Talvez, de verdade, restem as pedras

* Michel de Oliveira

Ultrapassamos o primeiro quarto do século da internet. Tempo suficiente para que o encantamento inicial fosse substituído por um balanço necessário. Não o balanço otimista, nem o tecnoutópico, mas aquele que confronta promessas e resultados. O saldo é desalentador.
Durante muito tempo, venderam a internet como antídoto para a idiotização promovida pela televisão. Ela seria a saída para a passividade do espectador, para a programação empobrecida, para a lógica unidirecional do consumo de imagens. A promessa era clara: sairíamos do lugar de plateia para o de sujeitos ativos, críticos, produtores de conteúdo. O que temos hoje, no entanto, é algo ainda mais grave. Se a televisão cansava pela repetição, a internet cansa pela saturação e ainda mais repetição.
Disseram que a internet tornaria o mundo mais inteligente, informado e democrático. Que o acesso ilimitado ao conhecimento ampliaria consciências e fortaleceria vínculos sociais. Nada disso se realizou. As promessas caíram uma a uma, substituídas por trends descartáveis e uma notável idiotização coletiva.
Houve também a promessa de um espaço livre da publicidade, um território onde o conteúdo não seria atravessado por interesses comerciais tão explícitos. Outra ilusão. Hoje, não apenas somos bombardeados por anúncios disfarçados de conteúdo, como pagamos para continuar vendo propaganda. Pagamos para ser rastreados, segmentados, induzidos. Pagamos para habitar plataformas que transformam cada gesto, palavra e nossa atenção em mercadoria.
O que se consolidou foi um ambiente que premia o banal, vicia no raso e captura sujeitos em ciclos incessantes de estímulo e resposta. As redes sociais não apenas formaram um público cativo, mas dependente: treinado para reagir, não para refletir; formatado para repetir, não para elaborar. A lógica algorítmica não organiza o mundo em torno do pensamento, mas daquilo que gera engajamento. E engajamento, quase sempre, anda distante da inteligência.
Como a psique humana opera por espelhamentos, o universo digital não permaneceu confinado às telas. Ele transbordou e passou a moldar o cotidiano. A vida precisa ser filmável, fotografável, compartilhável. O que não performa para as redes, parece não existir, não gera engajamento. Se as relações sociais sempre tiveram algo de teatral, agora assistimos a uma encenação conduzida por atores mal formados e roteiros risíveis.
Quando tudo se torna performático, cresce a ausência do que é concreto. Sinto falta de pessoas com estofo, como diria meu amigo Peterson Dias. Até mesmo os supostos intelectuais se tornaram enfadonhos, limitados à repetição automática de glossários acadêmicos; não chegam nem perto de um pensamento autoral. Muitos artistas se perderam na performance de uma suposta poética, em vez de criar obras capazes de mover a imaginação. E escritores parecem mais preocupados em vender uma persona literária do que em contar uma boa história. O que mais se vê, é “miolo de pote”, onde o barulho ecoa justamente por causa do vazio. A reverberação não nasce da força, mas da falta de substância.
As consequências dessa transformação são profundas. Falta materialidade. Falta estrutura. Falta firmeza, profundidade, verdade e propósito. Palavras que passaram a soar antiquadas, quase constrangedoras. Falta base, simbolismo, alicerce, embasamento e reflexão. Vivemos imersos em um fluxo veloz e descartável, no qual tudo passa sem deixar marcas. A vida, que já era fugaz, agora parece desprovida de experiência. Há conectividade em excesso, mas pouca conexão. Há ritos constantes, mas nenhuma transcendência. Há religiões que não religam, discursos que não integram, narrativas que não conduzem do nada ao todo.
É diante dessa banalidade do digital que escolho outro gesto. Apego-me ao que é rupestre. A um retorno àquilo que é basilar, onde os pés possam caminhar com firmeza, onde seja possível reencontrar imagens arcaicas, símbolos primordiais, experiências que atravessam o corpo e não apenas a tela. Um afastamento consciente desses ritos vazios, dessa existência que não se realiza porque não se vive como experiência.
Busco uma resistência rupestre. Uma recusa ao polimento excessivo, à superfície lisa e brilhante das telas. Quero pedras para atirar, como primata que sou, contra as vidraças blindadas do digital, não na ilusão de quebrá-las por completo, mas para lembrar que ainda existe peso, impacto e fratura. Talvez, em meio ao excesso de falseamento e de vazio, de verdade, restem as pedras. E é nelas que finco os pés, não para fugir do mundo, mas para não desaparecer dentro da simulação dele.

* Michel de Oliveira, jornalista e doutor em Comunicação e Informação

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