A arte acanhada de Belo a João Gomes

Antonio Passos

* Antonio Passos

Há muito tempo venho me perguntando: por que os gestores públicos contratam tão mal as atrações musicais para esses megashows grátis de hoje em dia?

E não é só aqui, no nosso torrão natal e redondezas, não. A coisa, parece mesmo uma praga. Foi confirmada, por exemplo, esses dias, no show da virada, nas areias de Copacabana!

Ainda corria o Jornal Nacional quando a Vênus Platinada começou a transmitir flashes ao vivo da apresentação de Gilberto Gil. Uma dose pra lá de intensa de arte musical.

Para os apreciadores de arte, um show daqueles convida a uma imersão total, uma conexão envolvendo todos os sentidos, uma “catarse”, como diria um esteta erudito.

Minutos depois, já começada a novela das nove, me dei conta de que o canal subsidiário Multishow estava passando tudo em tempo real. Aí, quem já ocupava o palco era Belo.

Quanta diferença! A exuberante presença da arte na música, no espetáculo anterior, agora era apenas um vulto acanhado. O entretenimento continuava, mas a arte nem tanto.

Logo me dei conta de que minhas ouças continuavam captando a sonoridade musical; porém, a minha atenção estava bastante espalhada, os sentidos divididos, cada um na sua.

Agora, eu estava disperso. Foi quando vi o transplante capilar do cantor Belo. Tão discreto quanto semelhante iniciativa de outrora, do nosso então governador Valadares.

Embalado pelo pagode romântico com suas letras melosas, a feição do Belo me fez lembrar do sorriso sempre acolhedor de um amigo, o professor Alex Nascimento.

Foi um oásis em meio ao deserto criativo recordar o aguerrido simão-diense. Reencontrar uma pessoa querida, refletida no semblante de outra; isso, às vezes, acontece.

Depois vieram a meia-noite, os fogos de artifício e João Gomes. Um cantador de arrocha com indumentária de forrozeiro. Minha irmã corrigiu: “esse estilo é o piseiro”.

Com tudo isso, me dei conta de que essa cobrança ostensiva de arte em toda música tem sido um devaneio meu. O entretenimento envolve muitos elementos não artísticos.

Agora aprendi. Os megashows de hoje em dia são eventos para o entretenimento. Às vezes, pinta uma música com muita arte, perdida no meio da muvuca toda.

 

* Antonio Passos é jornalista e professor. Servidor público (PRF) aposentado. Graduado em História e Mestre em Ciências da Religião. As duas formações pela Universidade Federal de Sergipe – UFS.

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