos de ansiedade galopante já não se sabe mais qual é o nível saudável de ansiedade necessária para impulsionar a vida (manter o indivíduo ativo, focado), pois são tantos os fatores que contribuem para potencializar essa condição que a normalidade vem sendo perdida de vista, e o que poderia ser apenas um fator gerador de motivação, passa a ter um efeito intimidante, levando o indivíduo a um medo paralisante e assustador.
Não é ao acaso a preocupação que a Organização Mundial da Saúde (OMS) esboça com a alarmante incidência de casos de ansiedade, haja vista que além de preocupante (e não dá para ignorar) estima-se estar o Brasil com18,6 milhões de ansiosos – números que compreende quase 10% da população -, o que me parece ser até um cálculo modesto se levarmos em consideração o universo de pessoas que nos cercam diariamente e apresentam níveis alarmantes de ansiedade; interferindo determinantemente no aproveitamento escolar ou mesmo no desempenho profissional.
Contudo, Isso não quer dizer que toda ansiedade seja um transtorno mental, visto que a ansiedade é necessária para desacomodar, além de possuir o seu lado positivo (pretere a apatia) e mantém o estado de alerta que induz à ação, conforme acontece nos momentos que antecede uma prova, um trabalho ou mesmo uma competição. E embora essa reação no comportamento tenha um caráter espontâneo e naturalmente saudável no ser humano, “a ansiedade ajuda a prever a chegada do predador”, já dizia Charles Darvin. Todavia, quando o nível de ansiedade desestabiliza o emocional ao ponto de paralisar o indivíduo, é certo que este já migrou para uma condição terapêutica que demanda cuidados específicos.
Conquanto, ainda que o estilo de vida seja fator determinante no processo de ansiedade, nem sempre se tem feito o necessário no sentido de mitigar a situação que inflama esse processo, quando só mesmo uma mudança expressiva no estilo de vida representará uma possibilidade de reversão do problema. Nesse caso, as redes sociais aliadas aos videogames assumem um protagonismo inquestionável, desafiando qualquer regra de convivência saudável nos lares e ampliando de maneira assustadora o universo de crianças, jovens e adultos portadores de ansiedade mental. E mesmo quando as reações divergem, geralmente, os altos graus de ansiedade tendem a paralisar o indivíduo, conferindo-lhe situações que vão da incapacidade funcional (quando passa a experimentar um sofrimento excessivo que o torna inapto para qualquer atividade), até o desconforto do sistema respiratório.
Essa condição caracterizada pelo pânico tornou-se o passaporte para uma vida problemática e de sérias consequências para a vida adulta, impactando o desenvolvimento do indivíduo no contexto escolar, além de pôr em dúvida suas reais possibilidades de desenvolver uma vida normal e produtiva no âmbito profissional.
Porém, quando olhamos para trás e percebemos o abismo que existe entre o estilo de vida de gerações passadas e as gerações atuais, não é difícil perceber que o brincar já não é a principal atividade das crianças; porque em algum momento do percurso se entendeu que criança deve assumir um número absurdo de compromissos em tenra idade; que a escola só é relevante se mantiver o aluno sob os seus domínios durante todo o dia; que a prática esportiva antes determinantemente lúdica hoje trabalha na perspectiva da busca de talentos esportivos, induzindo o indivíduo à profissionalização precoce, favorecendo um ambiente de disputa e segregação, que, enquanto superestima a capacidade de uns, segue alijando os que não se enquadram no padrão de aproveitamento imposto pelo mercado desportivo.
A rigor, nada pode ser mais natural na vida de uma criança que disponibilizar tempo para brincar e ser feliz. As atividades essencialmente lúdicas como o correr, saltar, arremessar, etc., demandam o desenvolvimento de habilidades básicas; sem a rigidez imposta pelas condições que a sociedade moderna preconiza para as crianças; sem o consumo insano de brinquedos eletrônicos que limita o desenvolvimento motor e inibe a capacidade de criação do indivíduo de apreciar outras formas de brincadeiras que necessariamente contribuam para o desenvolvimento natural e saudável da criança em formação.
Em vista disso, feliz daquele que como parte desse contexto e vítima inconteste dos novos tempos. ainda assim, consegue fugir desse padrão de ensinamento (adestramento) e, como uma semente soprada pelo vento ocasional, consegue germinar distante do terreno arado e perigosamente cultivado sob as condições insanas dos nossos dias.
* Vânia Azevedo é professora


